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São
Paulo, domingo, 09 de agosto de 1998
RENATA LO PRETE
Escaldada
por experiências desagradáveis, a Folha tem demonstrado certa
prudência no tratamento dispensado ao caso das mulheres estupradas
e mortas no Parque do Estado.
Discordo, por exemplo, do leitor que me enviou mensagem na quinta-feira
para dizer que o jornal "condenou por antecipação'' Francisco de Assis
Pereira, 30.
A leitura das (muitas) páginas dedicadas à história me fez concluir
que, de maneira geral, houve mais cautela do que em episódios anteriores.
Mas, entre a intenção de não repetir erros e o resultado impresso,
ainda sobram coisas injustificáveis.
Na quinta-feira, por exemplo, o jornal dizia mais de uma vez que Pereira
era "acusado'' de ser o maníaco do parque. Observei à Redação na crítica
interna que, àquela altura, ele era somente suspeito.
No mesmo dia, a Folha afirmava que o maníaco ''matou pelo menos
oito mulheres'', implicitamente descartando a possibilidade de que
os crimes não tivessem sido cometidos todos pela mesma pessoa.
Do jeito que a coisa vai, em breve estarão relacionando ao caso tudo
o que for escavado no Parque do Estado e arredores _e os corpos naquela
região, divisa entre São Paulo, São Bernardo e Diadema, não devem
ser poucos.
O jornal passou dias insistindo em escrever que um suposto telefonema
do motoboy à irmã de uma das vítimas seria ''prova'' contra ele. Era,
no máximo, um indício.
Tudo isso pode parecer preciosismo depois da reviravolta iniciada
na noite sexta-feira, quando a TV Bandeirantes anunciou que Pereira
havia assumido a autoria dos crimes.
O estopim foi o material obtido por "Veja". Com a imagem do motoboy
e um "fui eu" estampado na capa, a revista deixou os concorrentes
atônitos.
É bom lembrar, no entanto, que a discussão jornalística não se esgota
com o eventual desfecho das investigações.
O princípio constitucional da inocência presumida foi atropelado desde
o início do caso, o que por si só merece reflexão.
Os problemas surgidos na cobertura tampouco se restringem à pressa
na imputação de culpa. Dizem respeito também à forma como são tratadas
as vítimas.
Na terça-feira, recebi telefonema de um leitor com uma queixa bastante
específica. Ele pedia à Folha que dispensasse "detalhes gratuitos"
ao descrever os estupros, sob o argumento de que esses relatos desrespeitam
os familiares e a memória das vítimas.
Ao iniciar a conversa, sabia que seria difícil sensibilizar a Redação
para o ponto de vista do leitor. Com um caso sensacional na mão, esse
tipo de pudor é a última coisa a passar pela cabeça do jornalista.
Concordei em boa parte com a argumentação do leitor, embora me pareça
impossível estabelecer uma regra geral. Às vezes, ponderei, o detalhe
pode ser relevante.
Mas o que dizer do trecho publicado dois dias depois, em reportagem
sobre o frustrado mapeamento do DNA do estuprador? ''Os espermatozóides
foram encontrados no canal do reto'' da vítima tal (nome completo
fornecido), ''cujo corpo está entre os achados no parque. Indicam
que ela havia mantido relações sexuais anais''.
Perguntei se havia ocorrido ao autor do texto que a moça não manteve
coisa nenhuma. Foi estuprada. Não está mais aqui para contar sua história.
Outra que não teve chance de apresentar sua versão dos fatos foi Isadora
Fraenkel, 19, desaparecida desde fevereiro. Na manhã de ontem, Pereira
levou os policiais à ossada que seria da moça no parque. Segundo ele,
os dois teriam sido namorados.
''Por motivos que desconheço, a polícia, e depois a imprensa, tornaram
a versão do namoro definitiva, ainda que eu tenha insistentemente
argumentado que tal fato não era verdade'', escreveu o pai da garota,
Claudio Fraenkel, em carta divulgada na semana passada _e que a Folha
não publicou.
Merece cuidado ainda a questão das mulheres que estão procurando a
polícia para apontar pessoalmente o homem que as teria abordado e,
em alguns casos, agredido sexualmente.
Na sexta-feira, o jornal trouxe nome completo e foto de uma delas.
Pessoalmente, não vejo motivo jornalístico para identificar essas
moças, que deveriam ser preservadas.
Reconheço que apontar os deslizes da Folha neste caso é como
reclamar do motorista que acelera um pouco além do permitido, enquanto
os demais disputam um racha.
Basta lembrar do tom da TV Globo ao anunciar, na terça-feira, a prisão
do motoboy na fronteira com a Argentina.
O plantão que interrompeu o filme noturno frisava que a polícia estava
''praticamente'' certa de que Pereira é o ''maníaco do parque''. Que
bom. Assim ficamos tranquilos.
Ou de manchetes como a do ''Jornal da Tarde'' de quinta-feira _''Motoboy
desafia: vocês têm de provar".
Jogam-se no lixo o papel e a conversa fiada consumidos no ''mea culpa''
de episódios como a Escola Base e o Bar Bodega. Bom senso, aparentemente,
é algo para ser exercitado apenas quando não há notícia. Diante dela,
prefere-se o pior do senso comum.
Na comparação, a Folha tem se saído melhor. Não pelo trabalho
de apuração, infrutífero porque excessivamente atrelado ao que diz
a polícia, e mais pela disposição de tomar com alguma reserva as informações
divulgadas.
Ainda assim, registrou tropeços. E, se em seu manual e no projeto
editorial a Folha se impõe padrões mais rigorosos do que a
média, é com base neles que deve ser cobrada pelo leitor e pela ombudsman.
Enquanto era conduzida a operação policial, proliferavam na manhã
de ontem as discussões sobre "os excessos da mídia no caso do maníaco
do parque".
Em meio a tópicos como o "charme das motocicletas" e o "estigma" de
que teriam sido alvo os motoboys, travava-se, a propósito da confissão
extraoficial que teria sido presenciada por "Veja", um necessário
debate sobre as relações perigosas entre imprensa, advogados e polícia.
Ainda é cedo, contudo, para concluir onde termina o ressentimento
pelo "furo" tomado e começam eventuais práticas condenáveis.
Para alguns veículos de comunicação, trata-se apenas de saber se a
aposta foi feita no cavalo certo. Ou seja, qualquer excesso estará
justificado se a conclusão for a esperada.
Se algo escapar desse roteiro, o leitor será entupido de reflexões
penitentes.
Vão durar até o próximo crime espetacular.
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