|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Olho
por olho |
 |
São
Paulo, domingo, 10 de maio de 1998
RENATA LO PRETE
Na semana
que passou, o leitor testemunhou um episódio singular. No intervalo
de 24 horas compreendido entre duas edições, viu um jornalista do
primeiro time passar uma descompostura pública no presidente da República,
para em seguida desculpar-se com igual ênfase por ter cometido um
grave erro.
O protagonista da história foi Elio Gaspari, e ela começou na quarta-feira,
um dos dois dias da semana em que Folha, "O Globo" e "Zero
Hora" publicam regularmente textos do colunista (o outro é domingo).
Gaspari analisava o discurso de FHC, ou FFHH, como prefere escrever,
a ex-chefes de governo no Rio de Janeiro.
O presidente dissera que "no momento das reformas, o político deve
ser muito cuidadoso, porque os que melhor vão se beneficiar com as
reformas ainda não sabem disso. E os que começam a perder sabem de
imediato".
Arrematou: "Isso é Maquiavel".
As credenciais intelectuais de Fernando Henrique Cardoso costumam
intimidar aliados e adversários. Pouca gente apostaria em um escorregão
do presidente-sociólogo ao citar o pensador florentino.
Foi o que Gaspari fez. Do início ao fim da coluna, procurou demonstrar
que FHC andava "tomando liberdades indevidas com os clássicos". E
apresentou ao leitor o que seriam as palavras de Maquiavel antes de
terem sido embaralhadas pelo presidente:
"As ofensas devem se fazer todas de uma vez, a fim de que, tomando-se-lhes
menos o gosto, ofendam menos. E os benefícios precisam ser realizados
pouco a pouco, para serem melhor saboreados."
Maquiavel escreveu a frase acima. O único e sério problema é que ele
escreveu também o que dissera o presidente.
Pedido de desculpas
"Uma coisa nada tinha a ver com a outra", resumiu Gaspari no dia seguinte.
Sob o título "Pedido de desculpas a FFHH e aos leitores", a retratação
ocupou espaço semelhante ao do corretivo infundado que o jornalista
aplicara ao presidente.
"Quem transgrediu a lógica das citações, misturou conceitos e embaralhou
capítulos não foi FFHH, mas o signatário."
Em conversa com a ombudsman, Gaspari descreveu o caminho que o conduziu
ao desastre.
Ele escreveu a coluna no Rio de Janeiro, onde não dispunha de seu
exemplar de "O Príncipe". Recorreu à Internet para conferir se procedia
sua desconfiança em relação ao discurso do presidente.
Localizou a obra. Caiu na armadilha de realizar a busca a partir da
palavra italiana "bene" (bem).
Surgiu no computador o famoso trecho sobre fazer o bem aos poucos
e o mal de uma só vez. Estava armada a confusão. Gaspari concluiu
que o presidente cometera uma gafe.
Já em São Paulo, por volta de 2h de quarta-feira, teve à mão seu "Príncipe"
em formato tradicional. Decidiu fazer uma última checagem. Correu
as páginas e, por volta do terceiro capítulo, percebeu que Maquiavel
não o salvaria.
Na madrugada em que eram distribuídos os jornais com a primeira coluna,
Gaspari escreveu o pedido de desculpas. O texto chegou à Redação às
4h43.
Recolher adjetivos
O episódio toca em uma questão frequentemente abordada pelo leitor
no contato com a ombudsman: a correspondência (ou falta de) entre
o dano causado pelo jornal e o reparo publicado.
No caso, o erro foi feio. Gaspari, 54 anos e 34 de profissão, um dos
nomes mais importantes da imprensa brasileira, construiu todo um raciocínio
para corrigir o presidente da República a propósito de uma transgressão
que não existiu.
O tropeço factual do jornalista foi o ponto de partida para um estrago
maior, porque carregado de subjetividade.
Em sua defesa, Gaspari tem o fato de que fez um serviço completo na
hora de se retratar.
Considerou que um "erramos" seria insuficiente. Não se tratava apenas
de corrigir o engano relativo à citação de Maquiavel, mas de recolher
os adjetivos despejados sobre FHC.
Não só dedicou toda uma coluna à reparação, mas o fez em tempo quase
real _é exceção haver texto seu às quintas-feiras no jornal.
Pesos e medidas
Resta uma pergunta importante: o jornalista teria agido da mesma forma
se o atingido não fosse o presidente? Gaspari reconhece ter dúvidas
a esse respeito. Diz que certamente se retrataria, como fez outras
vezes.
Mas admite que, fosse outro o personagem envolvido, talvez não tivesse
tomado providência tão imediata e radical.
Pondera, no entanto, que dificilmente teria escrito uma coluna com
aquelas características a respeito de alguém que não Fernando Henrique
Cardoso.
O erro de Gaspari incomoda o leitor, por ser do tipo em que este identifica
uma atitude de superioridade frequentemente associada aos jornalistas.
Ao mesmo tempo, a transparência com que o expôs ajuda a neutralizar
esse efeito. No levantamento diário que a Folha realiza junto
a assinantes, vários manifestaram apoio ao comportamento do colunista.
Entre o dano e o reparo, o certo é evitar o primeiro e jamais fugir
do segundo, apesar de todo o constrangimento.
*
O atendimento ao leitor estará suspenso nesta semana. De hoje a quarta-feira,
participarei da convenção da Organização de Ombudsmans de Imprensa
(ONO), que este ano acontece em San Diego (Califórnia, EUA).
Durante minha ausência, os casos mais urgentes serão encaminhados
diretamente à Secretaria de Redação. Todas as mensagens serão respondidas
a partir do dia 18. Até lá.
Colunas
anteriores
03/05/1998
- Quase gêmeos
26/04/1998 - Vivos
e os mortos
19/04/1998 - Dois
leitores, um painel
12/04/1998 - FHC
e os extraterrestres
05/04/1998 - Dane-se
o outro lado
subir

|
|
|