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São
Paulo, domingo, 13 de dezembro de 1998
RENATA LO PRETE
A que passou
foi uma semana de efemérides de algum modo relacionadas: os 50 anos
da Declaração dos Direitos Humanos e os 30 do Ato Institucional nº
5, que pôs o Congresso em recesso, cassou políticos, censurou a imprensa
e suspendeu garantias constitucionais, tornando-se um divisor de águas
no período de governos militares da história brasileira recente.
A primeira data recebeu o tratamento que se podia imaginar. Em resumo,
radiografias variadas da situação, no país e no mundo, dos princípios
arrolados na carta das Nações Unidas.
Com a segunda data aconteceu algo semelhante ao que havia se verificado
no caso do grampo telefônico no BNDES. "Veja" e "Época" protagonizaram
a cobertura.
Os demais veículos impressos se dividiram entre um grupo que ignorou
o assunto e outro que produziu reportagens inferiores às apresentadas
pelas duas revistas.
Elas seguiram caminhos diferentes. "Veja" tomou o aniversário do AI-5
apenas como "gancho", para usar o jargão dos jornalistas.
Seu feito foi ter arrancado de um ex-tenente do Exército o primeiro
relato público de um agente da ditadura assumindo, sem meias palavras
nem economia de detalhes, as torturas que praticou.
A entrevista, como observei na crítica interna de segunda- feira,
é daquelas que não se consegue abandonar no meio e continuam a causar
impressão muito depois de encerrada a leitura.
"Época" fez outro tipo de coisa. Pegou as gravações da reunião do
Conselho de Segurança Nacional que decidiu a promulgação do AI- 5
e praticamente esgotou as possibilidades oferecidas pelo material.
Mostrou o voto de cada ministro nas anotações manuscritas do presidente
Costa e Silva, reproduziu trechos generosos dos pareceres mais importantes,
colheu depoimentos de personagens centrais e periféricos.
Sua reportagem é um antifuro, na definição que me foi dada por um
colega. As gravações não eram segredo. Estavam à disposição de quem
quisesse se debruçar sobre elas.
O comentário nada tem de depreciativo. Em primeiro lugar porque não
me incluo entre os que torcem o nariz, por definição, para efemérides.
Quando são associados tema relevante e tratamento sofisticado, o leitor
tem muito a ganhar com esse gênero de informação. É um serviço de
qualidade que lhe prestam.
Em segundo lugar porque a edição de "Época" foi primorosa, colocando
várias voltas de vantagem sobre as que Folha e "O Globo" fizeram
a respeito das mesmas gravações.
O quadro descrito acima dá margem a algumas observações:
1) Bem-vindo, leitor, ao mundo cada vez mais competitivo das edições
de fim-de-semana. É a sua atenção que está sendo disputada.
Muito se tem falado sobre os efeitos negativos da hiperconcorrência
no jornalismo, mas talvez esteja na hora de notar os positivos.
Não é outra a explicação para o apetite que vem sendo demonstrado
pela revista líder de mercado e pela que chegou, há sete meses, para
tentar roubar- lhe o sono.
Competição pode ser igual a Ratinho x Leão, mas também pode significar
confissões de um torturador x como nasceu o AI- 5. No segundo caso,
não vejo do que reclamar.
A bola está com os jornais. O embate, ainda que em outro segmento,
deveria lhes servir de estímulo, mesmo porque o leitor cortejado é,
em boa parcela, o mesmo, e portanto habilitado a fazer comparações.
2) Demorou, mas a mídia impressa brasileira começa a usar a Internet
de forma inteligente. "Época" tem razão quando afirma ser responsável
por inovações nessa área.
No episódio da escuta telefônica, tornou disponível em seu site uma
quantidade de conversas sobre a privatização da Telebrás que jamais
poderia ter sido acomodada nas páginas da revista, onde foram editados
apenas os trechos mais significativos.
Fez o mesmo agora com a memória do período militar. Colocou na rede
os pareceres completos dos ministros e trechos do áudio da reunião.
Essa visão complementar dos dois meios vai além da simples reprodução
de conteúdo impresso que ainda é regra nos sites de publicações do
país.
Motivos para investir nesse casamento não faltam. No caso da Folha,
por exemplo, o número mais recente, do ano passado, dava conta de
que 24% de seus leitores estavam conectados à rede. Dado o ritmo de
expansão da Internet, faz sentido supor que esse percentual já tenha
sido superado.
3) Com tanta gente atrás das mesmas histórias, seria bom redobrar
os cuidados antes de carimbar sobre elas o selo "exclusivo", ainda
que em suas formas eufemísticas ("o jornal X traz", "a revista Y mostra").
Foi o que aconteceu com as gravações da reunião do AI-5. O leitor
percebe o engodo e os vendedores da alegada exclusividade acabam constrangidos.
4) A natureza do furo de "Veja" vale um comentário. Não parece ter
sido fruto de manobras extraordinárias, mas sim, pelo que se conclui
do material publicado, de um misto de vontade de fazer e persistência.
A revista foi aos relatos do livro "Brasil: Nunca Mais" para chegar
aos nomes dos torturadores mais citados pelos presos políticos.
Localizou alguns que falaram um tanto. De um deles, o campeão da lista,
conseguiu obter o serviço completo.
O diálogo final entre repórter e entrevistado merece transcrição:
- Por que o senhor só resolveu dar esse depoimento agora?
- Porque ninguém me havia perguntado sobre isso antes.'
É conversa que dá o que pensar.
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