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São
Paulo, domingo, 29 de março de 1998
RENATA LO PRETE
Repare os textos abaixo:
1. ''Patrocínio de cigarro pode ter 'sobrevida'.'' O título sobre
fórmula Indy, publicado no dia 12 em Esporte, vinha acompanhado
da seguinte explicação: ''Indústria ameaça rever acordo fechado no
ano passado caso Congresso dos EUA aumente os impostos''. No final
da reportagem, o leitor era informado de que, para escrevê-la, o autor
viajou a Miami a convite da Souza Cruz;
2. "As economias do Sudeste Asiático devem recuperar sua capacidade
exportadora a partir do final deste ano, intensificando as vendas
ao mercado externo em 1999.'' Assim começava a capa de Dinheiro
de quarta-feira, sob o título ''Ásia prepara novo salto das exportações''.
No pé, esclarecia-se que o repórter foi levado à região pelo Hong
Kong Trade Development Council;
3. "As vozes da beirada do milênio'', elevadas à capa da Ilustrada
de quinta-feira, pertenciam a duas cantoras entrevistadas no Rio de
Janeiro, onde o jornalista esteve convidado pela PolyGram, gravadora
de uma delas;
4. ''Globo nem cogita ser a vice-líder.'' Título da contracapa da
mesma edição da Ilustrada. Ali era apresentada a programação
de 98 da emissora de televisão, que patrocinou a ida do repórter ao
Rio.
Para não me estender demais, fico com esses exemplos recentes, embora
eles estejam longe de ser únicos. Representam uma prática disseminada,
da qual os jornais se recusam a abrir mão: as viagens a convite.
A Folha tem regra clara sobre o assunto, respeitada, aliás,
nos quatro casos descritos. Segundo seu ''Manual da Redação'', toda
vez que a viagem resultar em texto publicado, informa-se com clareza
que o jornalista teve as despesas pagas pelo patrocinador.
A iniciativa é louvável, ainda mais quando se leva em conta que boa
parte da imprensa nem sequer tem essa preocupação. Mas não resolve
todo o problema.
Não se trata de duvidar da integridade profissional dos envolvidos
nessas quatro coberturas. Não tenho motivos para isso.
Mas a relação que se estabelece nesses casos envolve uma promiscuidade
que é possível apenas restringir, nunca eliminar. O jornalismo feito
dessa forma jamais será de todo independente.
Alguém imagina que um repórter viajando a convite da Souza Cruz escreva
um texto demolidor sobre a indústria do cigarro?
Por que o relato do enviado especial a Hong Kong é tão reconfortante
em relação às perspectivas da economia asiática?
Em resposta à segunda pergunta, lançada por mim na crítica interna
do jornal, o autor argumentou que seu texto não era excessivamente
otimista, pois esclarecia que o salto nas exportações viria somente
depois de um ajuste.
Em seguida, citou seis aspectos negativos desse processo. Curiosamente,
três deles _''ingerência do FMI nas políticas econômicas nacionais,
falência de bancos e empresas e aumento do desemprego''_ constam do
relatório à ombudsman, mas não da matéria que chegou ao leitor.
No caso da Ilustrada, é no mínimo incômodo que o caderno cultural
do maior jornal do país tenha, na mesma edição, suas duas principais
reportagens custeadas por terceiros.
Não é tarefa da Folha decretar que a Rede Globo ''nem cogita''
perder a liderança da audiência. Isso é problema de Roberto Irineu
Marinho. O papel do jornal é apresentar a programação ao leitor de
maneira crítica.
Se o texto se limita a enumerar novidades que, em muitos casos, nem
o são, já há um problema. Se isso acontece em uma cobertura patrocinada
pela Globo, o dano à imagem do jornal é bem maior.
Com razão, o leitor desconfia dessas relações perigosas. Será que
o hotel elogiado em Turismo é mesmo tão bom? Afinal de contas,
o jornalista não apenas teve suas despesas pagas pelo objeto da matéria,
como provavelmente recebeu dos funcionários tratamento diferenciado.
Este ano, 8 das 12 capas do caderno trouxeram viagens ''de cortesia''.
''Com o tempo, teremos de caminhar para a política de arcar com os
custos de todas as viagens'', avalia a secretária de Redação Eleonora
de Lucena. Ela ressalta a transparência da Folha e afirma que
é obrigação do jornalista ser isento e crítico.
Do ponto de vista dos custos, a decisão é difícil. Mas muita credibilidade
e prestígio recairão sobre o primeiro jornal que puder dizer a que
dispensa os convites e paga tudo do próprio bolso.
*
Anúncio da rádio Eldorado publicado esta semana no jornal ''O Estado
de S. Paulo'' procurou ironizar a Folha pelo fato de, no domingo
passado, a ombudsman ter reclamado da ausência de cobertura da regata
Whitbread. A Eldorado, que deu apoio à competição, pertence ao mesmo
grupo que edita o "Estado''.
Não é a primeira vez que a concorrência usa a instituição do ombudsman
na tentativa de atingir a Folha. Sobre isso, não encontro palavras
melhores do que as enviadas por uma leitora: ''Que o "Estado' fature
em cima da sua matéria, tudo bem. Agora, fazer isso, sem antes implantar
seu próprio ombudsman, fica muito feio''.
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