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Pouco caso com a máfia |
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São
Paulo, domingo, 28 de fevereiro de 1999
RENATA LO PRETE
"Enquanto você estava em férias, a Folha não deu o merecido
destaque para o caso das administrações regionais. Acho que isso ocorre
porque ele tem sido uma bandeira da Rede Globo. O jornal apenas noticia
o indispensável.
Outro dia, a Folha flagrou funcionários da prefeitura paulistana
jogando entulho nas bordas de um rio, e lá se vão duas páginas inteiras.
Por que o narcisismo?"
A carta acima foi uma das primeiras que li ao voltar ao trabalho,
na segunda-feira.
No dia anterior, eu havia me impressionado (mal) ao encontrar na Folha
apenas um registro sumário, pouco esclarecedor e escondido em pé de
página sobre o atentado de que foi vítima o camelô Afonso José da
Silva, um dos denunciantes do esquema de cobrança de propinas que
a imprensa batizou de "máfia dos fiscais".
Até aí, pensava estar diante de mais um exemplo de que não há lugar
para notícia no jornal de domingo, finalizado no início da tarde de
sábado e cada vez menos permeável a mudanças de última hora. A advertência
do leitor e o exame das edições seguintes me mostraram que a negligência
ia além disso.
Como observou outro leitor em mensagem publicada no "Painel", na segunda-feira
a capa da Folha dava mais atenção ao cachorro do presidente
do Banco Central do que ao escândalo municipal, que então já contabilizava
mais um ambulante baleado.
Na terça, novo atentado, daquela vez contra um fiscal que confessou
envolvimento no esquema e apontou o vereador Vicente Viscome (PPB)
como beneficiário, foi registrado no canto mais discreto da Primeira
Página. Falta de visibilidade não era o único problema. No caderno
São Paulo, o material carecia de didatismo, deficiência grave
em uma história que vem de longe e está repleta de personagens, quase
todos desconhecidos do leitor.
O quadro destinado a reconstituir os acontecimentos a partir de dezembro
passado, quando o chefe dos fiscais da Regional de Pinheiros foi preso
no momento em que recebia R$ 30 mil de uma comerciante, nem se aproximava
de cumprir o que prometia seu título imperativo: "Entenda o caso da
máfia dos fiscais".
Seis dias se passaram, depois do primeiro atentado, até a aparição
de Celso Pitta na cobertura, como se o jornal considerasse que algo
de tamanho alcance pudesse passar sem manifestação do prefeito.
Tudo somado, talvez o leitor que me procurou tenha sido generoso ao
avaliar que a Folha fazia "o indispensável".
Na interpretação dele, isso aconteceu porque o jornal não quis colocar
azeitona na empada dos outros (no final de 97, a "Folha da Tarde"
apontou os primeiros indícios de ligação entre propinas e gabinetes
de vereadores; o flagrante em Pinheiros, responsável pela entrada
do Ministério Público no caso, foi levado ao ar pela Globo).
A desconfiança não é gratuita. Fazer pouco de histórias levantadas
por outros veículos é regra na imprensa. Atende a vaidade do jornalista
em detrimento do interesse do leitor.
Mas tenho o palpite de que houve mais do que isso no episódio em questão.
Acho que a Redação estava acomodada à idéia de que corrupção na prefeitura
é fato da vida, há muito conhecido por qualquer "paulistano que precisa
de um alvará", como lembrava texto publicado na edição de sexta-feira,
expressivamente melhor do que as anteriores.
Tão acomodada que demorou a perceber que:
a) nunca se chegou tão perto da ligação entre a rede de propinas e
a Câmara Municipal;
b) a bandalheira virou filme de gângster;
c) os referidos paulistanos estão especialmente interessados nessa
história, e em conhecer os vereadores que votaram contra a abertura
da CPI, como atestam mensagens à ombudsman, as consultas que o jornal
realiza diariamente junto a assinantes, o rádio, a TV e a conversa
do motorista de táxi.
O leitor percebeu tudo isso antes. Não é bom sinal.
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Longa
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