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São
Paulo, domingo, 05 de abril de 1998
RENATA LO PRETE
"Quando uma informação é ofensiva a uma pessoa ou entidade, ouça
o outro lado e publique as duas versões com destaque proporcional'',
diz o "Manual da Redação''.
Martelada diariamente sobre seus profissionais, a regra também é
invocada toda vez que a Folha quer mostrar equilíbrio diante
de questões polêmicas. Na prática, porém, o princípio nem sempre
é respeitado.
Na segunda-feira, a Ilustrada trouxe reportagem sobre o lançamento
de biografia do guerrilheiro Carlos Marighella, morto pela repressão
em 1969. O material incluía trechos da entrevista concedida por
Emiliano José, o autor do livro.
No penúltimo deles, intitulado "A queda'', está dito o seguinte:
"Ninguém duvida de que Marighella caiu devido aos padres dominicanos,
que foram torturadíssimos. Havia a suspeita de que Paulo de Tarso
Venceslau houvesse falado, na tortura, da ligação de Marighella
com os dominicanos. Paulo deu 20 entrevistas nas quais detalha sua
participação. Mas foi o testemunho de Alípio Freire, que cuidava
das feridas de Paulo na prisão, que mudou essa versão. Alípio ouviu
de Paulo: "Abri o esquema dos padres'.''
Participante da luta armada contra o movimento militar, o economista
Paulo de Tarso Venceslau ganhou o noticiário há pouco menos de um
ano, quando veio a público dizer que existia, em prefeituras administradas
pelo PT, um esquema de favorecimento à empresa Cpem, de um amigo
de Luiz Inácio Lula da Silva.
O partido rejeitou as acusações e, recentemente, expulsou Venceslau
de seus quadros.
Em "Carlos Marighella - O Inimigo Número Um da Ditadura'', Emiliano
José conclui que, sob tortura, Venceslau teria dado informações
sobre o "esquema dos padres'', que, uma vez descoberto, teria levado
à emboscada em que morreu o fundador da ALN (Aliança Libertadora
Nacional).
Sem cerimônia, a Folha publicou essa versão da história como
se fosse a única. Venceslau não teve a oportunidade de oferecer
a sua.
Na crítica interna encaminhada diariamente aos jornalistas, apontei
o erro, que considero grave. Em resposta, o autor da reportagem,
Marcelo Rubens Paiva, disse considerar "curiosa'' minha posição.
"Trata-se de uma entrevista, acompanhada de resenha, em que o autor
expõe detalhes contundentes de sua obra, entre eles a participação
indireta de Paulo de Tarso Venceslau.'' Paiva argumenta que seu
texto original, reduzido pela edição, era mais detalhado e continha
declaração do entrevistado dando conta de que Venceslau nega sua
versão.
Em primeiro lugar, pondero que a ombudsman apenas pode considerar
o texto tal como chegou ao leitor. Em segundo, considero que o ponto
aqui levantado permanece intacto: por que a reportagem não ouviu
Venceslau?
"Tratava-se de crítica a uma biografia'', responde Paiva. "Se um
crítico tiver de ouvir todos os "outros lados', o exercício da crítica
se torna inviável.''
É possível que o repórter não tenha errado sozinho, mas seu argumento
não se sustenta.
Não se trata apenas de uma crítica, mas sim da apresentação de um
livro cujo autor dá em entrevista sua versão para um episódio histórico
nebuloso. Será que o acusado não tem nada a dizer?
Tanto tem que enviou carta ao repórter no dia em que o texto foi
publicado. No documento, encaminhado por Paiva na sexta-feira à
ombudsman, Venceslau nega com veemência a história contada por Emiliano
José, além de fazer uma série de críticas à forma como foi coletado
material para a biografia de Marighella.
Se o "Manual'' tivesse sido respeitado, essas informações teriam
saído no jornal. Quem tem problemas com Paulo de Tarso Venceslau
é o PT, e não a Folha. Estamos em ano eleitoral, o que deveria
levar a um zelo redobrado com o equilíbrio e a isenção
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