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A aposta da Folha na Copa

São Paulo, domingo, 21 de junho de 1998


RENATA LO PRETE

Até o momento, a Folha acumula saldo positivo no Mundial da França. Em conteúdo e embalagem, sua cobertura representa um avanço expressivo em relação a iniciativas anteriores do jornal nessa área e na direção do que preconiza o novo projeto editorial: informação de qualidade e refinamento das análises.
Em uma Copa escassa em furos jornalísticos, a Folha anotou dois relevantes.
Foi o repórter Mario Magalhães quem adiantou, um dia antes da convocação, que haveria uma intervenção da CBF sobre o técnico Zagallo, materializada na inclusão de Giovanni no time.
E foi o colunista Juca Kfouri quem primeiro noticiou as pressões que culminaram no corte do atacante Romário.
De maneira geral, a resposta dos leitores tem sido positiva _e é bom lembrar que muitos deles vinham se declarando insatisfeitos com a cobertura esportiva da Folha.
Em sua maioria, as manifestações que tenho recebido sobre o caderno Copa 98 são elogiosas. Há as que registram erros pontuais _nenhum outro assunto reúne tantos especialistas como a seleção.
Minoritários e enfáticos, há ainda leitores que protestam contra o espaço dado ao Mundial, em sua opinião excessivo. Tratarei disso adiante.
Feitas as contas, a coisa parece caminhar bem. Mas como esta coluna se ocupa basicamente de coisas que não andam bem, apresento a seguir, para avaliação do leitor, minhas preocupações.

1. O céu é o limite - É este o lema quando se trata do espaço que a Folha, assim como os concorrentes, dedica à campanha pelo pentacampeonato.
Não subestimo a demanda do leitor pelo assunto, ou, como melhor definiu Carlos Heitor Cony, a importância emocional do futebol no país.
Ainda assim, os números assustam. No dia seguinte à vitória sobre o Marrocos, um cálculo aproximado das páginas reservadas à Copa nos quatro principais diários revelou, anúncios descontados, o seguinte balanço: ''O Globo'', 18; Folha, 16; "Estado'', 14; ''JB'', 14. E era o segundo jogo.
Imagine aonde chegará a escalada, fruto da hipercompetição entre os veículos, se o Brasil for à final do torneio.

2. Carruagem e abóbora - É muito bonita a apresentação visual do Copa 98, embora ela seja também diferente a ponto de fazer do caderno um corpo estranho dentro do jornal.
Suas capas têm apostado na interpretação, fugindo do registro simples de resultados e declarações que o leitor já recebe à exaustão pela TV. Há até mesmo ruído entre essa abordagem e a da Primeira Página, mais convencional.
O Copa 98 aprofunda a vocação estatística do noticiário da Folha, é extensivo nas reportagens e variado nas análises, o que o aproxima de um leitor de futebol que andava cheio de críticas ao jornal.
Fico pensando em como ele reagirá quando a festa terminar. Não falo do volume de material, que obviamente não se justifica fora de um evento desse porte, mas da volta inevitável ao padrão gráfico antigo e à pobreza de títulos como ''Time X pega time Y hoje, com TV''.

3. Sob a roupa nova - Há algo na Folha que não melhora nem por decreto: as legendas das fotos que o jornal publica. Pode reparar. Parece um detalhe, mas ele é revelador de um certo descaso para com a inteligência do leitor.
Na crítica interna, observei aos jornalistas que, a despeito de outros cuidados de edição, o Copa 98 segue com legendas de cego. Jogador A ''dribla'', B ''comemora o gol'' e C "ergue os braços'', informações verificáveis sem necessidade de leitura. Nada da criatividade experimentada nos títulos.
Na sexta-feira, tive a curiosidade de ler os comentários de meus antecessores sobre Mundiais passados. Descobri que, em 1990, Caio Túlio Costa constatava a ''obviedade irritante nas legendas das fotografias'' da Copa da Itália.
Há deficiências que vêm de longe, o que só deveria aumentar a disposição dos jornalistas para resolvê-las.

4. Quem guarda a casa? - Há três pesos-pesados do primeiro caderno entre os quase 20 comentaristas da equipe da Folha na França: Cony, Janio de Freitas e Clóvis Rossi. Entre as reclamações que ouvi nos últimos dias, várias tinham teor semelhante.
Eram leitores que diziam sentir falta dos artigos habituais dos três sobre as questões nacionais.
Tenho a impressão de que o protesto não resulta apenas do vínculo que o leitor estabelece com determinado colunista e seus assuntos preferenciais.
Trabalhava-se com a previsão de que pouco ou nada aconteceria durante a Copa, e depois começaria a campanha eleitoral. O empate técnico entre FHC e Lula e tudo o que veio com ele trataram de desfazer esse cenário.
Sobre a venda da Telebrás ou o embate entre governo e professores, o leitor quer saber o que pensam seus colunistas.
Janio se declara ''honrado'', e Rossi, ''lisonjeado'', com a lembrança. Cony diz compreender o protesto, mas acrescenta que o time da Folha presta um serviço importante ao cobrir a Copa. Os leitores que o querem de volta ao comentário político, avisa, ''não perdem por esperar''.


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