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São
Paulo, domingo, 19 de julho de 1998
RENATA LO PRETE
Depois
de escorregar no ufanismo que tomou conta da imprensa antes do desastre
na final da Copa, a Folha decidiu fazer jornalismo e se deu
bem.
Na edição de quinta-feira, trouxe contribuição decisiva para esclarecer
o que de fato aconteceu com Ronaldinho, 21, nas horas que antecederam
a derrota da seleção brasileira diante da França.
Em resumo, a investigação do repórter José Henrique Mariante revelou
que:
a) o jogador não teve convulsão, nem outro tipo de distúrbio de
origem neurológica, mas sim uma crise nervosa;
b) o atacante já demonstrava alterações de comportamento havia alguns
dias
c) o quadro de sintomas apresentado por ele naquela tarde alarmou
seus companheiros e dividiu o grupo entre os que defendiam sua presença
em campo e os que pediam sua substituição;
d) as duas facções se enfrentaram na concentração e depois no estádio,
pouco antes do jogo, quando o técnico Zagallo voltou atrás na escalação
de Edmundo e anunciou que Ronaldinho jogaria.
Assim o Brasil entrou em campo. A equipe anfitriã se mostrou bem
menos desprezível, em talento e apetite, do que nossa cegueira triunfalista
havia previsto.
Entre os leitores que comentaram o desfecho da Copa, a maioria elogiou
o empenho da Folha em elucidar o episódio. Mas houve também
quem pedisse ao jornal que parasse, ''pelo amor de Deus'', de falar
em Ronaldinho.
Um leitor do segundo grupo considerou que a Folha errou ao
colocar o problema com o jogador no centro da discussão. Para ele,
isso obliterou 'à realidade de que teríamos perdido de qualquer
jeito''.
Ponderei que é tarefa do jornal investigar um caso de enorme repercussão,
no qual os envolvidos se portaram sem nenhuma transparência.
O leitor não mudou de idéia. Nem eu.
Mas, descontada sua previsão de resultado, exercício que a esta
altura me parece ocioso, penso que ele toca em um ponto interessante.
De fato, apesar do reconhecimento posterior das fragilidades da
seleção, a cobertura ainda transmite a impressão de que o incidente
com Ronaldinho é o único responsável pelo 3 a 0 dos franceses.
Talvez isso ajude a explicar a passividade com que a imprensa reproduziu
sucessivas versões oficiais nos primeiros dias após o fiasco na
França.
Chama minha atenção o fato de que o furo da Folha não foi
do tipo mirabolante, produto de expedientes heterodoxos, mas sim
uma lição de casa muito bem feita.
O jornalista _repórter de automobilismo que durante a Copa acompanhou
outras seleções_ resgatou a história colhendo depoimentos de uma
série de testemunhas e cruzando o material obtido.
De certa maneira, isso poderia ter sido feito por quem quer que
estivesse realmente interessado em descobrir o que se passou no
domingo.
Acho, no entanto, que parte da mídia repetiu o bordão ''o que aconteceu
com Ronaldinho'' menos por disposição de esclarecer alguma coisa
do que para alimentar a perplexidade do público _e a sua.
É mais confortável dar combustível a teses estapafúrdias _epilepsia,
envenenamento, ''venda'' do resultado_ do que reconhecer, diante
do leitor/espectador, que participamos de uma fantasia coletiva
em que os defeitos da seleção e os méritos alheios foram igualmente
menosprezados.
*
Se diz que Ronaldinho 'àmarelou'', a imprensa desrespeita o jogador
da mesma forma que o lateral Roberto Carlos, o primeiro a definir
dessa maneira o que aconteceu a seu colega de quarto.
Igualmente
equivocado é tratá-lo como vítima da mídia, discurso em voga. A
mesma Rede Globo que contratou a namorada do atleta para servir
de dublê de repórter na cobertura do Mundial agora pede respeito
à privacidade a Ronaldinho. É ingênuo retirar do melhor jogador
do mundo as escolhas que ele faz. Não dá para querer preservar da
curiosidade pública um romance que já foi usado para vender refrigerante.
*
Quem acompanha os jornais, por gosto ou ofício, assistiu a um espetáculo
único na semana que passou.
A imprensa esportiva, que já havia mudado seu discurso uma vez para
se adequar às vitórias sobre Dinamarca e Holanda e antecipar a conquista
final, trocou bruscamente de tom quando o que anunciara não se confirmou.
A Folha não escapou do fenômeno.
Antes ''iluminado'', Zagallo voltou a ser ''teimoso'' e ''ultrapassado''.
As qualidades do capitão Dunga, referência obrigatória ao longo
do torneio, desapareceram do noticiário. E ressurgiram as críticas
à CBF, adormecidas na reta final da campanha pelo penta.
Seria apenas cômico, se não fosse também indicador de total falta
de coerência e desrespeito à inteligência do leitor.
*
Um leitor critica a ombudsman por ter escrito, no domingo passado,
que o caderno Copa 98 trouxe cobertura completa dos eventos
do Mundial.
Ele não mora em São Paulo. Por essa razão, aos domingos seu exemplar
registrava o resultado apenas da primeira partida do sábado (menos
no fim-de-semana em que houve Brasil x Chile à tarde).
O leitor argumenta que não pode considerar completo um produto com
essa limitação.
Tem toda a razão em reclamar de minha desatenção, pela qual peço
desculpas.
Embora o horário de fechamento não seja determinado pela Redação,
e sim por exigências industriais e de distribuição, o leitor não
tem por que se considerar satisfeito.
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