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São Paulo, domingo,
14 de março de 1999
RENATA LO PRETE
"Fuja do financiamento imobiliário." Essa recomendação taxativa,
feita pela Folha na segunda-feira passada, causou um barulho
de proporções que o jornal e a ombudsman não viam havia muito tempo.
O texto em questão afirmava que "financiar a casa própria para fugir
do aluguel é uma ilusão", pois "paga-se, paga-se, e a dívida não
pára de subir".
O melhor, concluía o Folhainvest, é aplicar o dinheiro e "adiar
o projeto até dispor da quantia necessária para comprar à vista
o imóvel dos seus sonhos".
Os protestos mais inflamados partiram de anunciantes do setor imobiliário,
de importância estratégica na disputa de mercado entre a Folha
e seu concorrente local, "O Estado de S. Paulo".
Foi fácil entender a reação de empresários e executivos a uma reportagem
que chegou ao ponto de fazer o seguinte alerta ao leitor de classificados:
"freie o impulso ao se deparar com ofertas que parecem se encaixar
direitinho no seu orçamento".
Difícil foi explicar que em qualquer jornal sério vigora a independência
entre Redação e Departamento Comercial.
Dentre os anunciantes que me procuraram, alguns reconheceram a necessidade
e o valor dessa separação "Igreja-Estado".
Argumentaram, no entanto, que a reportagem não foi equilibrada,
porque ouviu apenas os bancos, tão interessados nas reservas do
leitor quanto construtoras e incorporadoras.
Mas houve quem mandasse a independência e a ombudsman às favas.
"Não é de anúncio que o jornal vive?", perguntou um interlocutor
que falava em boicote publicitário.
Sem dúvida. Mas a receita será insuficiente se o leitor não puder
ter certeza de que os assuntos não serão promovidos ou eliminados
das páginas ao sabor dos interesses dos anunciantes. Para usar uma
palavra surrada, se o jornal não tiver credibilidade.
A Folha sentiu a pressão.
Na quarta-feira, dedicou página inteira a uma espécie de direito
de resposta informal do mercado imobiliário. Em contradição típica
de operações apaga-incêndio, o material dizia exatamente o inverso
do que o jornal havia afirmado.
Assim, dois dias depois de receber o veredicto de que "financiamento
imobiliário é mau negócio" e "sair do aluguel e se endividar não
vale a pena", o leitor encontrou a análise de que esse "é um bom
negócio" e "a melhor opção é não demorar a realizá-lo".
Quem não havia lido o Folhainvest corria o risco de nem entender
o que estava em discussão, pois da reportagem original dizia-se
apenas que havia "avaliado o financiamento imobiliário", como se
fosse heresia repetir a advertência da segunda-feira.
Os anunciantes foram mais ruidosos, e tiveram seu ponto de vista
registrado com rapidez e destaque inacessíveis ao leitor comum.
Mas não foram os únicos a protestar.
Um leitor criticou a projeção intitulada "Troque seu apartamento
por uma mansão", em que se calculava quanto dinheiro a pessoa acumularia
se aplicasse mensalmente, no mercado financeiro, o mesmo valor das
prestações.
"O autor se esqueceu de que a grande maioria dos brasileiros que
procuram o Sistema Financeiro de Habitação está pagando aluguel."
Para reunir valor equivalente ao da prestação, ponderou, "o pretenso
comprador teria de morar debaixo da ponte com sua família por dez
anos".
Fiz comentário semelhante na crítica interna que dirijo aos jornalistas.
"A premissa de adiar a compra para efetuar o pagamento à vista é
válida", reconheceu um outro leitor. "No entanto, apenas as pessoas
que já possuem imóvel podem se valer de tal expediente. O artigo
ignora esse fato."
Ele continuava: "Em nenhum momento foi lembrado que para comprar
imóveis por meio do SFH é possível utilizar o saldo do Fundo de
Garantia. Mais uma vez não se prestou um serviço completo".
"Não venho advogar em nome de agentes financeiros ou incorporadores",
terminava. "Defendo apenas que seja apresentada a informação completa,
para que o leitor possa, com seus próprios meios, julgar o assunto
tratado."
A editora do Folhainvest, Mara Luquet, discorda da idéia de que
o mercado imobiliário deveria ter sido ouvido na reportagem.
"O assunto não era o imóvel enquanto investimento, mas sim o custo
de financiar a casa própria. Financiamento é um produto bancário."
Ela vê mérito nas observações dos leitores e diz que, diante do
grande número de mensagens recebidas ao longo da semana, o caderno
voltará ao assunto amanhã, com um serviço de esclarecimento de dúvidas.
"Sabemos que o tema não foi esgotado."
A Secretaria de Redação avalia que não houve falha na reportagem.
Quanto a mim, nada vejo de errado na conclusão geral do caderno.
Não resta muita dúvida de que, diante das atuais taxas de juros
e das incertezas a respeito dos rumos da economia, o leitor deve,
tanto quanto possível, manter-se longe de financiamentos, sejam
eles do que forem.
Merece registro o fato de que nenhum dos protestos que recebi, entre
violentos e moderados, questionava os cálculos que mostravam o efeito
devastador dos juros sobre o saldo devedor.
Se anunciantes consideraram o resultado "contrapublicidade", no
dizer de um deles, paciência. Não é essa a preocupação que deve
nortear o trabalho da reportagem.
Permanecem, a meu ver, dois problemas, ambos mencionados por mim
em outras ocasiões.
Um deles é o distanciamento que o Folhainvest mantém da realidade
de grande parte do leitorado do jornal. É esse o cerne dos depoimentos
que relatei acima. São pessoas que dizem: não tenho como pagar aluguel
e fazer tal desembolso mensal; posso abdicar de uma série de outros
gastos, mas preciso morar em algum lugar; quais são as opções para
mim? O jornal não esclarece.
É um leitor que dificilmente conseguirá trocar o apartamento "por
uma mansão" (termo, aliás, que o "Manual" da Folha manda
evitar, porque "envolve conceitos vagos e subjetivos").
O outro problema é a falta de distanciamento em relação aos fundos
que alimentam a maior parte do noticiário do caderno.
Os gestores têm tanto interesse em vender seu produto quanto os
representantes do mercado imobiliário que procuraram o jornal enfurecidos.
A mesma reportagem que corajosamente recomendava cuidado com ofertas
de classificados sugeria que "uma aplicação num fundo DI pode transformar
seu sonho de comprar a casa própria numa realidade bem mais suave".
Isso não é texto de prestação de serviço.
Se o cenário de incerteza econômica leva o Folhainvest a aconselhar
que o leitor não se endivide, também deveria fazer com que o caderno
se cercasse de cuidados na hora de sugerir aplicações, por mais
"conservadoras" que sejam.
Afinal, como foi observado no meio da reportagem de segunda-feira,
as projeções ali apresentadas valem "se os sinais emitidos pelo
governo se confirmarem".
O jornal pode garantir que vão se confirmar?
O Folhainvest demonstrou coragem editorial ao tratar do financiamento
imobiliário. Mas ainda deve ao leitor um sinal claro de independência
em relação à sua principal fonte de informações.
*
A luz apagou. E o jornal sumiu. Ao longo da sexta-feira, leitores
ligaram à ombudsman para saber o que havia acontecido com a Folha.
Segundo esclarecimento publicado ontem, o blecaute prejudicou especialmente
o jornal, porque o fornecimento de energia em seu centro gráfico,
em Tamboré, foi restabelecido mais tarde do que na capital. Muitos
só receberam o jornal à tarde. Por volta de 17h uma senhora telefonou
de Franca (SP), ainda à espera de seu exemplar.
Para Redação e Departamento Industrial, foi uma madrugada longa
e de grande esforço para produzir a edição. Infelizmente, muita
gente só viu o resultado tarde demais.
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