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São
Paulo, domingo, 26 de julho de 1998
RENATA LO PRETE
Na quinta-feira, a Folha deu manchete a uma ferida social de
gravidade alarmante: o crescimento da violência contra crianças e
adolescentes.
Baseada em números do Pro-Aim, programa de informações sobre mortalidade
da Prefeitura de São Paulo, e do Ministério da Saúde, a reportagem
de José Roberto de Toledo mostrou o avanço do homicídio como causa
de morte nas faixas etárias de 5 a 9 e de 10 a 14 anos, na cidade
e no conjunto das capitais do país.
Entre os casos relatados havia o de uma menina de 18 meses morta com
oito tiros, a maioria no rosto, em chacina na periferia paulistana.
Embora convencida da brutalidade do problema abordado pela Folha,
terminei a leitura com algumas dúvidas de ordem técnica, que apresentei
à Redação na crítica interna.
Em primeiro lugar, chamou minha atenção o fato de que a manchete _''Homicídio
é a 1ª causa de morte entre 10 e 14 anos''_ foi ancorada em diferença
mínima: 62 assassinatos em São Paulo, nessa fatia da população, durante
o ano passado, contra 61 mortes causadas por acidentes de trânsito.
Essa margem estreita entre os números absolutos não apareceu na Primeira
Página. O texto da capa mencionava apenas os 62 homicídios.
O quadro que o acompanhou indicava o equilíbrio entre os dois fatores.
Ali estavam os percentuais correspondentes às principais causas de
morte. No topo, assassinatos, com 17,3% dos 359 óbitos. Quase na mesma
altura, acidentes de carro, com 17%.
Observei também que o levantamento do Pro-Aim apontava em terceiro
lugar, com 37 óbitos, ou 10,3% do total, um item denominado ''demais
acidentes''.
Ponderei aos jornalistas que, somados os acidentes de trânsito e os
outros, seria possível interpretar que esse grupo foi responsável
por um número de mortes bem superior ao de homicídios _98 contra 62.
Por fim, senti falta na reportagem de alguns dados de apoio, em especial
do universo da população nas duas faixas etárias analisadas. Esse
número poderia não alterar as conclusões apresentadas, mas ajudaria
o leitor a avaliar as dimensões do problema.
Em resposta à minha primeira observação, Toledo defendeu o destaque
dado pela Folha à liderança dos homicídios, explicando que
a situação é inédita na cidade.
Argumentei que isso não constava da matéria. Ele disse ter preferido
deixar de lado tal afirmação para não misturar dados do Pro-Aim aos
do Ministério da Saúde. Justo, mas então não é o caso de levá-la em
conta agora.
Sobre meu segundo ponto, o da preponderância dos acidentes em geral
sobre os homicídios, o repórter esclareceu que a separação adotada
pelo programa da prefeitura, e respeitada pelo jornal, obedece às
normas da Classificação Internacional de Doenças (CID).
Mortes provocadas por acidentes de trânsito são contabilizadas separadamente
porque se considera que elas são passíveis de prevenção por meio de
políticas públicas.
Sob o guarda-chuva dos ''demais acidentes'' estão abrigadas ocorrências
como afogamentos, quedas, eletrocussão e envenenamentos.
Toledo concordou com a ombudsman sobre a importância dos dados de
apoio. Mas considerou que a comparação essencial foi feita: a evolução
dos homicídios frente à evolução do total de mortes.
O cruzamento mostrou que, tomados os primeiros cinco anos desta década
e o mesmo período da anterior, os assassinatos cresceram a um passo
muito mais acelerado do que as mortes entre 10 e 14 anos.
Na faixa dos 5 aos 9, avançaram na contramão do total de mortes, que
diminuiu.
Encerrado o exame, concluí que no material publicado há um item que
não se sustenta: o título interno. Não confere com o texto a afirmação
de que ''Homicídio é o que mais mata crianças''. Na faixa que mais
abrange a infância _entre 5 e 9 anos_, ele é a sexta causa de morte,
segundo o levantamento.
Compreendo as limitações de espaço que atormentam a edição na hora
de preparar títulos, mas há um limite que não se pode ultrapassar.
Descontado esse tropeço, as constatações do jornal estavam amparadas
nos números, e sem dúvida tratavam de uma situação grave.
Penso, no entanto, que a Folha ''forçou a mão'' na manchete,
seja pela diferença estreita, seja porque nada impede uma interpretação
alternativa de que as causas acidentais ainda matam mais.
"Acho importante que haja uma discussão metodológica sobre o uso de
estatísticas nas reportagens, pois sua aplicação tende a ser cada
vez mais recorrente'', diz Toledo, cujo trabalho nessa área vem rendendo
bons frutos ao jornal.
A reflexão precisa ser feita com urgência. Baseada em pesquisas de
todo tipo, a Folha por vezes apresenta conclusões que não param
em pé, e a própria edição de quarta-feira trouxe exemplo disso.
Na sequência da reportagem sobre o levantamento do Pro-Aim, a editoria
de Cidades estampou: ''Parente é principal autor de morte infantil''.
Explicação complementar: ''Pais, tios, irmãos e avós foram os autores
de 34,4% dos homicídios de crianças registrados em 1997''.
Impressionante, se fosse verdade. A leitura do texto revelava que
não eram mortes ''registradas'', como anunciado no alto da página,
mas "assassinatos noticiados por jornais de 14 Estados'', analisados
pelo Movimento Nacional dos Direitos Humanos.
Como é possível se basear em pesquisa realizada a partir de jornais
para fazer uma afirmação como essa? E os homicídios que não são noticiados?
Daniela Falcão, autora da matéria, reconheceu as ''limitações técnicas''
do levantamento, mas defendeu sua publicação ''por abordar um assunto
sobre o qual pouco se fala e se sabe no Brasil''. Muito nobre, mas
isso não autoriza o jornal a tomar tamanha liberdade com números.
A repórter da Sucursal de Brasília frisou não ter feito ''inferências
que extrapolassem as informações contidas no levantamento''. Mais
ou menos. A abertura do texto dava a entender que se tratava de conclusão
geral.
O título não sobrevive nem sob a perspectiva redutora da pesquisa.
Segundo ela, enquanto 34,4% dos homicídios estudados foram cometidos
por familiares, 55,3% tiveram autor ignorado.
Como se vê, está mais do que na hora de o jornal refletir sobre o
que pode ou não ser dito a partir de estatísticas. Usadas com discernimento,
elas são valioso instrumento de trabalho para o jornalista.
Do contrário, tudo pode acabar mal. Na conversa com a ombudsman, Toledo
lembrou a frase de um Nobel de Economia: ''Bem triturados, os números
revelam qualquer coisa''. Neste último caso, a Folha os triturou
até sobrar um grande equívoco.
*
Tinha decidido não voltar tão cedo ao tema dos quadrinhos. Mas aconteceu
de novo, e desta vez foi muito pior.
Um leitor telefonou à ombudsman para apontar a repetição não de uma,
mas de cinco tiras que haviam saído em abril passado. Foram republicadas
nos últimos dias.
Seu autor, Glauco, assumiu a responsabilidade pela ''reciclagem''.
Alegou ter enfrentado problema de equipamento.
O "erramos'' saiu ontem. Tem razão o leitor que escreveu que a Folha
não leva a sério a edição dos quadrinhos.
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