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São
Paulo, domingo, 12 de julho de 1998
RENATA LO PRETE
Seja qual
for o resultado do jogo de hoje, a Folha sai do Mundial da
França reconciliada, ao menos por ora, com uma parcela do leitorado
havia muito tempo insatisfeita com sua cobertura de futebol.
O caderno Copa 98 é bonito e completo como nenhuma iniciativa
anterior do jornal na área. Supera os concorrentes em aparência e
substância.
Com títulos do tipo usado em revistas _''Não dá para não vencer'',
''Deu no sufoco'', ''Show''_, suas capas buscam traduzir a emoção
do esporte e conquistar o leitor-torcedor.
No entanto, nessa operação para cativá-lo, a Folha perdeu um
pouco da identidade. Curiosamente, a Copa que o jornal acompanha de
maneira mais ambiciosa é também aquela em que sua personalidade menos
sobressai no cenário geral da imprensa.
A Folha e a torcida nem sempre se entenderam. Em 94, por exemplo,
houve quem criticasse o jornal por levantar o caso das bagagens do
vôo que trouxe dos EUA os campeões e convidados da CBF.
Investigar as compras que entraram no país sem passar pela alfândega
seria procurar pêlo em ovo e, pior, desrespeitar os ''heróis do tetra''.
Desta vez, a Folha parece ter abdicado de seu papel tradicional
de provocadora.
As limitações impostas ao trabalho da imprensa em Ozoir-la-Ferrière,
onde a seleção brasileira esteve concentrada, contribuíram para uniformizar
o relato dos jornais.
Mais do que em Mundiais anteriores, repórteres sobreviveram quase
que exclusivamente das aspas distribuídas por jogadores e comissão
técnica junto ao alambrado do campo de treinamento.
Sintoma dessa dieta magra, os dois furos relevantes da Folha _a
intervenção da CBF na convocação oficial e o movimento que resultou
no corte de Romário_ foram anotados antes do início do torneio.
Capítulos inteiros do noticiário _a ''crise na seleção'' após a derrota
para a Noruega, o subsequente ''pacto pelo penta'' e o interminável
''o que está acontecendo com Ronaldinho?''_ só variaram de tom, exatidão
e equilíbrio de um jornal para outro.
A edição desperdiçou uma das raras oportunidades de exercício do contraponto
surgidas ao longo da cobertura, a do pênalti cometido por Júnior Baiano
contra a Noruega.
Não acho que a Folha deva ser cobrada por não ter cravado sozinha,
no dia seguinte, que o juiz estava certo.
O jornal não tinha, àquela altura, elementos suficientes para tanto.
Mas é de seu feitio destacar a dúvida em lances polêmicos, e isso
não foi feito.
Outro indicador do discurso único que tomou conta da mídia foi a malhação
de Pelé, condenado pelo crime de não ter apostado todas as fichas
na pátria contra a Holanda e, após o jogo, ter questionado a movimentação
de Taffarel em um dos pênaltis defendidos.
A propósito dessas declarações, o jornal publicou reportagem em que
enumerava previsões frustradas do ex-jogador, lembrando ainda que
no ano passado ele dizia que o Brasil ia mal nos amistosos.
Bem, ponderei na crítica interna, se fosse para relacionar todos os
palpites não confirmados de comentaristas esportivos, as páginas do
Copa 98 seriam insuficientes.
Não se trata de defender Pelé, que na vida já falou muita besteira,
mas há alguma coisa errada quando a Folha se porta como Galvão
Bueno.
Diante do massacre informativo da mídia eletrônica _até treinos da
seleção mereceram horário valioso de satélite_, interpretação e análise
tornaram-se os principais trunfos do jornal.
Mas até mesmo na opinião há pouca divergência. No papel e nas incontáveis
mesas-redondas das TVs, assistiu-se nos últimos dias à canonização
do outrora ''cabeça-dura'' Zagallo, como se não houvesse meio-termo
entre ser gênio e fazer tudo errado.
Na Folha, conhecida e criticada por ser rabugenta, a coincidência
de opiniões pôs no mesmo barco de entusiasmo colunistas como Alberto
Helena Jr. e Juca Kfouri.
Molas-mestras da opinião esportiva do jornal, ambos têm seriedade
profissional e currículo para achar o que quiserem sobre a seleção.
Mas o fato é que ficou faltando uma voz dissonante para avaliar o
desempenho da equipe de Zagallo na reta final da Copa do Mundo.
Tenho a impressão de que o Copa 98 deixará como legado o projeto
gráfico, bem-sucedido em sua ousadia, e a radicalização do uso das
estatísticas na análise do jogo.
Para os leitores, satisfeitos com o produto segundo consultas diárias
do jornal e manifestações à ombudsman, isso pode ter sido suficiente.
Mas ainda penso que a Folha poderia ter se diferenciado mais,
não pelo expediente gratuito de ser do contra, mas pelo saudável exercício
da dúvida, na crítica e no elogio.
Talvez ninguém queira ser chamado de agourento e correr o risco de
ficar fora da festa do penta. Afinal, como escreveu José Geraldo Couto
na edição de quinta, ''que coisa linda é o futebol _especialmente
quando ganhamos'' .
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