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São
Paulo, domingo, 17 de maio de 1998
RENATA LO PRETE
Na semana
passada, enquanto os EUA esperavam pelo episódio final de "Seinfeld",
a Organização de Ombudsmans de Imprensa (ONO) realizou em San Diego
(Califórnia) seu encontro anual.
De domingo a quarta-feira, 40 ombudsmans discutiram desde a cobertura
do caso Monica Lewinsky até formas de lidar com telefonemas dos leitores
mais enfurecidos.
Quatro meses depois de ter surgido no noticiário, a história envolvendo
o presidente Clinton e a ex-estagiária da Casa Branca ainda dá trabalho
aos ombudsmans.
O relato dos norte-americanos deixa a impressão de que o episódio
contribuiu para aumentar a procura pelo representante do leitor, causando
questionamentos que acabaram estendidos a outras coberturas dos jornais.
Em palestra na reunião da ONO, Harold Fuson, advogado especializado
em causas ligadas à liberdade de expressão, afirmou que os ombudsmans
têm várias lições a tirar do caso Lewinsky.
A discussão sobre privacidade, em sua opinião, é apenas a mais aparente
delas. Ele recomendou que a atenção seja voltada não apenas ao material
publicado, mas também aos métodos utilizados para obter as informações.
Defensor de empresas de comunicação em vários processos, Fuson disse
ainda que as colunas dos ombudsmans lhe dão muita dor de cabeça, porque
podem servir de argumento aos reclamantes.
Encerrada a exposição, Jan Kees Hulsbosch contou que um de seus artigos
está sendo usado em processo movido pelo governo da Holanda contra
o jornal "Volkskrant". No texto, o ombudsman apontava falhas técnicas
na entrevista que deu origem à ação.
Os meninos do Arkansas
Outro caso que sobreviveu até a reunião da ONO foi o dos meninos acusados
de matar colegas e uma professora a tiros em escola do Arkansas, sul
dos EUA, em março.
O assunto foi levado à discussão por Osami Okuya, um dos ombudsmans
do "Yomiuri Shimbun" (10 milhões de exemplares por dia).
Envolvido com manifestações de leitores em virtude da onda de crimes
praticados por adolescentes no Japão, Okuya propôs um levantamento
entre os países representados na reunião sobre a política de identificação
dos acusados.
O resultado: só o jornal japonês não revelou o nome dos dois meninos
(de 11 e 13 anos, respectivamente).
Segundo Okuya, optou-se pelo mesmo tratamento dispensado aos crimes
que envolvem menores no Japão, ainda que as informações estivessem
disponíveis por outras fontes.
Nos EUA, os ombudsmans não têm notícia de jornal que tenha mantido
em segredo a identidade dos garotos.
Eles argumentam que, embora venha crescendo no país o debate sobre
a identificação de menores suspeitos, dificilmente o sigilo ocorreria
em um caso de tamanha repercussão.
A identificação também prevaleceu nos demais nove países representados.
Apenas os três ombudsmans do Canadá afirmaram com segurança que a
política em seus veículos teria sido diferente caso se tratasse de
um crime local.
Dos 40 participantes da reunião de San Diego, 27 são ombudsmans de
publicações dos EUA. Essa composição faz com que muitos dos temas
abordados sejam distantes do universo do leitor da Folha. Mórmons
e latinos.
A ombudsman do "Salt Lake Tribune", por exemplo, aponta o debate religioso
como a maior fonte de manifestação de leitores. A imensa maioria da
população local é mórmon, e quem não é se sente discriminado pelo
espaço que o jornal dedica ao assunto.
No "San Diego Union-Tribune", a ombudsman vive às voltas com reações
à cobertura da fronteira EUA-México. Segundo a editora de Cidades,
muitos leitores gostariam que o jornal ignorasse o noticiário além-divisa,
apesar de Tijuana ficar a só 24 km de San Diego.
Mas há aspectos do trabalho dos ombudsmans e deficiências apontadas
pelos leitores em seus jornais que se parecem em qualquer lugar.
Um dos workshops da conferência discutiu a quantidade e a qualidade
das fontes utilizadas nas reportagens.
Conclusão: muitas distorções e interpretações simplistas poderiam
ser evitadas se os jornais buscassem ampliar e aprimorar seu elenco
de fontes.
Outra reclamação comum: os jornais aceitam publicar correções pontuais,
mas ainda resistem na hora de reconhecer os erros mais graves.
Os ombudsmans não chegaram a conclusões originais sobre o que fazer
quando a fúria do leitor foge do controle.
"Sugerir que se acalme e ligue mais tarde" e "propor que coloque seus
argumentos por escrito" foram as duas soluções discutidas. Apesar
dos risos, não foi considerada a sugestão do ombudsman do tablóide
londrino "The Sun": "Quando isso acontece, desligo o telefone."
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