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São
Paulo, domingo, 13 de setembro de 1998
RENATA LO PRETE
Na semana
que passou, dois leitores procuraram a ombudsman com reclamações diferentes
a respeito do noticiário sobre o agravamento da situação econômica
do país.
O primeiro deles telefonou na quinta-feira, insatisfeito com a manchete
da Folha _"Medidas não seguram saída de dólar". No entender
do leitor, o destaque dado à fuga da moeda norte-americana _maciça,
apesar do anúncio de corte de gastos que o governo fizera dois dias
antes_ "só prejudica o Brasil".
Argumentei que o problema existe e é sério. Não foi inventado pelo
jornal. O leitor rejeitou minha ponderação, acrescentando que a Folha
só publica "notícias destrutivas".
Depois recuou dessa última afirmação, lembrado de que, no mesmo dia,
um encarte especial dava ampla divulgação à melhora de desempenho
do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.
Mas não houve acordo no que diz respeito à cobertura econômica. Pelo
menos, a conversa terminou de forma amistosa.
O leitor não está sozinho em seu protesto. Não raro, especialmente
em momentos como o atual, a Folha é chamada de catastrofista.
Esse risco existe, e tem de ser evitado com a responsabilidade e discernimento
que a importância do assunto exige. Mas é dever do jornal oferecer
ao leitor os instrumentos necessários para dimensionar a crise.
As manchetes recentes da Folha causam justificada apreensão.
Mas a ombudsman acredita que estão em pior situação leitores de veículos
que preferem escamotear dificuldades na esperança de que elas evaporem.
O segundo leitor telefonou na sexta-feira, com preocupação oposta.
"Quero saber por que a Folha não avisou antes que a situação
do país era tão séria", cobrou.
Também com ele não houve acordo.
Procurei lembrá-lo de discussões veiculadas no jornal, especialmente
por alguns de seus colunistas. Para o leitor, elas foram "insuficientes".
O acompanhamento diário e extensivo da Folha me faz saber que
os alertas existiram, mas a reclamação é bastante compreensível.
O leitor não-especializado _ou apenas desobrigado de esquadrinhar
o jornal_ pode ter a sensação de que ficaram lhe devendo informação
no meio do caminho.
Para discutir o problema apresentado pelo leitor, a ombudsman procurou
quatro jornalistas da área econômica.
Além de avaliar a questão, eles falaram sobre governo, mercado e informação
independente. Apresento a seguir o resumo de seus depoimentos.
Cláudia Safatle, diretora da Sucursal de Brasília do Jornal
do Brasil:
"Desde 1994, quem acompanhava o Plano Real e havia acompanhado outros
planos apontava as fragilidades decorrentes da excessiva dependência
do capital externo.
Entre os economistas da oposição, de um lado havia o Delfim Netto,
do outro, a Maria Conceição Tavares. No entanto, para muita gente
podia parecer apenas jogo político.
O risco de a festa acabar sempre foi aventado, mas talvez as pessoas
só sintam quando ela acaba mesmo. A crise bate no leitor quando explodem
os juros, quando aumenta o desemprego.
A informação oficial estava ali o tempo todo dizendo que o caminho
era bom _e, em certa medida, era mesmo.
O jornalista também precisa ter cautela com as fontes do mercado.
Sempre digo que só falo com elas depois das 19h. Por outro lado, sem
essas fontes você jamais vai saber o que pensa a iniciativa privada."
Míriam Leitão, colunista de "O Globo" e comentarista da Rede
Globo:
"É complicado alertar o leitor. A economia não é uma ciência exata.
O público tende a achar que o jornalista tem um manual de sobrevivência
para os momentos de crise.
O jornalista não pode esconder informações, nem torcer pelo pior para
que prognósticos se confirmem.
Persigo esse ponto de equilíbrio entre esclarecer o leitor e, ao mesmo
tempo, não ser irresponsável e não fazer o jogo do mercado financeiro.
Não podemos ser ingênuos. Os bancos têm suas posições, fazem suas
apostas.
O pessimismo deles é movido a dinheiro. Ao conversar com o mercado,
a única saída é ouvir muita gente, estudar, ler e, nos momentos de
pânico, conservar a cabeça fria.
Com fontes oficiais é preciso cuidado, mas é mais fácil saber o que
querem _mostrar sempre que as coisas vão bem.
Celso Pinto, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha:
"Nos últimos anos, a imprensa veiculou análises relevantes sobre os
riscos embutidos no atual modelo de política econômica. Em 1997, já
havia no mercado a percepção de que o ano eleitoral seria particularmente
delicado para o Brasil.
Embora não tenha sido generalizada, essa discussão esteve disponível.
Não foi por falta de debate que se chegou à atual situação.
Ao mesmo tempo, é fácil dizer, quando estoura o problema, que o desfecho
era óbvio.
Nos primeiros estágios da crise, o governo subestimou seu alcance,
e parte da imprensa se deixou levar por esse diagnóstico.
Há dois riscos simétricos e opostos. O primeiro, ser seduzido pelo
que diz o governo. O segundo, pelo que diz o mercado, que exagera
informações e reações. São distorções de natureza idêntica.
Ninguém é dono da verdade _governo, mercado ou jornalistas.
"Luís Nassif, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha:
"Houve alertas por parte de jornalistas independentes e economistas
da oposição. De forma geral, a imprensa não informou adequadamente.
Em 1995, fiz uma série de artigos descrevendo um quadro muito semelhante
ao atual. Fui indiretamente acusado por colegas de profissão de ser
lobista da Fiesp.
Quanto à questão das fontes, não a vejo como uma oposição entre governo
e os que estão fora dele, mas sim entre uma visão apenas financeira
da economia e outra, mais abrangente.
Hoje, há uma ditadura da análise financeira na interpretação da economia.
Nove entre dez fontes são profissionais que trabalham para bancos
de negócios. Suas análises influenciam mercados, e eles acabam prisioneiros
das posições dos 'traders'.
Não têm nenhuma independência para formular um diagnóstico da realidade.
O outro vício da imprensa é a excessiva concentração na análise macroeconômica,
que desconsidera o que existe por baixo desses indicadores."
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