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e os extraterrestres |
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São
Paulo, domingo, 12 de abril de 1998
RENATA LO PRETE
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Charge
publicada no dia 08 de abril de 1998
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Como um fantasma,
a era Collor assombra o noticiário político.
Decorridos mais de cinco anos desde o processo de impeachment, a imprensa
não sabe ao certo o que dizer desse governo, e isso se reflete na
desigualdade com que trata seus personagens redivivos.
A origem do fenômeno reside no fato de que o presidente afastado,
sinônimo de degradação dos costumes políticos, foi também o introdutor
no país de uma agenda que é, em grande medida, a do atual governo
e dos principais veículos de comunicação.
Toda vez que que um collorido ressuscita, a Folha reage como
se assistisse à volta dos mortos-vivos.
Expressão de um sentimento da opinião pública, o espanto é compreensível.
Mas faltam critérios claros para definir o grau de indignação em cada
episódio.
Nenhum provocou tanto barulho quanto a indicação de Renan Calheiros
para o Ministério da Justiça. A decisão do presidente Fernando Henrique
Cardoso foi manchete da Folha _em outros jornais de alcance
nacional, veio diluída entre notícias da reforma ministerial.
A opção de FHC por um aliado de primeira hora de Collor, líder de
seu governo na Câmara, merece o destaque dado pela Folha. A
encruzilhada jornalística começa na comparação com coberturas anteriores.
No caso de Calheiros, senador pelo PMDB, a manchete foi acompanhada
de chamada em que advogados criticavam a indicação pela falta de afinidade
do escolhido com o meio jurídico e por seu apoio ao confisco da poupança.
(A pouca familiaridade do economista José Serra com os assuntos da
Saúde não despertou questionamento semelhante).
Nas páginas internas, além do editorial de contundência incomum, um
texto lembrava que Calheiros só rompeu com Collor porque ficou sem
o apoio do então presidente na disputa pelo governo de Alagoas. Ao
lado, foto de junho de 1990 em que os dois aparecem com Bernardo Cabral,
à época titular da Justiça.
No dia seguinte, a Folha trouxe mais duas páginas sobre o tema.
Em uma, a Ordem dos Advogados do Brasil reiterava as restrições ao
currículo do novo ministro. A outra rememorava seu papel na gestação
da candidatura Collor.
Acredito que falta a Calheiros estatura para o cargo. Mas cabem aqui
algumas reflexões.
As credenciais de seu antecessor, o também peemedebista Íris Rezende,
não eram substancialmente melhores.
Mais importante, a consulta aos arquivos da Folha mostra que
a ida de Antônio Kandir para o Ministério do Planejamento, em maio
de 1996, recebeu tratamento diferente.
Também virou manchete, mas as semelhanças terminam aí. A reação foi
bem mais comedida. Apenas para citar um exemplo, não houve a foto
da célebre entrevista coletiva na qual Kandir procurava ensinar a
jornalistas atônitos as virtudes do sequestro da poupança.
Conheço argumentos contrários às minhas ponderações. A nomeação de
Calheiros seria de todas a mais chocante pelo simbolismo que envolve
o Ministério da Justiça e porque o político em questão integrou o
círculo íntimo de Collor.
Pode ser. Ainda assim, penso que a Folha prestaria um serviço
ao leitor se apresentasse elementos objetivos para a avaliação das
figuras resgatadas por FHC. Alguma acusação concreta pesa sobre Calheiros?
Só a investigação jornalística pode responder. Ou ele não pode ser
ministro porque participou da "República de Alagoas"?
Se apenas publica sua opinião e a de terceiros, a Folha corre
o risco de praticar arbitrariedades, entre outras coisas porque de
passado collorido o governo FHC está cheio, a começar pelo vice-presidente.
Outro perigo é o de transmitir ao leitor a idéia de que essas pessoas
destoam do cenário tucano-pefelista.
A reportagem sobre a posse de Calheiros na Justiça, publicada na quarta-feira,
contava entre os presentes Augusto Farias, irmão de PC, e Luis Estevão,
até hoje ligado ao presidente afastado.
De Estevão o texto dizia que foi avalista da "Operação Uruguai'',
manobra de Collor para justificar depósitos de PC em suas contas.
Correto. Mas esqueceu de lembrar também que o deputado distrital não
é estranho ao governo FHC, para o qual arregimentou os "militantes''
que liquidaram Itamar Franco na convenção do PMDB.
No dia da posse, Renan Calheiros disse aos jornalistas que vê preconceito,
"de ordem geográfica inclusive'', nas reações negativas à sua indicação.
Embora meu propósito não seja defendê-lo, penso que ele tem uma dose
de razão.
O comportamento da Folha diante da reforma ministerial lembra
um pouco o das viúvas do sociólogo FHC. Estas gostam de alimentar
a idéia, traduzida de forma brilhante na charge de Angeli, de que
personagens como Calheiros são extraterrestres neste governo.
Não é bem assim. Eles podem não falar a língua do presidente, mas
ele se expressa com fluência no idioma de seus novos ministros.
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