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São
Paulo, domingo, 31 de maio de 1998
RENATA LO PRETE
Esqueça a idéia de que a campanha eleitoral só começaria depois da
Copa do Mundo. A cobertura esportiva terá de dividir espaço com a
sucessão, porque, como avisou ontem a manchete da Folha em
letras maiores do que as habituais, "Lula encosta em FHC''.
A mais recente pesquisa Datafolha sobre intenção de voto para presidente
mostra os dois candidatos favoritos, há um mês separados por 17 pontos,
no limite do empate técnico.
A notícia chega para o leitor da Folha como a peça que faltava
para completar um quebra-cabeça. Nos últimos dias, ele encontrou nas
páginas do noticiário político diversas referências a "pesquisas apontando
queda de Fernando Henrique Cardoso''.
Sem explicação adicional. Como se todos soubessem de que se tratava.
O problema é que o leitor não sabia. Tratava-se de levantamento feito
pelo instituto Vox Populi, o primeiro a detectar queda mais acentuada
de FHC. Foi publicado no dia 21 pelo "Correio Braziliense''. O resultado
dava ao presidente 34% das intenções de voto, contra 25% para Lula.
O Vox Populi é o instituto de Belo Horizonte dirigido por Marcos Coimbra,
filho do cunhado do ex-presidente Fernando Collor. Depois de chegar
aos números por outras vias, um leitor protestou junto à ombudsman
por ter encontrado menções mais explícitas apenas "em colunas e no
Painel''. Sugeriu que o silêncio seria indício de favorecimento a
FHC. Neste caso, não penso que seja assim.
Mas o episódio levanta uma questão que poderá ser recorrente durante
a campanha, e que por isso merece atenção da ombudsman. Há 15 anos,
a Folha utiliza em suas coberturas eleitorais as pesquisas
do Datafolha, e o faz não apenas porque o instituto pertence ao grupo
empresarial que edita o jornal.
O Datafolha construiu nesse período um patrimônio de confiabilidade
testado em disputas acirradas. Foi o primeiro instituto, por exemplo,
a registrar a ultrapassagem de Luiza Erundina sobre Paulo Maluf na
eleição municipal de 1988. Em 1989, seu trabalho permitiu à Folha
cravar sozinha, no dia seguinte ao da realização do primeiro turno,
que seria Lula o adversário de Collor no segundo.
Foi também o primeiro a captar a dianteira de Luiz Antônio Fleury
na corrida para o governo paulista em 1990, um resultado que lhe valeu
críticas de institutos concorrentes, mais tarde obrigados a referendar
o diagnóstico. Quando divulga os números do Datafolha, o jornal sabe
de que maneira eles foram obtidos.
Uma publicação não pode arriscar sua credibilidade orientando-se por
percentuais pinçados da mídia. A Folha costuma registrar resultados
de outros institutos no Painel, seção dedicada aos bastidores da política.
A norma, porém, não é rígida.
O levantamento do Vox Populi e suas repercussões geraram mais de uma
nota, mas o nome do instituto e os números não foram divulgados (ontem
o Painel trouxe novos resultados do Vox Populi, 29% e 26%, desta vez
com todas as informações).
Embora sirva ao propósito de preservar a coerência editorial, a fórmula
da Folha me parece insuficiente nos casos em que os desdobramentos
extrapolam a estatística.
Nos últimos dias, todo o noticiário político foi, em alguma medida,
influenciado pelos resultados do Vox Populi. Somados a outros indicadores,
eles levaram aliados a pedir a FHC "humildade'' e "mudança de postura''.
Também ajudaram a explicar a entrevista coletiva de quarta-feira no
Alvorada. No campo adversário, Lula não teria passado o trator sobre
Vladimir Palmeira e os adeptos da candidatura própria no Rio com tanta
facilidade se o PT não tivesse enxergado luz no fim do túnel.
Tudo isso foi noticiado pela Folha, mas o leitor não pôde ter
o quadro completo para entender o que se passava. Defendo que, toda
vez que os dados de um levantamento forem relevantes para a compreensão
da notícia, o jornal os apresente na reportagem com clareza, ainda
que provenientes de outros institutos.
Se o presidente declara que não está preocupado com seu declínio nas
intenções de voto, a frase deveria vir acompanhada de uma explicação
do tipo: "FHC se refere a pesquisa do instituto A, que o aponta com
X%, contra Y% para seu principal adversário''.
Pronto. Qual é o problema? A atitude transparente em nada desvaloriza
as pesquisas que o jornal publica. É necessária para que o leitor
não se sinta como alguém que encontra os outros rindo de uma piada
cujo sentido lhe escapa.
O aquecimento da campanha e o cronograma nem sempre coincidente dos
institutos de pesquisa darão origem a novos episódios como esse. No
momento, a repercussão se dá sobre os resultados do Datafolha, que
captam, além da queda de FHC, a subida de Lula a partir da migração
de votos do tucano.
Se a pesquisa gerar fatos políticos importantes, os outros jornais
irão associá-los às conclusões do Datafolha? Provavelmente não, mas
não é pela atitude dos concorrentes que a Folha deve se pautar,
e sim pelo compromisso que tem com seu leitor.
Ele saberá reconhecer a diferença.
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