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Dívida e discórdia
São Paulo, domingo, 01 de novembro de 1998


RENATA LO PRETE

As páginas do jornal abrigaram nos últimos dias um embate duro, hermético e, até agora, sem vencedor. De um lado, Mailson da Nóbrega. Do outro, os editorialistas da Folha. A polêmica começou no espaço que o ex-ministro da Fazenda ocupa às sextas-feiras em Dinheiro.
Em seu artigo de 16 de outubro, ele escreveu que a Folha cometera um erro monumental'' ao informar que a dívida do Estado brasileiro foi multiplicada por cinco desde o lançamento do Plano Real.
O cálculo constava do editorial Tempo Esgotado, publicado na Primeira Página em 24 de setembro, um dia depois do discurso em que o presidente Fernando Henrique Cardoso, às vésperas da eleição, tratou pela primeira vez da crise econômica.
A resposta da Folha veio no dia seguinte ao artigo, em forma de novo editorial, maliciosamente intitulado "Dívida Monumental".
O novo texto reafirmava o diagnóstico anterior sobre as contas públicas e situava na contracorrente dessa percepção de gravidade economistas alinhados com o governo, citando Mailson como exemplo. Não se podem negar os dados, afirmou o jornal.
O capítulo seguinte foi uma carta de Mailson registrada dia 21 no Painel do Leitor. Nela, o ex-ministro acusava o jornal de ter usado a técnica stalinista de desmoralizar o crítico, em vez de apresentar argumentos contra sua análise, segundo a qual a dívida crescera 86,8% desde 94.
No pé, nota da Redação voltava a identificar o ex-ministro com a política oficial de "relativizar o problema do crescimento do estoque de títulos públicos federais em circulação no mercado".
Mailson não se conformou. Nova carta saiu na quarta-feira passada, seguida de outra nota da Redação. Insisto que a Folha errou, escreveu o articulista. Dessa vez ele encaminhou cópia da manifestação à ombudsman.
Não tenho a pretensão de discorrer sobre os meandros do déficit público com mais propriedade do que o ex-ministro ou os editorialistas.
Mas à ombudsman interessa o caso de alguém que se considera injustiçado pelo jornal. Se foi ou não, é questão que merece ser investigada.
Consultado por mim na quinta-feira, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, também ele colunista da Folha, recomendou que fossem distinguidos dois aspectos: o técnico e o de avaliação.
Quanto ao primeiro, ressaltou a importância de esclarecer com que conceito de endividamento trabalharam o editorial e o artigo de Mailson.
Enquanto a Folha tomou por base a dívida mobiliária (em títulos) federal, o ex-ministro referiu-se à dívida líquida do setor público como um todo (critério no qual descontam-se, da dívida bruta, os ativos do Estado, como suas reservas, por exemplo).
É legítima a opção feita pelo jornal? Sim, avalia Giannetti. Mas, segundo ele, Mailson tem um ponto. A dívida líquida é um conceito mais relevante.
Giannetti acrescenta que seria necessário, para o correto entendimento do texto, explicitar o conceito usado.
A recomendação, na verdade, serve para reportagens, editoriais e colunas de opinião. Vai ao encontro da preocupação com didatismo que a Folha cultiva, mas nem sempre consegue executar.
O segundo aspecto a discutir é a avaliação que se faz do problema do déficit.
Há uma linha de pensamento econômico, próxima do governo e refletida no artigo, segundo a qual o estoque da dívida é relativamente administrável se comparado ao tamanho da economia brasileira.
Outra linha, expressa no editorial e endossada por boa parte dos economistas, entre eles Giannetti, considera alarmante, até mais do que o tamanho da dívida, o ritmo explosivo de seu crescimento.
Uma discussão como a travada entre a Folha e seu colaborador deveria servir para esclarecer o leitor, especialmente quando envolve assunto tão árido e, como o jornal não se cansa de lembrar, essencial para entender a situação do país.
O foco deveria estar no leitor. A divergência, em vez de sepultada com notas curtas, que apenas sustentam a informação publicada e desmerecem o crítico, poderia ser usada para tornar o tema compreensível para um número maior de leitores.
Infelizmente, não foi o que aconteceu até agora. Se há um ponto em que não vejo como discordar de Mailson é quando ele diz que, na primeira resposta a seu artigo, a Folha limitou-se a chamá-lo de governista. Que seja. Ou bem o jornal ignora a crítica, ou examina sua argumentação.
A partir daí, o que se viu foi bate-boca. A nota da Redação que acompanhou a segunda carta chegou a esboçar uma explicação do jornal sobre a escolha que fez, mas a tentativa foi limitada pelo pouco espaço disponível na
página 3.
Ampliar o debate e traduzir para o leigo sua importância é a única forma de melhorar o saldo desse tipo de polêmica.
Se não for assim, os entendidos saberão exatamente o que pensam as duas partes envolvidas.
Para a maioria dos leitores, restará apenas uma troca de farpas em grego que, ainda por cima, contribui para reduzir o disputado território do "Painel do Leitor".


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