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São
Paulo, domingo, 22 de março de
1998
RENATA LO PRETE
Na semana de Ratinho e do deputado ''pianista'', quero falar sobre
uma regata oceânica. É isso mesmo. E a ombudsman não enlouqueceu,
ao contrário do que pode aparecer.
Embora prosaica no tema, a história da regata Whitbread é importante
porque ilustra de maneira clara uma atitude cotidiana dos jornalistas
diante do que lhes diz o leitor. Esse comportamento pode ser resumido
em uma palavra: surdez.
Para quem, como eu, não se interessa por esportes náuticos, esclareço
que a Whitbread é uma competição internacional disputada a cada
quatro anos, com partida e chegada em Southampton (Reino Unido).
A atual edição da prova começou em 21 de abril do ano passado. Quando
ela terminar, no final de maio, os nove veleiros participantes terão
aportado em sete países de quatro continentes.
Pela tecnologia avançada dos barcos envolvidos, a Whitbread é considerada
a Fórmula 1 do iatismo.
Tudo isso aprendi nos últimos dias, compelida por leitores enfurecidos
com o silêncio da Folha sobre a etapa sul-americana da prova.
Quando as manifestações começaram a chegar, procurei a Redação.
A editoria de Esporte explicou que não cobre modalidades
não reconhecidas pelo Comitê Olímpico Internacional, caso desse
tipo de regata.
Ao saber da resposta, mais de um leitor ponderou que, a ser seguido
esse critério, o jornal deveria eliminar de suas páginas, por exemplo,
reportagens sobre automobilismo.
Em contato posterior, Esporte completou sua argumentação
dizendo que escapam à regra modalidades de reconhecido alcance internacional.
A regata Whitbread não é Corinthians x Palmeiras, GP Brasil de F-1
ou torneio de tênis com Gustavo Kuerten.
Mas, se mobilizou o leitor da Folha, por que não se pensou
em uma forma de atendê-lo?
Não, a política foi mantida.
No sábado, os veleiros partiram de São Sebastião, no litoral norte
paulista, em direção a Fort Lauderdale, na Flórida (EUA). Cerca
de 2.000 barcos estavam no mar para acompanhar a largada. A balsa
que liga a cidade a Ilhabela ficou parada por 45 minutos.
No domingo, nem uma linha sobre o assunto na Folha. O mesmo
na segunda-feira, exceto por registro no caderno que circula apenas
no Vale do Paraíba. Foi aí que a paciência dos leitores explodiu.
''Falta foco no leitor, que deve ser o único objetivo de um jornal'',
disse um deles. Manifestações semelhantes, em graus variados de
ira, ocuparam telefone, fax e endereço eletrônico da ombudsman ao
longo da semana.
''Por que diabos a Folha está boicotando a Whitbread? Só
por que a Eldorado é um dos patrocinadores?'', perguntou outro leitor.
Ele não foi o único a se referir ao apoio dado à prova pela emissora
de rádio do grupo que edita o jornal ''O Estado de S.Paulo'', concorrente
da Folha. Eleonora de Lucena, secretária de Redação, reconhece
que houve falha do jornal. "Apesar de ter importância reduzida em
termos estritamente esportivos, a regata acabou gerando um movimento
grande na região de São Sebastião, que a Folha deveria ter
registrado.''
Ela rejeita, no entanto, a interpretação de que a ausência de cobertura
teve razões comerciais. ''Isso não procede.
A Folha não se pauta pelo que o concorrente faz ou deixa
de fazer.
'' O fato é que, diante do que lhe pedia o leitor, a Folha
poderia:
a) ter flexibilizado os cri térios que adota em sua cobertura esportiva;
b) ter encontrado outro espaço no jornal, talvez ligado aos temas
de comportamento, que pudesse abrigar o noticiário sobre a regata.
Ao desprezar as duas possibilidades, a Folha voltou as costas
ao leitor e ainda permitiu que fossem lançadas suspeitas sobre a
isenção do jornal.
Leia mais
Ainda
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Do
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Torquato
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