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São
Paulo, domingo, 27 de dezembro de
1998
RENATA LO PRETE
De observações dos leitores nasce boa parte das colunas publicadas
neste espaço. Em outras ocasiões, elas surgem de preocupações da
ombudsman. Mesmo nesses casos, comentários que recebo costumam estar
presentes no texto. Não raro, eles analisam a Folha com palavras
melhores do que as minhas.
Mas o que consigo trazer para a coluna nem se aproxima do volume
que chega. Um, dois, no máximo três leitores participam a cada domingo.
Eles integram um total de 7.076 manifestações enviadas, de 1º de
janeiro até quarta-feira passada, ao Departamento de Ombudsman (assumi
a função no início de março). Houve aumento de 17% em relação a
1997.
Decidi aproveitar a última coluna do ano para tornar pública uma
pequena fração dessa correspondência.
Como de hábito, os leitores não serão identificados. Em parte, a
praxe atende a pedido de muitos dos que procuram a ombudsman. Também
serve para dar o mesmo peso ao que dizem anônimos e conhecidos.
A seleção não pretende funcionar como retrospectiva das coberturas
jornalísticas que marcaram o período.
Várias acabaram ficando de fora.
Os depoimentos não refletem, necessariamente, a opinião da ombudsman.
Tentei escolher os que me pareceram de algum modo exemplificar reclamações
recorrentes.
*
OFICIALISMO - "É comum abrir a Folha e ler: 'Ministro
critica 2o grau', 'Ministro critica universidades'. Pois bem, alguém
pode me dizer se já saiu algo como: 'Ministros e deputados estão
aquém da expectativa?' "
(27 de março, sobre a cobertura do movimento nas universidades federais)
COMPORTAMENTO - "Abrir três páginas da edição de domingo
para falar de sadomasoquismo e ainda considerar que isso faz parte
do 'cotidiano' dos leitores me parece sem sentido. Pegam duas ou
três pessoas que tenham vivido experiências semelhantes e criam
uma matéria com destaque sobre qualquer assunto, do tipo 'meu marido
me traiu com a melhor amiga'. Desculpe, mas acho que estão desperdiçando
papel e tinta."
(15 de setembro, sobre reportagem que anunciava "moda" de práticas
sadomasoquistas)
FAMOSOS - "A Folha deu hoje na Primeira Página:
''A filha de Xuxa é parecida com o pai'. E daí?"
(29 de julho, sobre a chamada de capa noticiando o nascimento de
Sasha)
FINAL DA COPA - "Como será difícil esclarecer o que realmente
aconteceu, proponho liberar todos _jornalistas, atletas, comissão
técnica, dirigentes, empresários do esporte_da responsabilidade
de dar respostas, e convidar aqueles que gostariam de dizer algo
e não podem para realizar um ensaio literário sobre a mentira."
(15 de julho, sobre o problema com Ronaldinho)
INTERESSE DO LEITOR - "Não sei a que tipo de pessoas a imprensa
se dirige, mas gostaria de esclarecer que, para 99% da população,
não interessa se tentaram barrar a privatização da Telebrás, se
foi o maior leilão do planeta, se vão valorizar as ações, se o comprador
é estrangeiro, o que a viúva de Motta pediu a FHC. Nossa maior preocupação
é quanto às linhas."
(25 de julho, sobre a privatização da Telebrás)
PLURALISMO - "Isenção e independência não significam necessariamente
editar todo um caderno contra as medidas propostas pelo governo.
Será que não existe ninguém fora do governo que considere as medidas
necessárias e articuladas?
O impacto negativo das medidas sobre a economia e sobre o bolso
do cidadão, que certamente existe, está bem retratado. Ponto para
a Folha. Ótimo para os leitores. Mas será que o jornal flagrou
um raro momento de unanimidade na opinião pública?"
(29 de outubro, sobre o caderno especial apresentando as medidas
do pacote fiscal)
"A Folha incutiu nas mentes dos brasileiros a premência de
fazer determinadas reformas, como se fossem pontos pacíficos, incontestáveis.
Julgando-se detentor da verdade, o jornal vem restringindo progressivamente
o espaço para questionamento."
(4 de novembro, sobre as reformas constitucionais)
TRANSPARÊNCIA - "As explicações técnicas sobre a metodologia
das pesquisas, quando aparecem junto com a divulgação de resultados,
vêm no pé das matérias, em corpo menor e em linguagem ininteligível
para o leigo.
Por outro lado, nas manchetes tudo é conclusivo e cheio de certezas."
(13 de outubro, sobre a polêmica em torno das pesquisas eleitorais)
"É óbvio que muita gente se precipitou ao confrontar apurações parciais
com resultados de pesquisas. Mas, se nenhum resultado previsto pelo
Datafolha foi alterado, mesmo quando a margem de erro foi ultrapassada,
o instituto não deveria se vangloriar disso, mas apenas respirar
aliviado."
(8 de outubro, idem)
COMO FICOU? - "Os jornais nunca fecham os grandes escândalos
que ajudam a abrir."
(18 de outubro, sobre o conflito entre as versões da Folha
e de Luiz Carlos Mendonça de Barros a respeito de quem pagou a hospedagem
do ex-ministro em Madri)
GRAMPOS E DOSSIÊS - "A chamou B para avisar C, mas ninguém
chamou um repórter, um editor, ou reclamou para o bispo. A falou
com B, que falou com C, e ninguém viu. Eu sou o marido traído. A
Folha criticou, com razão, o excesso de marketing na campanha.
Mas que havia espaço para jornalismo, havia. Só que não foi feito."
(12 de novembro, sobre o fato de que políticos e jornalistas tinham
conhecimento, antes das eleições, da existência do chamado dossiê
Cayman)
OMBUDSMAN - "Tenho dúvidas sobre o interesse final de sua
função. A cada domingo, leio suas repetidas críticas aos erros éticos
e práticos dos jornalistas da Folha, mas em nada isso se
traduz em um mínimo de melhoria nos padrões do jornal. No fim, parece
que o ombudsman é inútil, criando nada mais do que expectativa frustrada."
(15 de outubro)
Essa é uma queixa antiga. Para que serve, afinal, um ombudsman,
se a Redação parece ignorar o que ele diz?
Sem ter a pretensão de julgar melhor do que o leitor, gostaria apenas
de dizer o seguinte: os erros se repetem, quanto a isso não há dúvida,
mas mudanças de atitude, para melhor, acontecem no jornal.
Às vezes com a contribuição da ombudsman. Às vezes sem ela. O certo
é que as mudanças são mais perceptíveis quanto maior for a fiscalização
do leitor. Por isso, espero continuar contando com suas cobranças
em janeiro.
*
Agradeço aos três leitores que telefonaram para avisar que errei,
na coluna de domingo passado, ao chamar Aparecida, no Vale do Paraíba,
de Aparecida do Norte.
Um deles, professor universitário, tentou me confortar argumentando
que o equívoco é bastante comum (de fato, apenas no arquivo eletrônico
das edições deste ano da Folha encontrei 72 menções com essa
grafia, embora o "Manual da Redação" registre a correta).
Segundo o leitor, a origem do nome falso e famoso está em uma canção
de Tonico e Tinoco. Em busca de algo para rimar com "transporte",
a dupla acrescentou o "do Norte" à cidade da basílica. Pegou.
Colunas anteriores
20/12/1998 - Peguem
o padre
13/12/1998 - Revirando o baú
06/12/1998 - Resumos e referências
29/11/1998 - Salários embaralhados
22/11/1998 - Honestos por definição
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