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São
Paulo, domingo, 07 de junho de 1998
RENATA LO PRETE
A manchete
de terça-feira _"Mercado reage a crescimento de Lula''_ resultou em
25 protestos à ombudsman. Não é um recorde, mas poucas vezes um único
assunto mobiliza tantos leitores.
Para eles, a Folha avançou o sinal ao atribuir a queda de 2,44%
na Bolsa paulista ao empate técnico entre o candidato do PT e o presidente
Fernando Henrique Cardoso, detectado pelo Datafolha.
Argumentam que as dificuldades da economia brasileira e a turbulência
nos mercados são anteriores ao crescimento de Lula.
Lembram ainda que, na mesma segunda-feira dos 2,44%, a Bolsa russa
despencou 10,2% e houve recuo nas principais praças da Ásia.
Além de enumerar fatores que enfraqueceriam a manchete, os leitores
apontaram escassez de elementos a sustentá-la.
"Felicito a Folha por ter conseguido entrevistar o mercado'',
ironizou um deles.
Ele se referia ao fato de que apenas três analistas foram citados
na reportagem, um deles preferiu não ser identificado, e deste foi
publicada uma declaração entre aspas.
''Sugestão: grafar Mercado Financeiro. Se for possível publicar a
idade desse senhor, melhor'', completou o leitor.
Eleonora de Lucena, secretária de Redação, defende a manchete. "O
movimento do mercado é fruto de um conjunto de fatores, que começam
no Brasil e passam pela situação externa'', diz. ''Nesse quadro, o
fato novo foi a mudança captada pela pesquisa, daí a opção feita pela
Folha."
Ela rejeita a idéia de que faltou substância ao texto. ''Não se faz
reportagem ouvindo três pessoas. Tínhamos segurança porque acompanhamos
o mercado todos os dias. ''
A cobertura eleitoral é talvez o terreno mais pantanoso no relacionamento
entre jornal e leitor. Não raro, as manifestações sobre o assunto
vêm carregadas de engajamento.
Na semana que passou, por exemplo, fui procurada por um leitor interessado
em me convencer de que a Folha foi injusta ao creditar a subida
de Lula aos tropeços de FHC, e não aos acertos da campanha do PT.
Tamanho equívoco de interpretação do leitor só pode ser atribuído
ao compromisso com a candidatura petista.
O que é direito dele. Só não deve esperar que a Folha faça
esse papel. É errado, no entanto, concluir que os protestos contra
a manchete são fruto exclusivo de petismo _linha de raciocínio à qual
a Folha costuma se apegar quando confrontada com esse tipo
de crítica.
Depois de muito ler, conversar e refletir, estou convencida de que
o mercado reagiu, sim, à ascensão de Lula. Porque é de sua natureza
sensível de cassino e porque, visivelmente, antes nem sequer analisava
a hipótese de derrota de FHC.
O mesmo percurso me convenceu também de que a Folha avançou,
sim, o sinal na edição de terça-feira.
Na capa, isolou o "efeito Lula'' da conjuntura internacional _o texto
interno informa, no último parágrafo, que "o cenário externo ajudou
a puxar as cotações para baixo''.
Dos três analistas citados, um descarta a tese da manchete. E o leitor
tem razão em reclamar da frase voadora. Dar aspas de declarações em
"off" é recurso para esquentar matérias que o bom jornalismo dispensa.
A Folha melhorou nas edições seguintes.
Ampliou o leque de repercussões e procurou trazer, em quadros e textos,
elementos para a avaliação da vulnerabilidade da economia e do momento
político.
Um leitor que percebeu o esforço indagou à ombudsman porque isso não
foi feito já na edição de terça-feira.
Boa pergunta. Os jornalistas provavelmente dirão que não houve tempo.
Mas essa resposta é insuficiente. Era relativamente simples manter
o equilíbrio na campanha pró-forma que se anunciava. O teste é manter,
agora, a isenção e o sangue frio.
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