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São
Paulo, domingo, 07 de março de
1999
RENATA LO PRETE
Como boa parte
dos paulistanos, tenho uma história sobre a segunda-feira passada.
Não foi nada perto dos barracos soterrados no Jardim Miriam, do
horror no túnel do Anhangabaú, das pessoas que não puderam voltar
para casa e das que foram assaltadas no trânsito parado sob o Minhocão.
Apenas tive minha cota de tempo perdido no engarrafamento, cerca
de duas horas para vencer um trajeto normalmente percorrido em 15
minutos
Ouvindo rádio e, mais tarde, vendo TV, pude constatar que meu transtorno
havia sido irrisório em vista da calamidade geral.
Na manhã seguinte, o texto principal da capa da Folha resumia
o colapso da cidade assim: "São Paulo viveu ontem mais um dia de
caos provocado pela chuva".
Não estava errado. Mas também não estava certo. A segunda-feira
não foi só mais um dia de caos. Ela alcançou um grau além disso
na escala de traumas que vêm testando a resistência da população.
A cobertura do jornal não era propriamente ruim.
Na comparação com os outros diários, trazia o relato mais abrangente
dos estragos causados pelas duas horas de temporal.
Tinha o defeito de registrar exclusivamente a versão da prefeitura
sobre as causas das enchentes, em vez de cotejá-la com as de outros
técnicos (o problema está de tal maneira incorporado à vida da cidade
que, a esta altura, a Folha já deveria ter ouvido especialistas
em número suficiente para saber de cor o que descartar do discurso
oficial).
Mas a idéia de que a segunda-feira foi, afinal de contas, mais um
dia de caos é sintoma de outro tipo de deficiência.
Qualquer leitor que tenha passado pelo sufoco na rua ou acompanhado
as imagens nos telejornais da noite podia notar que a edição de
terça-feira estava aquém do drama vivido pelos paulistanos.
Não é coisa que se resolva com adjetivos. Exige, da parte dos jornalistas,
uma percepção mais apurada do que está acontecendo com a cidade
e da insatisfação crescente de seus habitantes.
"A Folha esqueceu São Paulo", escreveu um leitor à ombudsman
no dia seguinte ao dilúvio.
Ele acusava o jornal de sofrer de "fixação" pelo noticiário da capital
federal, lembrando que cidadania, como diz o nome, "se vive antes
de tudo na cidade da gente, não em Brasília".
"Nós, paulistanos, queremos mais informação, mais investigação AQUI",
continuava o leitor, "antes que a cidade afunde de uma vez".
Mesmo levando em conta os compromissos da Folha com sua irradiação
nacional, o protesto do leitor faz todo o sentido.
Como tantas pessoas com quem conversei ao longo da semana, ele associava,
em suas observações, a enchente e a rede de propinas que envolve
funcionários da prefeitura e chega cada vez mais perto da Câmara
Municipal.
São depoimentos que refletem um clima de indignação bem captado
por esta manchete do "Jornal da Tarde", estampada junto a fotos
do Anhangabaú alagado: "Está assim a cidade da máfia dos fiscais".
Olhando em torno, tenho a impressão de que o descontentamento do
leitor com esse estado de coisas está alguns tons acima do adotado
pela Folha.
Não sugiro que, para entrar em sintonia com seu público, o jornal
abdique dos princípios que devem nortear seu trabalho, passando
a acusar sem provas e a satanizar personagens.
Basta que dê a esses assuntos a prioridade que merecem, apresentando
o que o leitor pediu à ombudsman: resultado de investigação jornalística.
Porque, até agora, da chuva pouco se disse além de que ela matou,
alagou e parou o trânsito. Quanto ao escândalo dos fiscais, ele
vem praticamente caindo no colo do jornal. Está na hora de mostrar
serviço.
*
Se alguém duvida de que o jornal anda com dificuldade para reconhecer
o que mobiliza o leitor, é só reparar como passou batido pela vira-lata
Catita, tornada heroína nacional depois de salvar a vida de duas
crianças atacadas por um pit bull. Exceto por uma foto escondida
no caderno infantil, essa história sensacional _a vingança do oprimido
contra o mauricinho, como definiu José Simão_ não foi contada na
Folha. Até ontem, só havia sido registrada nos comentários
de seus colunistas.
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