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São
Paulo, domingo, 18 de outubro de 1998
RENATA LO PRETE
Alguém está
errado no episódio da conta de hotel do ministro das Comunicações:
o próprio ou a Folha.
Não há terceira hipótese. Alguma hora o leitor terá de saber qual
das duas procede.
No dia 9 passado, o jornal noticiou que a hospedagem de Luiz Carlos
Mendonça de Barros em Madri, parte de um roteiro realizado, segundo
ele, para "acalmar investidores estrangeiros'', fora paga pela Telefónica
de España.
Uma noite do ministro no Palace teria custado US$ 520 à empresa, a
maior do setor de telefonia a operar no Brasil depois da privatização
da Telebrás. De acordo com a reportagem, Mendonça de Barros só arcou
com os extras.
Nas edições subsequentes, ele negou a informação, ameaçou demitir-se
e processar a Folha. Falou em provas que desmentiriam o jornal.
Este, além de sustentar o que publicara, divulgou com destaque o pedido
de um deputado do PT para que o Congresso investigue o caso. Cinco
leitores procuraram a ombudsman para comentar o embate.
Quatro com críticas à Folha. Em resumo, acham que se trata
de ''história menor'' e "explorada demais''.
Quanto ao primeiro ponto, penso que o destaque inicial foi compatível
com a posição dos personagens envolvidos.
A cultura política brasileira é bastante permissiva no que diz respeito
às relações entre governo e iniciativa privada.
Nessa matéria, é preferível correr o risco de exagerar na intransigência
do que pecar por excesso de credulidade.
Concordo, no entanto, com a sensação de leitores de que o assunto
foi martelado além da conta ao longo da semana.
Cada história tem seu tamanho.
Existem escândalos e impropriedades.
Se de fato ocorreu e por aí parou, a ''cortesia'' da Telefónica ao
ministro se encaixa no segundo grupo.
O cenário mudou na quinta-feira.
Depois de sete dias, o ministro apresentou cópia de fatura mostrando
que as despesas no hotel, diária incluída, teriam sido pagas por ele
com cartão de crédito, totalizando US$ 231.
Em resposta, a Folha trouxe diálogos gravados que manteve com
funcionários do hotel e da agência de viagens que presta serviços
à Telefónica.
Várias perguntas permanecem no ar. Mendonça de Barros não explicou,
por exemplo, como conseguiu pagar pela suíte preço irrisório em relação
ao da tabela (US$ 1.126; os US$ 520 apurados pelo jornal já incluem
descontos destinados a clientes especiais).
Apesar das incongruências no discurso do ministro, a situação no momento
é a seguinte: ele diz uma coisa, a Folha diz outra. A menos
que se revele forjada ou mesmo incompleta, a fatura fala mais alto
do que as conversas.
Por isso, se antes o jornal parecia prolongar o caso mais do que o
necessário, agora tem de apurá-lo até que as coisas sejam esclarecidas
de vez.
Não será fácil. Candidato a novo ministério no segundo mandato, Mendonça
de Barros fará o possível para colocar ponto final na história. Os
espanhóis não têm interesse em lhe criar problemas.
Contudo, a Folha não deveria deixar que seja aplicada a seu
jornalismo a noção de que no Brasil tudo fica por isso mesmo. O jornal
acusa, o ministro nega, o leitor não sabe quem tem razão.
Se perseverar na investigação e descobrir que errou, que seja reconhecida
a ''barriga''. Seria constrangedor, mas toca-se a bola para frente.
Se puder demonstrar que o problema está na papelada apresentada pelo
ministro, então o caso será bem mais grave do que parecia.
*
O Folhainvest não sugere mais ao leitor que ''multiplique seu
dinheiro no pregão''. O caderno sofreu um saudável choque de realidade,
mesmo porque o terremoto financeiro não lhe deixou alternativa.
Mas aqui e ali ainda recai no faz-de-conta das primeiras edições.
Foi o que fez na segunda-feira passada, quando desperdiçou uma boa
idéia.
Tendo como gancho o Dia da Criança, a reportagem de capa recomendava
aos pais aplicações de longo prazo destinadas a custear os estudos
dos filhos até a universidade.
Assunto, portanto, de elevado interesse para parcela majoritária do
público do jornal.
O problema estava nas simulações apresentadas para atingir os valores
finais (R$ 41.500 em um cenário, R$ 83.500 no outro).
"Algumas propunham depósitos iniciais de R$ 30, 50% em renda variável
e 50% em renda fixa'', observou um leitor, economista de Brasília.
"Eu gostaria de saber em que bancos posso fazer aplicações iniciais
ou mensais de R$ 15 em fundos de investimento.''
Resposta: em nenhum dos 27 fundos, de 8 instituições, que constam
de lista enviada à ombudsman pela editora do Folhainvest, Mara
Luquet.
Nessa relação, apenas dois fundos aceitam aplicação inicial inferior
a R$ 100, e em quatro é possível realizar depósitos adicionais abaixo
desse valor. Boa parte das simulações mostradas no jornal previa contribuições
mensais bem mais modestas.
A jornalista argumenta que isso não compromete o resultado da reportagem.
''Procuramos mostrar que, para acumular reservas, não é preciso dispor
de grandes valores mensais, desde que se pense a longo prazo'', diz.
Acrescenta que alguns bancos ''desenham a carteira ideal para o cliente,
levando em conta o valor de que ele pode dispor mensalmente''.
No final de suas ponderações, lembra que, ''como o próprio leitor
diz, os quadros fazem a ressalva de que a simulação não considera
os valores mínimos para aplicação''.
De fato, o leitor mencionou esse ponto em sua carta, mas para reclamar
de que a advertência ''saiu apenas no rodapé, em tamanho mínimo''.
Ou seja, o Folhainvest continua a não ver problema em subestimar
informações básicas à orientação do leitor.
Mais do que isso, por que não usar parâmetros como os que foram encaminhados
à ombudsman para adequar as simulações a valores mais condizentes
com os exigidos pela maioria dos bancos?
''Já estou vendo pais procurando os bancos e se frustrando'', concluiu
o economista.
Na quinta-feira, o jornal publicou no ''Painel do Leitor'' carta elogiando
a reportagem por ensinar ''como a classe média tem condições de dar
formação excelente para seus filhos economizando o dinheiro do chope
do fim da tarde''.
Como não acredito que seja esse o fator que vá limitar os esforços
do leitor da Folha para educar seus filhos, penso que ele merece
tratamento melhor do que vem recebendo.
Na mesma edição, ao lado das tabelas mencionadas, um texto intitulado
''Futuro é o presente do Dia da Criança'' falava sobre o pai que trocou
brinquedos por um plano de previdência para cada um de seus três filhos.
Em vez de apenas contar a história, o Folhainvest tratou de
declarar, logo de saída, o nome do plano escolhido ''para a garotada''.
Nem sinal de preocupação para evitar esse tipo de propaganda gratuita.
O caderno nasceu para prestar ao leitor serviço de enorme relevância.
Aos três meses de vida, ainda oscila entre encarar essa tarefa e servir
de vitrine para os fundos e seus administradores.
*
Reproduzo protesto enviado no dia 8 pelo editor-chefe de ''O Globo'',
Ali Kamel, contra minha observação de que o jornal escondeu a declaração
de FHC acenando com aumento de impostos:
'' 'O Globo' repele com veemência a insinuação, descabida, de que
teria favorecido o governo ao destacar, em manchete, o corte de gastos
anunciado por FH em 23 de setembro, e não possível aumento de impostos,
como fez a Folha.
O corte de gastos foi considerado novidade, já que a possibilidade
de aumento de impostos tinha sido manchete do 'Globo' apenas dois
dias antes, nos seguintes termos: 'Governo já não descarta o aumento
de impostos'. 'O Globo', portanto, não escondeu nada, nem favoreceu
a quem quer que seja.
A isenção e a imparcialidade do 'Globo' são atestadas pela imensa
maioria de seus leitores na pesquisa diária que realizamos.''
Em resposta, lembro que ''O Globo'' não se limitou a escolher outra
manchete no dia em que o presidente da República avisou ao país, pela
primeira vez, que ''talvez'' fosse preciso aumentar impostos. Foi
o único jornal importante a simplesmente suprimir essa informação
de sua capa.
Tal atitude só comporta uma entre duas explicações: falta de senso
de notícia, e não acredito que seja o caso, ou tentativa primária
de edulcorar a realidade em benefício do governo.
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