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São
Paulo, domingo, 15 de novembro de 1998
RENATA LO PRETE
A Folha
marcou um ponto importante ao revelar, na quarta-feira passada, que
a empresa citada no dossiê contra o presidente da República, a CH,
J & T, existe e tem sede nas Bahamas.
Como o jornal cuidou de frisar, a notícia não basta para conferir
veracidade à acusação de que FHC, Mário Covas e José Serra teriam
US$ 368 milhões depositados em um paraíso fiscal, negócio do qual
também seria sócio Sérgio Motta, morto em abril.
Mas deve-se ao repórter Fernando Rodrigues o primeiro sinal de que
alguém estava interessado em desenvolver, neste caso, a atividade
essencial do jornalismo: investigar.
Até então, a cobertura vinha se restringindo ao repúdio contra os
que teriam tentado intimidar o governo e à conclusão antecipada de
que era tudo mentira.
A história veio a público no final de semana passado. Na verdade,
duas histórias. O jornalista Elio Gaspari, na Folha e no "Globo",
e a revista "Época" relataram, além da existência do dossiê, a de
um pacote de telefonemas gravados que teve como alvo central o ministro
das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros.
Até o momento sem ligação conhecida, os dois casos foram apresentados
como uma espécie de "dois em um" e caracterizados como chantagem contra
o governo. O leitor soube que ambos corriam na praça havia algum tempo,
e que o chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, fora incumbido
de investigá-los.
Sobre o "grampo", apontou- se uma possível relação com a venda das
estatais de telecomunicações.
Sobre o dossiê, revelou-se que havia sido oferecido a diversos políticos.
Paulo Maluf teria tentado, sem sucesso, convencer Lula a divulgá-lo.
Na véspera da votação em que foi derrotado por Covas, as filhas do
pepebista visitaram Marta Suplicy com o mesmo objetivo. Novo fracasso.
Os petistas alegam ter declinado diante da fragilidade da documentação.
As duas histórias vieram à tona, ao que tudo indica, por iniciativa
do próprio governo, talvez convencido de que essa seria uma boa maneira
de neutralizá-las.
Tendo ou não sido assim, o certo é que as interpretações iniciais
foram bastante convenientes aos tucanos.
Segundo "Época", "os chantagistas querem atingir Mendonça de Barros
e inviabilizar o poderoso Ministério da Produção", para o qual ele
é cotado. A reação do ministro ao ouvir as fitas "foi surpreendente
_não se intimidou".
Ao tomar conhecimento do dossiê, FHC "deu pouca importância a esse
enredo produzido por autores desconhecidos".
Quanto a Maluf, "está pedindo para virar ministro. Dificilmente conseguirá".
"Grampo" e chantagem, se ela de fato ocorreu, são crimes. O esclarecimento
de sua autoria merece toda a atenção da imprensa.
O viés original da cobertura não teria sido problema maior se, na
esteira das reportagens do fim-de-semana, os jornais tivessem ao menos
dividido sua energia entre a revolta contra os "chantagistas" e a
obrigação de apurar se procedem ou não as informações veiculadas.
Predominou, no entanto, o primeiro enfoque, aliado a um coro, também
este em sintonia com o Planalto, de elogios à "postura digna" do PT
(o partido viveu seus 15 minutos de "bom selvagem", encerrados no
momento em que passou a defender que as denúncias fossem levadas ao
Congresso).
Acima de tudo, faltou disposição para fazer o básico: reportagem.
Assim como o governo não demonstrou urgência em desvendar a identidade
dos que tentaram desmoralizá-lo, a imprensa também não se incomodou
muito em tirar a limpo o conteúdo do dossiê ou das gravações.
Algo como "não vale a pena ir atrás porque está claro que não é verdade".
Quem adotou essa linha procurou ampará-la no confronto entre as biografias
dos personagens envolvidos.
De um lado, os cardeais do PSDB. Do outro, Maluf e um trem fantasma
carregado de gente da era Collor, a começar do próprio ex-presidente.
Acontece que não é possível simplesmente decidir que determinados
políticos, à diferença dos demais, pairam acima de qualquer suspeita.
Nesse cenário, a Folha merece elogio pelo furo da quarta-feira.
Menos do que uma reviravolta, ele é um passo na investigação. Mas
valeu muito porque, em meio à assunção generalizada de que nada havia
a apurar, foi como se o jornal tivesse dito aos concorrentes: "talvez
fosse o caso de pelo menos tomar uma providência tão simples quanto
checar se existe a empresa citada".
Depois disso, a Folha trouxe, nas edições de quinta-feira e
de ontem, trechos do dossiê que reproduziam papéis da CH, J & T. No
primeiro deles aparecia o nome de Sérgio Motta. No segundo, os de
FHC, Covas e Serra. O material, como de resto todo o calhamaço, não
é comprovado.
O fato de o jornal ter dado ampla visibilidade a essa ressalva não
impediu que dois leitores protestassem à ombudsman. "A mim incomoda
o uso ostensivo de uma informação que não pôde ser comprovada", escreveu
um deles.
Concordo. Embora enxergue legítimo interesse jornalístico na revelação
do conteúdo do dossiê, penso que não se deve dar o mesmo destaque
a um papel cuja autenticidade a Folha tem como sustentar e
a outro que pode mostrar-se forjado no dia seguinte.
O jornal deve cuidar para não ficar refém dos interesses das partes
envolvidas _qualquer uma delas. E investir em diferentes linhas de
investigação _entre elas a perícia dos papéis.
Não que o assunto se esgote na verificação de sua autenticidade. É
essencial esclarecer as questões despertadas pelo dossiê. E outras.
Na sexta-feira, por exemplo, os jornais relataram uma "conversa informal"
de Mendonça de Barros com jornalistas durante jantar em Brasília.
Nela, o ministro adiantou temas que teria abordado nos telefonemas
gravados.
Como se fosse a coisa mais normal do mundo, declarou ter estimulado,
quando presidente do BNDES, a formação do consórcio que concorreu
com a Votorantim na disputa pela Vale do Rio Doce.
Ou seja, o responsável pela privatização afirma ter influído na formação
do grupo que ficou com a estatal.
Há muito a ser discutido com o leitor.
Que seja dada a ele informação para avaliar até onde vão as duas histórias.
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