|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Resumos
e referências |
 |
São
Paulo, domingo, 06 de dezembro de 1998
RENATA LO PRETE
O texto
jornalístico se alimenta, em boa medida, de outros textos jornalísticos.
Em princípio, não há nada de errado nisso.
Desde que demarcados os limites da autoria, essa engrenagem de referências
enriquece discussões e amplia o repertório de informações que o leitor
recebe sobre determinado assunto.
O problema está em saber quais são os limites e como deixar claro
onde termina a citação e começa a novidade.
A questão foi apresentada à ombudsman por um leitor, que relatou ter
reconhecido, na coluna de Arnaldo Jabor publicada na Ilustrada em
10 de novembro, passagens de artigo que havia saído um mês antes no
"Le Monde Diplomatique".
Os dois textos tratavam de uma sigla ainda pouco conhecida de quem
não acompanha com assiduidade os cadernos de economia: MAI, "Multilateral
Agreement on Investment", ou Acordo Multilateral de Investimento.
Negociado desde 1995 na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico), o MAI é alvo de resistências em diversos países (tantas
que foi oficialmente colocado para hibernar).
Se aprovado, ele diminuiria drasticamente a capacidade dos governos
para regular os movimentos do capital externo e impor limites aos
interesses das grandes corporações.
Sobre esse e outros riscos representados pelo acordo falavam Jabor
na Folha e Lori M. Wallach no "LMD" (o leitor recebeu o suplemento
encartado no "The Guardian Weekly", do qual é assinante).
Comparei os textos. A primeira coisa a ser dita é que Jabor citou
a fonte, com todas as letras, a certa altura de sua coluna: "muitas
denúncias estão saindo na imprensa européia, como a de Lori M. Wallach
no 'Manchester Guardian', que eu cito".
É um ponto importante, que descarta a caracterização de plágio e demonstra,
da parte do articulista, atitude mais franca do que a detectada por
uma leitora há alguns meses, quando Jabor publicou, com poucas alterações,
um texto seu que já havia saído no jornal.
Mas não é o único ponto. "Jabor não apenas cita o artigo, como transcreve
várias partes dele", apontou o leitor.
É verdade. A coluna tem introdução e conclusão próprias, sem correspondência
no artigo de Wallach.
O "miolo", no entanto, é essencialmente um resumo não assumido do
"LMD".
Cotejando os dois textos, concluí que 59% do material apresentado
na Folha (os trechos sombreados no quadro ao lado), antes e
depois da citação, é tradução literal ou aproximada da publicação
estrangeira.
Até mesmo comparações usadas no original são repetidas sem indicação
de autoria: "Isso não é ficção científica" ("This is not the plot
of a science fiction novel").
Mais relevante do que o percentual, a meu ver, é o fato de que não
há como saber, a partir de uma referência isolada no sétimo parágrafo,
que a reprodução do artigo de Wallach é tão disseminada.
O questionamento do leitor foi levado, por intermédio da Secretaria
de Redação, ao articulista. Ele não quis se manifestar sobre o assunto
na coluna da ombudsman.
A "recortagem" é velha conhecida das Redações. Não é deslize exclusivo
de Arnaldo Jabor. Imagino que já tenha sido percebida por muitos leitores,
sob muitas assinaturas, não raro sem a citação que existiu neste caso.
A Internet, hoje instrumento de trabalho essencial para o jornalista,
potencializou o risco, multiplicando dados e análises disponíveis.A
abundância de recursos é, na essência, benéfica para quem escreve
e para quem lê.
Mas amplia a necessidade de ser rigoroso na hora de esclarecer de
onde veio o que está sendo publicado. A discussão sobre o crédito
de informações nunca foi tão atual.
Não apenas porque essa democratização tem mão dupla, ou seja, eleva
as chances de o leitor constatar que foi iludido.
Mas, principalmente, porque não se deve deixar dúvidas sobre quem
escreveu o quê. Um texto que carrega assinatura não pode ser comparado
a outro que traz no alto um impessoal "da Redação", ou "das agências
internacionais".
Longe de adotar um tom persecutório, o professor universitário que
me procurou buscava entender como funciona o jornal.
"Talvez esse procedimento seja aceitável no jornalismo, mas, em se
tratando de publicações científicas, que conheço, não é nada aceitável
resumir um artigo de outrem, mesmo citando o autor em alguma parte,
e publicar o resultado como sendo uma nova contribuição para a discussão."
A resposta é que esse procedimento não é aceitável no jornalismo.
O curioso nessa história toda é que, motivada pela correspondência
do leitor, acabei tomando conhecimento de um assunto sobre o qual
nada sabia e que se revelou para mim extremamente interessante. Parte
dessa descoberta devo a Jabor.
Pesquisando nos arquivos da Folha, localizei em setembro do
ano passado a primeira reportagem sobre o MAI, feita por Clóvis Rossi.
Ali estavam descritas as características do pretendido acordo e as
preocupações da diplomacia brasileira diante de sua abrangência e
rigidez.
Desde então, o tratado visitou com certa frequência as páginas do
jornal, especialmente em artigos (a economista Maria da Conceição
Tavares respondeu pelo maior número deles).
Até a Igreja Católica manifestou, em reunião dos bispos brasileiros
em abril passado, seus temores em relação ao MAI, "que afirma a precedência
do capitalismo mundial contra o interesse público e a soberania dos
povos", segundo d. Luciano Mendes de Almeida.
Diante de tantas referências, senti pena de não ter atentado antes
para o assunto. Desconfio, no entanto, de que o mesmo pode ter acontecido
a muitos leitores, pelo simples motivo de que o MAI esteve, até agora,
praticamente restrito aos nichos mais especializados da cobertura
econômica.
Esse foi o mérito da coluna de Jabor. Olhar o tema sob o prisma cultural,
chamando a atenção para os "sobretons orwellianos" do acordo, "que
farão gozar qualquer adepto da fobia antiimperialista".
O problema é que o procedimento, para usar o termo do professor, não
foi o correto.
Não tenho dúvidas, até por suas observações iniciais, de que o articulista
leu sobre o acordo bem mais do que o artigo de Lori Wallach. Mas o
fato é que apresentou ao leitor, majoritariamente, texto dessa fonte
como se fosse seu. Esta não pode ser apenas uma discussão formal sobre
a colocação de aspas (que não houve) ou sobre o álibi proporcionado
por uma citação.
Esta discussão diz respeito ao direito do leitor de saber, e à obrigação
de quem escreve de ser transparente.
Colunas anteriores
29/11/1998 - Salários
embaralhados
22/11/1998 - Honestos por definição
15/11/1998 - Dossiê tucano
08/11/1998 - Meninos perdidos
01/11/1998 - Dívida e discórdia
subir

|
|
|