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São
Paulo, domingo, 20 de setembro de 1998
RENATA LO PRETE
De segunda
a sábado, Cotidiano _São Paulo nos exemplares da capital
e região_ é um guarda-chuva noticioso que abriga de chacinas a pílulas
de farinha, do rodízio a acidentes com atores de TV.
No domingo, dentro do espírito de revista que caracteriza essa edição,
o caderno procura apresentar tendências de comportamento. É aí que
as coisas têm se complicado.
Há uma semana, reportagem ocupando a capa e três páginas internas
anunciava que ''os rituais sadomasoquistas estão saindo do escuro
dos guetos para a moda das ruas e a cama dos casais''.
Na tentativa de demonstrar essa tese, o jornal reuniu o que pôde.
Terapeutas ressaltando a importância da fantasia no relacionamento
amoroso.
A moça que declarava admirar "essa estética'', vestindo-se de acordo
(por mais tola que seja a pauta, sempre haverá alguém disposto a
aparecer).
Estudos norte-americanos (quais?) estimando que ''há 20 homens sádicos
para cada mulher masoquista''.
Acrescentava-se que ''numa cultura de submissão, como a brasileira,
a gangorra pode estar mais próxima do equilíbrio''.
Preocupado com radicalismos, o texto ensinava que ''o culto à dor
e à humilhação (...) passa a ser patológico quando não traz prazer''.
E, como jornalismo é serviço, incluiu-se glossário de termos sadomasoquistas,
preços dos principais acessórios e a advertência: ''quem gosta de
bater, amarrar ou encapuzar precisa adotar cuidados especiais com
a segurança''.
Há tempos eu não via tanta bobagem reunida em uma única reportagem
da Folha.
Como era preciso justificar o destaque dado ao assunto, o jornal
informou que, atualmente, "embora não haja pesquisas a respeito,
sabe-se que a parafernália S&M é mais empregada nos jogos eróticos,
hetero e homossexuais''.
''Sabe-se'' como? Não havia resposta disponível. Tudo indica que
o pronome apassivador serviu apenas para encobrir a realidade de
que ninguém sabia de nada, e de que o ''fenômeno'' detectado pelo
jornal tem a dimensão que sempre teve, ou seja, residual.
Não há problema em tratar de sadomasoquismo. É positivo que a Folha
seja um jornal mais arejado, do ponto de vista da cobertura de costumes,
do que seus concorrentes.
Existem ocasiões em que vale a pena abordar temas muito mais delicados
do que sadomasoquismo, ainda que isso incomode a fatia mais conservadora
do leitorado.
No ano do Viagra e do caso Clinton-Lewinsky, não faltam ''ganchos''
(no jargão, notícias que tornam as reportagens oportunas) para falar
de sexo.
O problema está na obsessão pelo bizarro que se instalou na Folha.
Histórias como a de domingo passado se filiam a uma espécie de escola
Jack Palance de jornalismo. Seu lema é "acredite se quiser''.
A reportagem em questão não é chocante. É patética. Tenta empurrar
como ''tendência'' algo de pouca representatividade e nenhum ineditismo.
Se é que um dia funcionaram, fórmulas do tipo ''mãe rouba namorado
da filha'' e ''transexual não comemora Dia dos Pais'' esgotaram
suas possibilidades na Folha.
''Pegam duas pessoas que tenham vivido experiências semelhantes
e criam uma matéria sobre qualquer assunto'', escreveu um leitor
à ombudsman na semana que passou.
O truque, como se vê, não engana ninguém. É hora de aposentá-lo,
antes que o leitor conclua que há coisa melhor para fazer no domingo.
*
Por falar em obsessões, na quarta-feira a Ilustrada deu amplo espaço
a uma das suas: fotos ''polêmicas''.
A propósito de apresentar o trabalho do norte-americano Terry Richardson,
o caderno trouxe em sua contracapa nada menos do que nove imagens
feitas por ele.
Segundo texto que acompanhava o painel, Richardson inspira-se no
''universo underground'' e é ''um dos mais surpreendentes nomes
em atividade no mercado editorial''.
Além do exagero quantitativo _pouquíssimos assuntos merecem tantas
fotos no disputado território de uma edição de jornal_, a seleção
das imagens deveria ter levado em conta o tamanho e a heterogeneidade
do público da Folha.
É normal que a Ilustrada, pela natureza dos assuntos que acompanha,
adote limites mais fluidos que os do restante do jornal. Ainda assim,
não faz sentido obrigar o leitor a tomar café da manhã diante de
um sujeito vomitando e de um gato sendo esganado.
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