|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
|
A eleição vista no espelho |
 |
São
Paulo, domingo, 27 de setembro de 1998
RENATA LO PRETE
Aos olhos do leitor, as falhas do jornal ficam mais graves quando
vêm embrulhadas em arrogância.
Foi o que aconteceu no domingo passado, quando a Folha publicou
os resultados do exame a que submeteu seu noticiário eleitoral.
De 18 de agosto (início da propaganda gratuita) a 15 de setembro,
foram esquadrinhados textos, fotos e artes de alguma forma relacionados
aos principais candidatos que concorrem à Presidência e ao governo
de São Paulo.
O jornal aprovou o que viu. Concluiu que o ''levantamento mostra equilíbrio
no noticiário'', porque o espaço destinado a cada um dos postulantes
foi ''proporcional às taxas de intenção de voto'' e ocupado, em sua
maior parte, por material ''neutro''.
Esse diagnóstico resultou em protestos veementes à ombudsman ao longo
da semana.
Como era de esperar, entre os reclamantes estavam Lula (por meio de
carta da direção da campanha petista) e Ciro Gomes, segundo e terceiro
colocados, respectivamente, na disputa pelo Planalto.
Para o PT, ao dividir as notícias entre positivas, negativas e neutras
a Folha ignorou que o ''grau de negatividade'' de reportagens
como as que trataram do carro e do terreno de Lula é muito superior
ao das críticas feitas ao presidente Fernando Henrique Cardoso, líder
nas pesquisas.
O partido pergunta por que não foi analisado o período em que houve
empate técnico entre os dois candidatos (início de junho), e aponta,
com base nos dados semanais, que o espaço de Lula vem caindo.
Ciro Gomes argumenta, em primeiro lugar, que em seu caso há uma disparidade
flagrante entre presença no jornal (1,76%) e intenção de voto (8%
no penúltimo Datafolha, usado na comparação com os números do levantamento).
Em seguida, questiona o critério adotado para definir o espaço adequado
a cada candidatura. No entender do ex-governador, "essa pretensa proporcionalidade
não se traduz em bom jornalismo, mas em reprodução cartorial do discurso
governista''.
As reclamações não partiram apenas dos personagens do noticiário.
Sem paciência para longos debates, um leitor enviou por fax a reprodução
da página publicada no domingo. Ao lado do título principal, que ele
destacou com um círculo, escreveu que a Folha havia menosprezado
sua capacidade intelectual.
''O jornal pode ter os candidatos que quiser'', afirmou um outro.
''Pior é fazer uma matéria em que os números demonstram uma coisa,
e os textos e manchetes dizem outra.''
Um terceiro encaminhou uma série de perguntas para externar sua desconfiança
das conclusões do levantamento, acrescentando que o fazia ''mesmo
sabendo que é impossível ganhar qualquer discussão com a Redação,
e correndo o risco de ter de aguentar a truculência das respostas''.
Houve outros protestos, mas os que descrevi resumem o estado de espírito
daqueles que procuraram a ombudsman.
Vários problemas, que procurei esboçar na crítica interna de segunda-feira,
emergem do levantamento da Folha.
O mais visível deles talvez seja a supremacia do candidato chamado
''governo federal''. Explico: diante da novidade da reeleição, introduziu-se
no estudo essa rubrica, destinada a abrigar notícias referentes à
administração com reflexos na campanha.
O resultado é um rolo compressor. Com 51,61% (confira no quadro),
o governo lidera a distribuição de espaço, enquanto seu ocupante aparece
em segundo lugar (30,42%).
O próprio diferenciamento entre FHC e sua Presidência é bastante questionável.
Criado para distinguir itens informativos até certo ponto heterogêneos
-um comício e o aumento dos juros, por exemplo_, ele não resiste a
escrutínio.
Perguntei à Redação em que categoria havia sido colocado o discurso
sobre a crise econômica feito por Fernando Henrique na quarta-feira
(a medição continua a ser realizada). Resposta: ''governo federal''.
Sem dúvida, aquelas foram palavras do presidente de um país que perdeu
US$ 30 bilhões em 45 dias. Mas, se não fossem também um calculado
gesto de campanha, por que teriam ido parar no programa de TV do candidato?
Portanto, é legítimo considerar que o espaço ocupado direta ou indiretamente
pela candidatura oficial aproxima-se da soma dos percentuais de FHC
e de seu governo. O saldo supera 80%.
Não procuro dizer com isso que a Folha deveria restringir sua
cobertura sobre a situação econômica e as medidas que tentam revertê-la.
Pelo contrário. Esse noticiário tem mais impacto sobre a vida do leitor
do que qualquer fantasia do horário eleitoral.
Mas o fato é que os números apresentados não permitem falar em equilíbrio.
O próprio conceito de cobertura neutra é difícil de sustentar. O jornal
chegou a ele após separar o material nas três categorias mencionadas
anteriormente. Verificou que as neutras eram maioria.
Quase sempre ficção, a notícia neutra é artigo ainda mais raro na
cobertura política. Para o candidato, aparecer no jornal é por definição
positivo, a menos que seja para apanhar (às vezes, até nesse caso).
Ainda que se analise a questão apenas sob o parâmetro adotado pela
Folha, os números desautorizam afirmação geral sobre correspondência
entre espaço e intenção de voto. A discrepância é mais evidente no
caso de Ciro Gomes.
Por fim, vale a pena discutir a validade desse critério. O vício de
privilegiar pesquisas como termômetro de edição acaba por fechar um
círculo em que o candidato tem mais espaço porque está na frente,
e continua na frente talvez por ter mais espaço.
O editor de Brasil, Fernando Canzian, reconhece que o levantamento
tem limitações, mas defende sua utilização como instrumento para promover
ajustes na cobertura. "Ele evita o vôo cego'', diz.
Canzian avalia que a separação entre os atos do governo e suas implicações
na campanha tem sido bem resolvida na divisão entre o primeiro caderno
e o especial Eleições.
Sem dúvida é positivo que o jornal examine seu noticiário e torne
público o resultado. Revela disposição de acertar.
Mas o que surgiu da avaliação é mais complicado e menos positivo do
que a imagem enxergada pela Folha no espelho. Deveria provocar
reflexão e mudança, não autoelogio.
*
Entre os leitores que comentaram o editorial na Primeira Página
de quinta-feira, houve um que me chamou especialmente a atenção. Ele
criticava a Folha por não ter publicado antes, com destaque
similar, aquela análise sobre a gravidade da situação econômica. Reproduzo
aqui trecho de sua mensagem, por acreditar em seu valor para a Redação
e para a ombudsman:
''Sou um cidadão bem informado. Leio o jornal todos os dias e acompanho
o rádio. Ao longo dos últimos quatro anos, formei avaliação positiva
sobre a atuação econômica do governo FHC. Afinal havia, entre erros
e acertos, um saldo positivo, e era 'óbvio' que o país não dispunha
de solução rápida, necessitando da reeleição para concluir reformas.
Como formei esta
opinião? Lendo jornal. Acompanhando as notícias e deixando-me influenciar
por especialistas. Hoje vejo um editorial na capa. Alguma coisa grave
aconteceu ontem. Não senhores. Aconteceu em quatro anos.
Todo idiota tem um dia de lucidez. Hoje foi o meu. Passo a engrossar
o grupo dos que colocam imprensa e políticos no mesmo saco de incredibilidade''.
Colunas anteriores
20/09/1998 - Acredite
se quiser
13/09/1998 - Leituras da crise
06/09/1998 - A colagem do PT
30/08/1998
- Justiceiros do papel
23/08/1998 -
A
coragem de não publicar
subir

|
|
|