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São
Paulo, domingo, 06 de setembro de 1998
RENATA LO PRETE
Não foi
a primeira vez em que as palavras de um ombudsman da Folha foram
usadas contra o jornal. Acredito que não será a última.
Ainda assim, a cirurgia operada pelo Partido dos Trabalhadores no
que escrevi neste espaço em 23 de agosto exige que as coisas sejam
recolocadas em seus devidos lugares.
Como a maioria dos leitores deve saber, o PT solicitou ao Tribunal
Superior Eleitoral, no final da semana passada, direito de resposta
contra reportagem publicada na Folha em 26 de agosto, sob o
título ''Lula não registrou venda de terreno da mulher''.
O texto informava que a propriedade, de acordo com o candidato vendida
para pagar parte de um apartamento em São Bernardo, permanece em nome
de sua mulher, Marisa, e de irmãos dela.
No entender do partido, o jornal invadiu a privacidade de Lula ao
pedir que este apresentasse documentos que comprovassem a transação.
Ministro-auxiliar do TSE concedeu o direito de resposta ao PT. Depois,
suspendeu a decisão até que o plenário do tribunal analise o recurso
apresentado pela Folha.
O jornal argumenta que o partido não apontou quais seriam as inverdades
ou ofensas contidas na reportagem.
No texto que espera ver publicado como direito de resposta, o PT pinça
frases da ombudsman na tentativa de mostrar que elas expressariam
posição semelhante à sua no que diz respeito ao terreno.
A transposição tem um defeito de origem: nada escrevi, na coluna mencionada,
sobre a reportagem em questão, publicada três dias depois.
Tampouco, naquele artigo, eu "alertava o jornal dos erros e das precipitações
nas matérias veiculadas'', no plural.
O que fiz foi analisar o tropeço da Folha na reportagem ''Carro
de Lula foi para doador eleitoral'', de 15 de agosto.
Para quem não se lembra, ela afirmava, com base em registro do Detran,
que o Omega do candidato (o outro bem apresentado como fonte de recursos
para aquisição do apartamento) tivera destino diverso do informado
por ele.
Nova busca nos arquivos, motivada por queixa do PT, revelou que Lula
não vendera o carro para a Baralt Comércio de Veículos, diferentemente
do que fôra publicado. O jornal se viu obrigado a desmentir sua manchete.
Depois de reconstituir os bastidores da reportagem, concluí que a
Folha se precipitou ao publicá-la com base apenas no registro
do Detran. A informação deveria ter sido cruzada com outras fontes.
Era necessário ouvir Lula.
Ponderei que esse cuidado, regra básica de jornalismo sério, deve
ser redobrado em campanhas eleitorais.
Em alguns casos, escrevi, denúncias podem mudar o rumo de uma eleição,
e, se isso acontece, a retificação não repara o dano.
Na versão "editada'' do PT _sempre tão atento às distorções da imprensa
quando ocorrem em seu prejuízo_ deu-se a entender que eu considerara
o desmentido da Folha insuficiente.
No domingo seguinte, não tratei da reportagem sobre o terreno por
um motivo simples: penso que se trata de caso diferente daquele que
resultou na manchete errada.
Em primeiro lugar, não me parece ter havido pressa do jornal em publicar
a história, ancorada, à diferença do que aconteceu no episódio do
Omega, em documento obtido de forma oficial, o que significa maior
segurança.
Em segundo, dessa vez não se atropelou a etapa de ouvir Lula. Quem
decidiu não se manifestar foi o candidato, procurado durante uma semana
pela Folha.
O PT achou por bem recorrer à Justiça Eleitoral. Exerce seu direito.
Isso não significa que a avaliação feita pela ombudsman por ocasião
da reportagem do carro possa ser automaticamente transportada para
o caso do terreno.
Por fim, é incômodo que minhas observações tenham servido para ilustrar
uma tese da qual discordo: a de que o patrimônio de candidato à Presidência
é assunto que não diz respeito ao interesse público.
O PT não pensava dessa forma quando vasculhava contas do dentista
de Rosane Collor e demais subterrâneos das despesas da Casa da Dinda.
Arbitrariedades da imprensa devem ser apontadas e coibidas. O que
não tem sentido é se agarrar ao fantasma da Escola Base _como faz
o PT agora, como fez a indústria farmacêutica no caso dos anticoncepcionais
de farinha_ apenas para evitar perguntas que não se quer responder.
Assim como considerei que a Folha agiu mal com Lula no episódio
do Omega, não hesitarei em manifestar a mesma posição quando o noticiário
do jornal me der motivo. Mas pretendo fazê-lo com minhas próprias
palavras, e não com colagens preparadas para atender às conveniências
do PT.
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