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São
Paulo, domingo, 25 de outubro de
1998
RENATA LO PRETE
Nas últimas semanas, quando não estão entretidos com pesquisas eleitorais,
os jornais vêm tentando antever o que o governo federal fará com
a economia, e em que momento.
Quanto à primeira pergunta, a Folha, como os concorrentes,
segue tateando.
Seu feito mais relevante, até agora, foi ter antecipado a intenção
do governo de não apenas manter a CPMF como elevar a alíquota do
imposto.
Quanto à segunda questão _quando virão as medidas_, o jornal se
atrapalhou.
Na edição do dia 8, ao noticiar o primeiro pronunciamento do presidente
da República depois de reeleito, a Folha publicou a seguinte
manchete: "FHC anuncia ajuste antes dos 2º turno''.
Logo abaixo, um título de tamanho menor cravava que a divulgação
aconteceria "no dia 20, antevéspera do fim da campanha''. A data
passou. O pacote ainda não veio.
Em resposta, a manchete da última terça-feira reviu o prognóstico
do jornal, avisando que os "detalhes'' sairiam depois das eleições.
O texto lembrava que as medidas "haviam sido anunciadas'' para o
dia 20, dando a entender que o presidente recuara.
Em primeiro lugar, à exceção de promessas de superávit nas contas
públicas para os próximos anos, todo o pacote, e não apenas seus
"detalhes'', será conhecido só depois do fechamento das urnas.
Na verdade, essa opção sempre fez mais sentido, do ponto de vista
do governo, do que arriscar a sorte de aliados nos Estados com medidas
impopulares antes da votação de hoje.
Em segundo lugar, basta conferir a íntegra do discurso de FHC para
perceber que as coisas não são bem como a Folha pintou.
Sua primeira frase sobre o assunto foi:
"Pedi à área econômica que até dia 20 de outubro nos apresente um
programa de ajuste fiscal''. O plural é claramente majestático.
Adiante, disse: "Isso (a necessidade do ajuste) não significa que,
do dia para a noite, as pessoas acordem e levem um susto. Isso significa
que, com esse programa, que vai ser apresentado até o dia 20, o
Brasil todo vai discuti-lo''.
Com base no último trecho dessa declaração, a Secretaria de Redação
contestou minha crítica interna sobre o episódio. Entende que, para
que o país pudesse debater as medidas, elas teriam de ser mostradas
não apenas ao presidente.
De fato, há uma dose de ambiguidade na sentença e FHC, mas não houve
comprometimento com um anúncio ao público na referida data.
À primeira vista, a análise desse discurso e do uso que a Folha
fez dele nas duas manchetes pode parecer detalhe.
Afinal, mais importante do que acertar a data da divulgação será
oferecer ao leitor interpretação de qualidade sobre o alcance das
diversas medidas _as quais, tudo indica, devem sair nesta semana.
Mas o episódio é interessante por exemplificar bem a liberdade excessiva
com que o jornal trata as palavras dos outros sempre que é necessário
justificar as suas.
A Folha fez uma previsão (pacote antes do segundo turno)
e estreitou sua "margem de erro'' ao fixar a data. Não deu certo.
A falha em si não me parece grave, até porque é possível agarrar-se
à construção confusa da frase do presidente.
No entanto, se usa essa ambiguidade em sua defesa, o jornal não
pode em seguida descartá-la e decretar, para livrar a cara de uma
manchete que se revelou furada, que FHC mudou de idéia.
A edição da última quinta-feira ofereceu outro exemplo de contorcionismo
com o discurso alheio.
"Covas já fala em ganhar de goleada'', afirmava a reportagem em
que o candidato comentava o resultado da pesquisa Datafolha apontando
sua virada sobre Paulo Maluf.
Agora confira a declaração do tucano:
"Não basta ganhar. É preciso que a gente ganhe de goleada''.
Fica claro que não é a mesma coisa.
A frase de Covas é um pedido de votos. A do jornal tem um tom de
"já ganhou'' inexistente no original.
Nem mesmo boas reportagens não estão imunes ao vício de dar anabolizante
às palavras.
No domingo passado, o repórter Daniel Castro marcou um gol ao revelar,
no TV Folha, o esquema de contratação de pobres coitados
para "interpretar'' dramas forjados no programa de Ratinho.
Na edição de quarta-feira, a primeira repercussão da história veio
com o título: "Ministério Público sugere cassação do SBT''.
Ministério Público, no caso, vem a ser um promotor que está se tornando
conhecido por sua cruzada contra o apresentador.
No texto, Clilton Guimarães dos Santos dizia que as medidas contra
a emissora poderiam ser "multa e até a revisão da concessão''.
Como é muito improvável que esse cenário extremo se concretize,
o jornal poderia ter poupado o leitor do sensacionalismo do título.
O enunciado procura inflar artificialmente um caso que não precisa
disso.
No calendário do pacote, o contorcionismo verbal foi usado para
sustentar uma interpretação possível, mas bastante particular do
jornal.
Na goleada de Covas, houve distorção pura e simples.
As ameaças do promotor à emissora que exibe as farsas de Ratinho
foram tomadas além de seu verdadeiro peso.
Os três casos têm em comum a falta de apego à exatidão, sem a qual
o jornal compromete sua credibilidade.
*
Na semana que passou, as pesquisas eleitorais permaneceram no topo
da lista de assuntos que levaram o leitor a procurar a ombudsman.
Com tudo o que aconteceu em São Paulo _a virada, o escorregão do
Ibope, o debate da noite de sexta-feira_, achei mais prudente esperar
pela apuração dos votos para voltar ao tema.
*
Gostaria de estar enganada, mas tudo indica que o caso do hotel
do ministro das Comunicações será sepultado tal como previsto aqui
há uma semana: a Folha acusou, Luiz Carlos Mendonça de Barros
desmentiu, e o leitor não saberá quem tem razão. Ficou tudo por
isso mesmo.
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