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São
Paulo, domindo, 05 de julho de 1998
RENATA LO PRETE
É irônico que a Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica
tenha alertado, em anúncio publicado domingo passado nos jornais,
para o risco de transformar a investigação sobre as pílulas de farinha
da Schering em um novo ''caso da escola Base''.
Para quem não se lembra, esse foi o episódio em que a imprensa,
de mãos dadas com a polícia, destruiu a reputação de pessoas envolvidas
em acusações jamais comprovadas de abuso sexual contra crianças.
Virou, com toda a justiça, exemplo do que pode haver de pior no
jornalismo.
Ocorre que nada, no tratamento até agora dispensado à Schering pelos
veículos de comunicação, permite traçar paralelo entre os dois casos.
Ninguém acusou o laboratório de ter deliberadamente derramado no
mercado o placebo feito para testar nova embaladora do Microvlar,
provocando a gravidez indesejada de um número ainda indeterminado
de mulheres. Enquanto corre a investigação policial, o que se cobrou
da empresa foi o silêncio de um mês entre a identificação do problema
e o obrigatório alerta às autoridades e à população, um erro que
a Schering não teve como contestar. Desta vez, a imprensa foi, isso
sim, responsável por tornar pública uma história que deveria ter
vindo à tona por iniciativa da empresa.
Esse mérito não cabe à Folha, nem a outro veículo impresso.
Foi o ''Jornal Nacional'' que levou ao ar, em 19 de junho, a primeira
reportagem sobre vítimas do anticoncepcional de mentira, que deveria
ter sido incinerado, mas acabou nas farmácias.
Era sexta-feira. A Folha entrou no caso na terça, 23 _exemplo
de que notícia, exceto quando programada, é artigo cada vez mais
raro nas edições de fim-de-semana.
Sua cobertura, como a dos demais diários, começou discreta.
Ganhou volume e destaque no momento em que o Ministério da Saúde
determinou a interdição do laboratório.
O jornal tem mostrado equilíbrio. Até ontem, por exemplo, era o
único que havia publicado entrevista com o presidente da Schering
do Brasil, um longo ''pingue-pongue'' em que Rainer Bitzer expunha
o ponto de vista da empresa sobre o desvio das pílulas.
Mas isso não é o bastante. Há aspectos importantes do caso ainda
negligenciados pela Folha. Falta liga na cobertura das pílulas
de farinha.
As reportagens não informam que o Microvlar é mais do que ''um''
anticoncepcional. É o mais vendido no Brasil. Também não situam
a pílula no ranking dos medicamentos mais consumidos no país (seria
o terceiro, segundo coluna de Elio Gaspari; de acordo com ''Veja'',
o sexto).
Não são detalhes. São dados de apoio que ajudam o leitor a entender
a relevância da história _assim como o número de usuárias, outro
item que a Folha está devendo.
O episódio representa excelente oportunidade para mergulhar, com
investigação e esclarecimento didático, nas questões da distribuição
e da fiscalização de remédios, identificando as falhas por onde
prolifera a falsificação.
O jornal demora a se dar conta de que o assunto é de máximo interesse
público. Nos últimos meses, casos de falsificação levantados pelo
''Globo'' obtiveram repercussão tímida na Folha, velha prática
ditada pelas regras da concorrência. O leitor, é claro, não tem
nada com isso.
Na mesma linha, a Folha noticiou com menos destaque do que
outros jornais a tramitação da lei que pune com mais rigor os falsificadores
de remédios, aprovada na semana passada pelo Congresso.
Falta também, no acompanhamento da história das pílulas de farinha,
comparar a situação no Brasil e em outros países no que diz respeito
à indenização das vítimas.
O que aconteceria com Maria Aparecida Gonçalves, 35, primeira usuária
a notificar a Schering, portadora da cartela falsa, se ela morasse
na Alemanha, onde fica a matriz do laboratório? Seria diferente
ou não? É relevante comparar.
Se o jornal ensina ao leitor como fazer para não pagar mais Imposto
de Renda do que o necessário, ou para recorrer de determinadas taxas,
por que não explica com clareza o que as vítimas do placebo podem
fazer para reclamar seus direitos na Justiça?
Na sexta-feira, a Folha trouxe com exclusividade documento
em que a Schering alemã acusa o ministro José Serra de fazer uso
político do caso. Ponto para o jornal, sem dúvida, mas é curioso
que essa notícia tenha alcançado na Primeira Página mais
destaque do que qualquer outra desde o início da cobertura _e não
a descoberta das grávidas, ou a interdição do laboratório, ou ainda
a pesada multa que lhe aplicou a Secretaria de Direito Econômico.
No mesmo dia, outros jornais destacavam que o governo decidiu suspender
a comercialização de todos os remédios da Schering. Na Folha,
a informação ficou fora da capa e escondida no texto interno.
O que tem mais impacto sobre a vida do leitor: a troca de acusações
entre o laboratório e o ministro da Saúde ou a possibilidade de
não encontrar, nas prateleiras das farmácias, medicamentos usados
no tratamento de doenças como o câncer de próstata?
O comportamento de Serra é um capítulo à parte. Seus movimentos
demonstram inequívoco apetite eleitoral. Ao mesmo tempo, poucas
vezes no Brasil uma autoridade agiu de maneira tão firme diante
de um caso de flagrante desrespeito ao consumidor.
A Folha não deve ignorar o aspecto político, mas estará errada
se avaliar que ele é o centro dessa história. Seria ''brigar com
a notícia'', como se diz no jargão das Redações.
Para compreender a real dimensão do caso das pílulas de farinha,
talvez seja útil ao jornalista se imaginar na situação da mulher
que tomava Microvlar em 21 de cada 28 dias, confiando em um método
anticoncepcional que oferece 99% de segurança.
Por obra de um crime de autoria ainda desconhecida, descobriu-se
grávida, e não tem a menor idéia do que fazer.
Em entrevista ao ''Globo'', a porta-voz da Schering alemã criticou
o uso da palavra "escândalo'' para definir o caso. Difícil imaginar
outro ao qual o termo se aplique melhor.
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