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São
Paulo, domingo, 29 de novembro de
1998
RENATA LO PRETE
Na segunda-feira passada, a Folha trouxe o resultado de um
levantamento salarial que realizou nas Assembléias Legislativas
do país.
O título principal: "Deputado estadual ganha até R$ 58 mil por mês".
Era o caso de Alagoas, campeão da farra.
A conclusão geral: "alheios aos cortes de gastos determinados pelo
governo federal em virtude do pacote fiscal, os Legislativos estaduais
mantêm benefícios e verbas extraordinárias que 'engordam' os salários
dos deputados".
Se já alarmava como valor absoluto, o custo do parlamentar alagoano
impressionava ainda mais quando comparado à remuneração em outros
Estados. Em São Paulo, por exemplo, ela é de R$ 6 mil.
Estaria tudo muito bem, e o debate sobre o desperdício de dinheiro
público teria recebido contribuição relevante da Folha, não
fosse o fato de a reportagem conter um defeito de origem.
Ela comparava locais onde o deputado recebe um valor que engloba
salário, benefícios e dinheiro para remunerar seus assessores com
outros em que apenas o salário é depositado em sua conta, e os outros
itens são computados separadamente.
Alagoas se enquadra na primeira categoria. São Paulo, na segunda.
Tudo somado, o gasto do Legislativo paulista com cada um de seus
membros supera o do alagoano. É de R$ 66,1 mil.
Em resumo, o jornal comparou laranjas com bananas, definição exata
que ouvi.
Ao se dar conta da confusão, a Folha publicou texto explicativo.
Um tanto eufemístico, ele dizia que a reportagem do dia anterior
"poderia dar a entender que os deputados alagoanos recebem R$ 58
mil mensais apenas para si".
"Poderia" não. A afirmação foi feita, e em título. Em nome da transparência,
o esclarecimento deveria ter saído não sob a rubrica "Assembléias
Legislativas", e sim abaixo do enunciado "Erramos".
Os problemas não pararam por aí. Até agora, o levantamento foi objeto
de duas retificações na página 3 do jornal.
Na primeira, corrigiu-se (para baixo) o valor da remuneração dos
deputados do Ceará. Na segunda, o mesmo foi feito com o salário-base
e a verba de gabinete dos de Alagoas.
Não se trata de defender os deputados.
O problema que o jornal buscou retratar existe. Gabinetes com até
30 funcionários, verbas de todo tipo, justificativas como "o Judiciário
e o Executivo também têm suas vantagens", nas palavras de um deputado
do Pará. Enfim, um universo paralelo bancado pelo contribuinte.
O próprio expediente de entregar ao parlamentar a tarefa de distribuir
dinheiro entre seus assessores merece exame. Pelos exemplos relatados,
abre caminho para irregularidades.
Mas não há assunto, por relevante que seja, que resista à ausência
de rigor na apuração e a conclusões improcedentes.
Às vezes, a ombudsman se vê diante de casos multifacetados. Mas
este dos salários dos deputados estaduais comporta um diagnóstico
bastante simples.
É um exemplo de desleixo que põe a perder qualquer esforço investigativo,
e acaba por arranhar a credibilidade do jornal.
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