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São
Paulo, domingo, 03 de janeiro de 1999
RENATA LO PRETE
Em 1998, a imprensa dos EUA bateu muito, especialmente no presidente
Bill Clinton, mas levou outro tanto. A erosão de sua credibilidade,
soma de excessos que lhe foram atribuídos na cobertura do caso Monica
Lewinsky com sucessivos episódios de fraude envolvendo jornalistas,
já foi medida e comentada.
Ainda assim, vale a pena conferir as conclusões de um estudo encomendado
pela American Society of Newspaper Editors.
Segundo a entidade, que reúne representantes de 875 dos principais
diários do país, o levantamento foi feito "para ajudar a entender
as causas" do problema e "rever procedimentos com o objetivo de
promover a confiança do público no jornalismo".
Na etapa inicial, realizada em abril e maio, foram entrevistados
3.000 leitores. A partir daí a investigação foi aprofundada em pesquisa
qualitativa com 16 grupos.
Registrados nos últimos dias por "The New York Times" e "The Washington
Post", entre outros jornais, os resultados chamam a atenção por
expressar preocupações recorrentes de leitores, não apenas dos EUA
e muito menos restritas à história que dominou o noticiário no ano
que passou.
"O que os entrevistados disseram é basicamente o que tem sido relatado
nos telefonemas, e-mails e cartas que recebo", escreveu a ombudsman
do "Post", E.R. Shipp. Eu poderia afirmar algo parecido, e aposto
que o mesmo vale para outros representantes de leitores.
Por isso, apresento a seguir os principais pontos levantados no
estudo, que pode ser encontrado em versão completa no site da ASNE
na Internet (www.asne.org).
MANIPULAÇÃO - A desconfiança era previsível, mas os percentuais
impressionam: 78% dos entrevistados acreditam que governo, grandes
empresas e pessoas muito ricas "podem influenciar um jornal a levantar
ou derrubar" determinada história; 50% consideram que "interesses
dos anunciantes influenciam decisões editoriais".
PRECONCEITO - É também de 78% a fatia dos que consideram
o noticiário tendencioso. De que forma? "Não é neutro a respeito
dos fatos", "favorece determinados grupos sociais ou políticos"
e "molda as notícias" para adaptá-las a teses preconcebidas.
A terceira explicação me fez lembrar de uma reportagem publicada
na Folha há dois domingos. Ela comparava duas rodovias concedidas
à iniciativa privada com duas outras ainda administradas pelo Estado,
concluindo, adivinhe, que as primeiras estão em melhores condições
do que as segundas.
Isso pode muito bem ser verdade, mas o que questionei, na crítica
interna do dia seguinte, foi o método utilizado pela Folha
para chegar a tal resultado.
O jornal dizia ter percorrido "trechos" das quatro estradas, mas
não informava quais, nem de que extensão. Apresentava apenas dois
depoimentos de usuários: um elogiando o serviço na "privatizada",
outro criticando a ausência dele na "pública".
Mais importante, não se esclarecia quais diferenças, dentre as constatadas,
eram fruto da mudança de gestão (o sistema Anchieta/Imigrantes era
melhor do que a Régis Bittencourt muito antes de passar às mãos
do consórcio que hoje o administra).
Ou seja, em vez de prestação de serviço foi oferecida uma confirmação
superficial de idéia que o jornal já tinha antes de iniciar a reportagem
(nada contra ter a idéia, desde que ela seja submetida a investigação
aprofundada e isenta).
ERROS - Ocorrem com frequência maior do que a pressa inerente
ao jornalismo diário permite desculpar, e não passam despercebidos.
Entre os consultados, 21% identificam erros nos jornais diariamente.
Na Folha, para citar apenas dois exemplos da semana passada,
foi graças a leitores que se descobriu o município paraibano de
Campina Grande localizado em Pernambuco e a informação de que as
taxas de juros cobradas em cheque especial e cartão de crédito estariam
entre 10% e 12% "ao ano".
É comum ouvir nas Redações _mesmo na da Folha, submetida
a um rigoroso Programa de Qualidade_ o discurso de que é preciso
se preocupar com os "grandes" erros, em vez de consumir energia
com deslizes pontuais.
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