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São
Paulo, domingo, 28 de junho de
1998
RENATA LO PRETE
Não se pode negar coerência à cobertura da Folha sobre a
doença e morte do cantor Leandro. Começou mal. Terminou do mesmo
jeito.
Há pouco mais de um mês, quando o irmão de Leonardo iniciava quimioterapia
contra o tumor alojado junto a seu pulmão direito, mostrei aqui
que o jornal acompanhava o assunto de maneira redundante e pouco
informativa, quando não sensacionalista.
De lá para cá, excetuada uma ou outra reportagem mais esclarecedora,
a situação permaneceu inalterada.
Leandro morreu nos primeiros minutos da terça-feira passada. A notícia
foi divulgada às 2h30, quase no mesmo horário em que era concluída
a rodagem da Folha.
Pela manhã, o leitor recebeu um jornal que relatava o agravamento
do estado do cantor, enquanto TV e rádio transmitiam o velório.
Não foi assim em todo lugar. "Folha da Tarde'', "Diário Popular'',
"O Globo'' e seu irmão mais novo, o "Extra'', incluíram a notícia
em diferentes fatias de suas tiragens.
É verdade que esses diários têm circulação muito inferior à da Folha,
além de concentrada em suas cidades-sede. Os dois fatores facilitam
a distribuição, e permitem maior liberdade no momento de atrasar
a rodagem.
A explicação, no entanto, não resolve a vida do leitor. Em tese,
o avanço tecnológico da impressão deveria contribuir para elevar
a temperatura jornalística do produto.
A Folha, que já havia perdido a batalha da qualidade na cobertura
da doença de Leandro, perdeu também a da agilidade no desfecho do
caso.
Era de esperar que tentasse se recuperar no dia seguinte. Não foi
o que aconteceu. As três páginas que dedicou ao tema na quarta-feira
são um exemplo de desleixo editorial.
Para começar, mais de 30 horas depois da morte, anunciada antes
mesmo de a edição do dia anterior chegar às bancas, a reportagem
principal começava com a frase: "o cantor Leandro, 36, da dupla
Leandro & Leonardo, morreu à 0h10 de ontem devido'' etc.
''Para que eu ainda preciso disso?'', perguntou um leitor, bombardeado
por TV e rádio, diante de tamanha preguiça.
No texto, estava errado o horário do sepultamento.
Em outra página, os irmãos que originaram o nome artístico da dupla
apareciam como gêmeos em texto e com idades diferentes em identificação
de foto.
A mais previsível das gafes não ficou de fora: a Folha deu
como morto Leonardo, em vez de Leandro, em texto sobre as duplas
sertanejas (no dia seguinte, para completar o vexame, nota na Ilustrada
ironizava o fato de Paulo Henrique Amorim ter cometido deslize igual
na TV Bandeirantes).
Na crítica interna, observei que a Folha costuma caprichar
na apresentação de coberturas especiais. Desta vez, no entanto,
a página principal trouxe uma foto acanhada, espremida entre duas
massas de texto, com resultado sem nenhum apelo visual.
Esses descuidos não são fruto apenas da afobação do jornalismo diário.
Resultam antes da má vontade com que a Folha cobriu o caso
Leandro.
Música sertaneja não é assunto na Folha, porque supostamente
seu público não a consome. Esse raciocínio míope fez com que o jornal
acompanhasse o drama do cantor de forma extensiva e superficial.
*
Está acontecendo de novo. No final de maio, a ombudsman notava que
o leitor da Folha passara dias no escuro, pescando no noticiário
referências vagas à queda do presidente Fernando Henrique Cardoso
nas pesquisas. Tratava-se de levantamento do Vox Populi, mas isso
não era esclarecido nos textos.
Agora, a senha é a "recuperação de FHC nas pesquisas''. Se você
não leu a pequena nota no "Painel'' de quinta-feira, talvez ignore
que, segundo o Ibope, o presidente abriu oito pontos de vantagem
sobre seu principal adversário.
No último levantamento do Datafolha, cujos serviços o jornal utiliza,
FHC e Lula estavam tecnicamente empatados.
Na edição de hoje, a Folha publica pesquisa qualitativa sobre
a eleição presidencial. É um tipo de trabalho destinado a investigar,
de forma mais aprofundada, a percepção que o eleitor tem do país
e dos candidatos. Não apura percentuais de intenção de voto.
Insisto: as reportagens deveriam mencionar com clareza o resultado
de uma pesquisa, ainda que de outros institutos, quando isso for
relevante para a compreensão da notícia.
Se os levantamentos de intenção de voto são fotografias, como se
diz, então o leitor da Folha está com imagem ultrapassada
do quadro eleitoral.
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