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São
Paulo, domingo, 08 de novembro de 1998
RENATA LO PRETE
Em seu
projeto editorial, a Folha avalia que, "em meio à balbúrdia
informativa, a utilidade dos jornais crescerá se eles conseguirem
não apenas organizar a informação (...), como também torná-la mais
compreensível em seus nexos e articulações".
Prevê ainda que "o jornalismo terá de fazer frente a uma exigência
qualitativa muito superior à do passado, refinando sua capacidade
de selecionar, didatizar e analisar".
Dessa memória do documento divulgado há pouco mais de um ano, salto
para a reportagem "Fome de pai deixa meninos perdidos", publicada
no domingo passado.
Ela é um contra-exemplo rematado do aprofundamento interpretativo
pregado pelo jornal.
Sua tese é a de que "mudanças na família brasileira _com o ingresso
cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho e a consequente
confusão dos homens em relação à sua função na criação dos filhos_
estão gerando condições potencialmente destrutivas para o desenvolvimento
das crianças".
A mãe, dizia o texto, virou "uma espécie de 'mulher-maravilha' _que
trabalha, administra a casa e cuida dos filhos_, e o pai, ao perder
a condição de provedor exclusivo, ora compensa isso trabalhando mais,
ora simplesmente se afastando da família".
A essa idéia central foram agregadas declarações de alguns psicólogos,
citações de um livro "que tem feito sucesso nos EUA" e, no melhor
estilo de um certo tipo de cobertura de costumes praticado na Folha,
histórias paralelas que pouco ou nenhuma relação têm com a principal
("Escolas ensinam educação matrimonial", por exemplo).
Antes que me chamem de insensível, quero dizer que atribuo, sim, importância
ao tema da reportagem.
Talvez por isso me incomode vê-lo tratado de forma enviesada e redutora.
É como se o fato de colocar em suas páginas um assunto de elevado
interesse para o leitor _a criação dos filhos_ eximisse a Folha
da obrigação de ser rigorosa.
O jornal apresenta como tendência algo que ele não tem elementos suficientes
para caracterizar como tal.
Falta de limites dos alunos nas escolas, aumento da delinquência juvenil,
adolescentes nos consultórios de terapeutas _tudo isso foi creditado
ao fato de que "a figura do pai está se tornando cada vez mais ausente".
Está? É bem possível que sim, especialmente em determinados segmentos
da pirâmide social, mas, para início de conversa, o jornal não se
preocupou em fornecer dados que corroborem sua premissa.
A única providência nesse sentido foi sacar de uma pesquisa do Datafolha
números mostrando "que o pai atualmente tem menos importância na família
do que a mãe".
Segundo o referido levantamento, um trabalho extensivo sobre a família
brasileira cujos resultados foram publicados em setembro, 74% dos
entrevistados consideram a mãe "muito importante", contra 66% que
têm a mesma avaliação a respeito do pai.
Sinto, mas esses dois percentuais não confirmam o alegado declínio
da figura paterna, até porque não são confrontados com dados mais
antigos.
"Fala-se da distância emocional, mas ela não é novidade", escreveu
uma leitora à ombudsman. "Essa foi, historicamente, uma característica
do papel do pai".
A avaliação, embora não esgote o assunto, contribui para mostrar que
ele é mais complexo do que a Folha deu a entender.
"A dificuldade atual em obter e manter o emprego", seguia a reportagem,
"torna-se um complicador adicional" para o pai. Não é explicado por
que a mãe não seria afetada pelo mesmo problema.
"O homem não é mais, necessariamente, quem põe dinheiro em casa."
Certo. Mas em que percentual das famílias isso ocorre? A reportagem
não deu nenhuma pista.
Continua a mesma leitora: "É artifício retórico dos mais baixos tornar
saliente um fenômeno estatisticamente insignificante, que é a família
em que a mãe ganha mais do que o pai".
Uma outra, em carta publicada no "Painel do Leitor", criticou o jornal
por não "ressaltar que a qualidade da atenção dada aos filhos, seja
pelo pai, seja pela mãe, é muito mais importante do que a característica
física familiar".
O protesto dessa leitora, separada há oito anos e mãe de uma adolescente
de 15, chama a atenção para um outro aspecto do problema.
Além do descompromisso com a apresentação de dados que sustentem suas
generalizações, o jornal tem tendência a aderir a análises que nada
fazem além de entronizar o senso comum.
Algo está errado se o que a Folha tem a dizer a respeito das
transformações da família é basicamente um resmungo sobre seu "potencial
destrutivo para o desenvolvimento das crianças".
O caso dos "meninos perdidos" não é isolado.
Em maio passado, por exemplo, o jornal constatou a "explosão" de sexo
e gravidez entre adolescentes. Os números apresentados permitiam falar,
na melhor das hipóteses, em aumento.
Pior do que o exagero do título, no entanto, foi a explicação oferecida
para o fenômeno. Em resumo, concluiu-se que a culpa é de Carla Perez,
pois a "imitação da TV leva as crianças ao sexo".
Há dez dias, a Ilustrada informou em sua capa que a "TV brasileira
exibe 20 crimes por hora de desenho".
Quadro com os resultados de um mapeamento da ONU em emissoras abertas
descia a detalhes como "motivos do crime" ("psicológicos, financeiros,
político-ideológicos e amorosos") e "consequências físicas" ("hematomas
ou ferimentos, perda de patrimônio, danos materiais e morte").
Números em profusão.
Questionamento sobre a suposta relação direta entre desenhos e comportamentos
anti-sociais, quase nenhum.
Para completar, confira os programas escolhidos para ilustrar a reportagem:
"Tom e Jerry", "As Aventuras de Tin-Tin", "Johnny Quest", "Os Flintstones"
e "Frajola e Piu-Piu" (porque "o gato quer devorar o passarinho em
todo episódio"). De fato, influências deletérias.
A me guiar pelo jornal, devo chegar em casa e esconder o vídeo da
Branca de Neve, para evitar que meu filho tenha idéias ao ver o caçador
ameaçando a princesa com uma faca.
Que fique claro: não subestimo os desafios impostos por novas formas
de organização familiar, o problema da gravidez precoce ou a discussão
a respeito do impacto da TV sobre as crianças.
Mas são temas que vêm recebendo, por parte da Folha, um tratamento
raso como piscina infantil. É o avesso do que está escrito no projeto
editorial.
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