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São Paulo, domingo,
17 de janeiro de 1999
RENATA LO PRETE
Às 6h30 de quinta-feira comecei a ler o caderno Real em Crise, que
reunia o noticiário sobre a desvalorização da moeda brasileira e
a troca de comando no Banco Central.
Terminei 1 hora e 20 minutos depois, com a sensação de que, para
chegar a uma compreensão razoável do que o jornal tinha a dizer
a respeito do assunto, não havia caminho mais curto. Era preciso
encarar as 14 páginas.
Se é muito para mim, que estava cumprindo uma de minhas tarefas
diárias, imagino que possa ser ainda mais para o leitor da Folha,
que tem de encaixar a leitura entre todos os seus compromissos.
De acordo com o levantamento mais recente, ele gasta, em média,
41 minutos com o jornal nos dias de semana.
Não pretendo afirmar que o produto deveria ser limitado a algo que
possa ser consumido nesse intervalo de tempo. Dias especiais _e
a definição se aplica a vários da semana que passou_ pedem atenção
especial.
Espaço é um dos instrumentos de que o jornal dispõe para organizar
a informação e "torná-la mais compreensível em seus nexos e articulações",
como pede o projeto editorial da Folha.
Mas não é o único. E, sozinho, não garante qualidade.
Na quinta-feira, os principais diferenciais da Folha em relação
aos concorrentes eram o editorial na Primeira Página e as
análises oferecidas por seus colunistas.
Do ponto de vista informativo, no entanto, a situação era de equilíbrio,
especialmente com "O Globo", cada um melhor em alguns pontos e pior
em outros.
Deixando as comparações de lado, o Real em Crise tinha problemas
que seu gigantismo não conseguia ocultar.
Um deles era uma grande quantidade de coisas fora de lugar: consequências
das mudanças no câmbio registradas em Dinheiro, e não no
caderno especial; explicações sobre a queda de Gustavo Franco em
páginas diferentes; repercussões de natureza semelhante dispersas
em vários textos.
Não acho que isso seja detalhe. Edição desorganizada é desserviço
ao leitor.
Ainda mais criticável era o acanhamento do caderno em um aspecto
caro à Folha: didatismo.
Estavam ali as traduções de praxe para verbetes como "bandas cambiais"
e "déficit em transações correntes".
Mas o entendimento que o leitor procura vai muito além do significado
dos termos. Diante da abundância de sinais, agora emitidos até pelo
governo, de que a situação é grave, o leigo quer saber, em português
claro, o que diabos está acontecendo.
Vale registrar que a cobertura, sob esse ponto de vista, melhorou
bastante na sexta-feira.
Mas é possível avançar mais. Chama a atenção, nos últimos dias,
a frequência com que aparecem e-mails com perguntas de telespectadores
brasileiros no serviço de esclarecimento de dúvidas da CNN. A Folha
poderia oferecer a mesma possibilidade a seu leitor, a exemplo do
que faz, todo ano, com o Imposto de Renda.
De volta à questão do noticiário quilométrico, disse à Redação,
na crítica interna, que não gostaria que meu comentário fosse entendido
como um elogio à superficialidade. Não se trata disso.
Se é para ser generoso na distribuição de espaço, que seja com um
assunto merecedor de tratamento extensivo. É o caso deste, sem dúvida.
Apenas temo, porque já vi isso ocorrer, que a profusão de textos
seja usada como argumento para concluir que "demos um banho" na
concorrência. O método tranquiliza o jornalista, mas não resolve
o problema do leitor.
É um modelo de cobertura que terá, necessariamente, de ser repensado,
seja porque a limitação de papel tende a crescer, seja porque a
disponibilidade de tempo do leitor tende a diminuir.
Na sexta-feira, um colega disse ter encontrado, em uma única reportagem
do "New York Times", mais esclarecimentos sobre a crise do que em
todos os textos noticiosos de jornais brasileiros naquele dia. Ele
não falava de volume de dados, mas de informação articulada.
De fato, a referida matéria (na qual FHC era chamado de Francisco
Henrique Cardoso), assim como as de outros diários estrangeiros
que a Folha resumiu em um grande quadro, permitiam ver com
mais clareza, entre outras coisas, que se caminhava inevitavelmente
para a liberação do câmbio, apesar das declarações em contrário
do novo presidente do BC.
Seria interessante tentar entender por que isso acontece.
Na teoria, os jornais brasileiros estão mais bem equipados para
tratar do assunto. E não faltam exemplos de reportagens superficiais
ou mesmo equivocadas sobre o país na imprensa internacional.
Mas, no caso da deterioração do quadro econômico, a proximidade
da imprensa local com o tema costuma resultar em sua excessiva contaminação
pelo discurso oficial.
Quem torce menos, contra ou a favor, informa mais.
*
A Folha escorregou em sua edição de quarta-feira.
Na noite anterior havia obtido, assim como "O Globo", a notícia
da queda de Gustavo Franco e de sua substituição por Francisco Lopes.
Em vez de dar a ela a manchete que merecia, o jornal optou por uma
chamada simples, destacando em seu título principal que o "país
estuda renegociar metas com o FMI".
Bem fez "O Globo", que conferiu visibilidade máxima à informação,
errando apenas ao anunciar mais de uma vez exclusividade que não
houve.
s Decepcionada com a Folha, uma leitora disse ter beirado
a ira no dia seguinte, quando descobriu, no Datadia, que 88% dos
entrevistados haviam considerado a manchete do FMI "adequada". Ela
confessou à ombudsman não saber se estava mais irritada com os leitores
ou com o jornal.
Sugiro que ela inocente os leitores. A pergunta feita no levantamento
diário comporta quatro respostas (as outras são "sensacionalista",
"mais ou menos" e "não sabe") e diz respeito ao enunciado da manchete,
não à escolha de seu tema.
Quanto ao jornal, imagino que tenha amargado a oportunidade perdida.
A Redação sabe muito bem que notícia como essa não passa na porta
todo dia.
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