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São
Paulo, domingo, 30 de agosto de 1998
RENATA LO PRETE
Às vezes, os deslizes acontecem nas grandes coberturas. Outras, em
histórias que nem chegam à Primeira Página.
O dano não é necessariamente menor no segundo caso. Na edição de segunda-feira,
entre a demissão do gabinete russo e os resultados do futebol, a Folha
registrou a morte de um rapaz de 22 anos, arremessado de sua Kawasaki
Ninja depois de uma briga de trânsito em São Paulo.
Na madrugada de domingo, Franco Giobbi e um amigo dirigiam suas motocicletas
na av. Sumaré.
Teriam sido fechados e, após discussão, perseguidos por um Tempra.
Interceptado pelo carro, o estudante foi lançado da moto. Teve morte
instantânea.
O motorista do Tempra, Crauzemberg Casotti Campos, 42, está preso.
Foi indiciado sob acusação de homicídio doloso (intencional). Sua
noiva, que ocupava o banco do acompanhante, sofreu ferimentos no rosto
e nos braços. Era correta a reportagem de segunda-feira.
Tomava com a devida cautela os dados do boletim de ocorrência. Trazia
a versão do amigo de Giobbi e também a de Campos, que falou à Folha
na delegacia.
Segundo o operador de câmbio, aluno do último ano de faculdade de
comércio exterior, os jovens teriam insultado sua noiva e o agredido.
Ele alega ter perdido o controle do carro.
O caso caminhava para um acompanhamento discreto. Desconfio que nem
teria saído em abertura de página se a vítima não pertencesse a uma
família tradicional.
É terrível que seja assim, mas episódios de violência no trânsito,
mesmo aqueles com desfecho trágico, não causam mais grande espanto
na cidade de São Paulo.
Na quarta-feira, no entanto, a história voltou a ganhar destaque.
Foi tema da coluna que Barbara Gancia assina duas vezes por semana
na página 2 do terceiro caderno.
Em tom emocionado, a jornalista contou que conhecia Franco Giobbi
desde o nascimento. Mencionou as dificuldades do garoto por ter perdido
o pai cedo, e disse que nos últimos tempos ele mostrava estar dando
a volta por cima. Em seguida, com base no relato do rapaz da outra
moto, descreveu os eventos da madrugada de domingo.
Tudo o que na reportagem de segunda-feira era hipótese, em seu texto
tornou-se certeza. ''Faço questão de repetir para que fique bem marcado
na mente do leitor'', escreveu a jornalista depois de fornecer, pela
terceira vez, o nome completo do motorista do Tempra.
Embora ainda não tenha sido divulgado o resultado dos exames toxicológicos,
a coluna afirma que Campos estava completamente bêbado. Os ombudsmans
da Folha não costumam tratar da opinião dos colunistas do jornal.
Cada um tem a sua.
Mas, neste caso, a questão é outra. O texto de Barbara Gancia exala
envolvimento pessoal no caso. Quando se trata de colunistas, isso
não é, em princípio, errado. Conta a favor dela não ter procurado
esconder esse envolvimento, pelo contrário.
O problema é que não foi comentário o artigo levado ao leitor. Apresentou-se
como fato consumado o que, até o momento, é menos do que isso. É possível
compreender a jornalista.
Uma tragédia como a agora enfrentada pelos familiares de Franco Giobbi
traz à tona os sentimentos mais extremos. Nada parece capaz de conter
a revolta. Mas não é possível aceitar que o jornal se antecipe à Justiça
e alimente um sentimento de condenação prévia.
Foi precisamente o que aconteceu neste caso. No mesmo dia da publicação
da coluna, recebi cópia de carta endereçada à Barbara Gancia por uma
leitora que também manifestava envolvimento pessoal na história. Ela
mora com os pais na mesma rua em que Crauzemberg vive com a mãe, na
Freguesia do Ó.
As duas famílias se conhecem há muitos anos. A leitora disse acompanhar
e admirar trabalho de Barbara Gancia. Não procurou afirmar a inocência
de Campos, mas protestou contra sua "execração pública''.
''Uma mesma história, dependendo de quem a conta, pode ter mais de
uma versão. Antes de aceitarmos uma delas como definitiva, faz-se
necessária a apuração de todas as circunstâncias que a envolveram'',
escreveu.
A ombudsman tentou ouvir Barbara Gancia, mas a colunista está nos
Estados Unidos e não pôde ser localizada. Foi procurado também o advogado
de Campos.
Em conversa telefônica, ele pediu para não ser identificado. Disse
que não sabe se permanecerá no caso. Diante do que já foi feito, a
Folha deveria redobrar seus cuidados ao tratar do assunto.
O "Jornal da Tarde", por exemplo, sentenciou em título na quinta-feira
que a noiva ''incriminara'' Campos ao depor. A leitura do texto desautorizava
o enunciado.
É imprescindível garantir a publicação dos argumentos de ambos os
lados e evitar novos pré-julgamentos. É o que determinam a lei, o
''Manual da Redação'' e as noções mais básicas de isenção. Se não
for assim, viramos todos justiceiros do papel.
Há uma semana, a editora do Folhainvest procurou mostrar que
seriam infundadas as preocupações da ombudsman com o tipo de jornalismo
praticado naquele caderno.
O noticiário dos últimos dias demonstra de maneira cristalina que
não pode haver espaço, em uma publicação séria, para o tratamento
deslumbrado das aplicações em Bolsas de Valores.
Assim, é desnecessário tomar tempo do leitor passando meus argumentos
em revista. Em confronto com o didatismo que a Folha prega
e busca aperfeiçoar, a editora não viu problema no destaque incipiente
que vinha sendo dado aos riscos embutidos nos investimentos recomendados,
porque ''não podemos subestimar a capacidade de discernimento do leitor''.
Diante de tal filosofia, é curioso notar que, na última segunda-feira,
o Folhainvest surgiu carregado de expressões como ''cuidado''
e ''cautela'' em seus títulos, até mesmo com alguma redundância, em
flagrante contraste com o tom festivo das primeiras edições.
Não é o bastante. Para um caderno que pretende ser de serviço, o Folhainvest
ainda está excessivamente atrelado a um jornalismo de declarações.
Mas já é alguma coisa.
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