|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Os
vivos e os mortos |
 |
|
São
Paulo, domingo, 26 de abril de
1998
RENATA LO PRETE
A morte repentina de Luís Eduardo Magalhães é um desses raros episódios
em que o jornalista, normalmente entorpecido pela rotinização de
tragédias que caracteriza a profissão, experimenta um choque que
o aproxima do sentimento do leitor.
Mas o impacto parece insuficiente para modificar o olhar que os
jornais lançam sobre a notícia. As edições de quarta-feira passada,
elaboradas em alta velocidade a partir do anúncio feito por volta
de 20h de terça, são exemplo disso. "
Governo FH sofre novo abalo: morre Luís Eduardo Magalhães", dizia
a manchete de "O Globo". "Morte de Luís Eduardo desfaz a articulação
política de FH", era a do "Jornal do Brasil". Na Folha, em
corpo (tamanho das letras) maior do que o habitual, adotou-se fórmula
seca: "Infarto mata Luís Eduardo".
Na crítica encaminhada diariamente aos jornalistas, elogiei a agilidade
da Redação, que produziu uma cobertura ampla em condições desfavoráveis
_além do horário, leve em consideração que não existe "material
de gaveta" sobre um jovem deputado com longa carreira pela frente.
Há, entretanto, um caráter redutor na Folha desse dia. Ao
longo das páginas, além da narrativa dos fatos que culminaram no
sinal de negativo do porta-voz do Senado, duas únicas interpretações
foram oferecidas ao leitor, ambas de cunho político.
A primeira: em menos de 48 horas, o presidente Fernando Henrique
Cardoso se viu privado de seus dois principais articuladores (Sérgio
Motta e Luís Eduardo). A segunda: o PFL perdeu seu candidato à Presidência
para 2002.
No entanto, o extraordinário dos acontecimentos da semana vai além
dessa leitura. Não se esgota nem mesmo no inesperado da morte de
um homem de 43 anos para quem fora desenhado um futuro no Palácio
do Planalto.
No centro dessa história está a tragédia pessoal de Antonio Carlos
Magalhães.
Um dia depois de ter saído do enterro de Motta ainda mais poderoso
do que antes, o senador "perdeu a vida", como teria dito a um colega.
Qualquer pessoa que conheça um pouco da trajetória de ACM e da ligação
que tinha com o filho sabe que não há exagero na frase.
É quase uma parábola, e ela fala a um público maior do que o leitorado
habitual do noticiário político.
A Folha tem dificuldade em transitar fora da esfera institucional
das questões, como se isso não ficasse bem para um diário de prestígio.
Na edição de quinta-feira, o jornal fugiu à regra. Em 5 das 11 páginas
ocupadas pela cobertura, trouxe reportagens que conseguiram transmitir
a comoção que cercou o velório e o sepultamento de Luís Eduardo
e o clima em torno dos personagens do drama.
Na sexta-feira, contudo, o luto em Salvador era passado. Os desdobramentos
locais foram relegados à porção inferior de uma página, sem menção
na capa. O dia de ACM, confinado em um pé de texto.
As baterias da Folha já estavam de novo voltadas para Brasília
e o cronograma de votação das reformas.
Não se trata de subestimar a importância da discussão política.
Mas, se permite que ela monopolize sua atenção, o jornal retira
o conteúdo humano de um caso em que este é essencial.
"O golpe que o senador baiano sofreu está sendo analisado pelos
estrategistas do governo e da oposição (...) Mas não é nisso que
me detenho. Penso na dor daquele homem gordo", escreveu Carlos Heitor
Cony. Acredito que tenha sido o caso de muitos leitores.
*
Na quinta-feira, Luís Nassif defendeu que a morte tem "o condão
de derrubar preconceitos e permitir análises mais isentas sobre
o morto".
Pode ser. Mas, invertendo a proposição do jornalista, penso que
a morte também pode servir para tornar menos equilibrada a biografia
dos personagens da notícia.
Dos veículos da grande imprensa, a Folha teve o maior contencioso
acumulado junto a Sérgio Motta, que jamais tolerou suas críticas
aos governo FHC.
Entretanto, na cobertura da morte do ministro, o jornal foi excessivamente
discreto ao lembrar as suspeitas de seu envolvimento no esquema
de compra de votos para aprovar a emenda da reeleição.
O caso, revelado pela Folha, ficou perdido no meio de amplo
material biográfico. Não mereceu título.
Tem de haver uma maneira de reconhecer as contribuições prestadas
por figuras públicas e respeitar a dor de seus familiares e amigos,
ao mesmo tempo preservando a coerência com o que o próprio jornal
publicou.
*
Ainda sobre Sérgio Motta, ouvi muitos protestos de leitores que,
na segunda-feira, receberam a Folha sem a informação da morte
do ministro _o que também aconteceu com a ombudsman.
A rodagem já havia começado quando saiu o comunicado oficial, por
volta de 0h55, de acordo com a Redação. As máquinas pararam para
esperar a troca, concluída em 20 minutos. Segundo o Departamento
Industrial, ela atingiu 77% dos exemplares que circulam na Grande
São Paulo.
Além da frustração pela ausência da notícia, três leitores reclamaram
que, no dia seguinte, o quadro com o resultado do levantamento diário
feito junto a assinantes _o Datadia_ ostentava a capa de um jornal
que não receberam, com a morte de Sérgio Motta na manchete.
Eleonora de Lucena, secretária de Redação, reconhece que, em casos
como esse, o quadro deveria incluir esclarecimento ao leitor. Segundo
ela, a Folha estudará a mudança.
Colunas
anteriores
19/04/1998
- Dois leitores, um painel
12/04/1998 -
FHC e os extraterrestres
05/04/1998 -
Dane-se o outro lado
29/03/1998 -
Quem paga a conta?
22/03/1998 - Naufrágio na regata
subir

|
|
|