|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Honestos
por definição |
 |
|
São
Paulo, domingo, 22 de novembro de
1998
RENATA LO PRETE
Toda pessoa é inocente até prova em contrário. Está escrito na Constituição.
Mas, no caso do grampo no BNDES, o governo tenta fazer valer um
princípio diferente.
De acordo com ele, determinadas pessoas seriam inocentes por definição.
Do outro lado estariam as demais, e, entre estas, um subgrupo que
dispensa até mesmo o benefício da dúvida.
Tome-se como exemplo a entrevista que a Folha publicou na
quarta-feira com André Lara Resende, principal interlocutor do ministro
Luiz Carlos Mendonça de Barros nos telefonemas gravados.
Na opinião do presidente do BNDES, "a imprensa alimenta a dúvida,
a incerteza, coloca bandidos e mocinhos no mesmo nível" (as aspas,
é importante esclarecer, correspondem ao relato feito pelo jornal
do discurso de Lara Resende; a entrevista não foi gravada e nem
editada na forma de perguntas e respostas).
Segundo a Folha, ele "explicou que a imprensa, na tentativa
de mostrar imparcialidade e isenção, acaba dando o mesmo espaço
para coisas verdadeiras e coisas inverídicas, ou para personagens
que merecem crédito e para outros que não merecem".
Por fim, o leitor ficou sabendo que Lara Resende "vem amadurecendo
a idéia de escrever um ensaio sobre a vida pública, a vida privada
e a mídia", e que concluiu ser este "o melhor momento".
Ou seja, podemos não ver respondidas as dúvidas que pairam sobre
a privatização da Telebrás. Em contrapartida, o conhecido debate
a respeito dos "excessos da mídia" ganhará nova contribuição.
Há dois problemas nessa divisão do mundo entre "personagens que
merecem crédito e outros que não merecem". O primeiro é que ela
embute a concepção de que determinados homens públicos, de tão íntegros,
estariam isentos da obrigação de prestar contas de seus atos e palavras.
Essa idéia costuma vir acoplada a outra, ouvida com frequência nos
últimos dias: o processo de venda de uma estatal do porte da Telebrás
seria complicado demais para "qualquer um" entender.
Grampo, não custa repetir, é crime.
Sua autoria tem de ser desvendada, e os responsáveis, punidos. Isso
não significa que os envolvidos possam deixar sem explicação as
suspeitas levantadas pelas gravações.
O segundo problema consiste em estabelecer quem escolhe os integrantes
do grupo dos que "merecem crédito" e dos que "não merecem".
O governo? A imprensa? O correto seria que os jornais oferecessem
informação exata e interpretação de qualidade, deixando ao leitor
a possibilidade de decidir por si mesmo.
É compreensível que o presidente do BNDES, enredado em uma situação
embaraçosa, tenha recorrido à imagem de um confronto entre mocinhos
e bandidos para apresentar sua visão do caso.
Menos defensável é a atitude da imprensa, que aderiu na primeira
hora à caricatura.
Até o fim-de-semana passado, enquanto não havia gravações publicadas,
os jornalistas pareciam satisfeitos com o relato sobre seu conteúdo
que Mendonça de Barros tomou a iniciativa de fazer.
Entretidos com a história de que Lara Resende falava francês ao
telefone para driblar o grampo, pouca atenção dispensaram ao reconhecimento,
por parte do ministro das Comunicações, de que havia orientado a
formação do consórcio que disputou com o grupo Votorantim e venceu
o leilão da Vale do Rio Doce.
A justificativa de que se tratou de manobra para garantir competitividade
foi absorvida sem maior discussão.
Mesmo depois de reveladas as primeiras fitas em "Veja", o clima
não mudou de maneira substancial.
Predominou a análise de que a dupla, embora tenha jogado pesadamente
a favor do amigo Pérsio Arida (Banco Opportunity) no leilão da Tele
Norte Leste, o fez "com a melhor das intenções". Nada havia que
"justificasse demissões".
Com a divulgação de novos diálogos na "Carta Capital" _de teor um
pouco mais corrosivo_ e o depoimento de Mendonça de Barros na quinta-feira
ao Senado, a situação começou a se deteriorar.
Abro parêntese para notar que o grampo vem sendo um caso das revistas.
Surgiu na "Época" _sem fitas e com o diagnóstico de que o ministro
não havia "se intimidado" com elas.
Ganhou força em "Veja" e deslanchou na "Carta Capital".
Os jornais seguem a reboque. Até ontem, a Folha não havia
conseguido fitas _entre as tantas que existiriam na praça_ e nem
avançado na apuração da origem de um grampo que conseguiu monitorar
uma privatização de US$ 22 bilhões.
Tampouco havia se dedicado em profundidade a um debate que sempre
foi caro ao jornal: o da promiscuidade entre os setores público
e privado, suscitado não apenas pelo relacionamento entre os personagens
das conversas, como também por suas entradas e saídas do governo.
Parêntese fechado, lembro que debruçar-se sobre essas questões não
equivale a tratar "todo mundo como farinha do mesmo saco", advertência
feita pelo presidente do BNDES na referida entrevista.
A biografia dos personagens da notícia pesa no tratamento que recebem.
É correto que seja assim. Mas esta não pode ser apenas uma discussão
sobre nomes. O centro dela deve ser a forma de administrar o que
é público.
Críticos do rumo tomado pelo episódio alegam que ele envolve enorme
disputa política, e que a imprensa faz o jogo dos interessados _sejam
eles os descontentes com os resultados da privatização, com o programa
como um todo ou com a escolha de Mendonça de Barros para o futuro
Ministério da Produção.
De novo, é algo que não pode servir de argumento para o abandono
do caso. Melhor fará o jornal se tornar a disputa transparente para
o leitor.
Dos diálogos revelados, há um sobre o qual pouco se falou ao longo
da semana.
"A imprensa está muito favorável, com editoriais", disse o ministro
ao presidente da República, a respeito do leilão da Telebrás, em
um dos trechos publicados em "Veja".
"Está demais, né? Estão exagerando até", respondeu FHC.
Não é difícil entender o silêncio da imprensa diante da troça do
presidente.
Faz lembrar um daqueles almoços familiares em que uma tia dispara,
do nada, um comentário tão desagradável quanto verdadeiro. Diante
do constrangimento geral, só resta mudar de assunto e pedir para
alguém passar o macarrão.
Colunas anteriores
15/11/1998 - Dossiê
tucano
08/11/1998 - Meninos perdidos
01/11/1998 - Dívida e discórdia
25/10/1998 - Contorcionismo verbal
18/10/1998 - A conta do hotel
subir

|
|
|