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São Paulo, domingo,
21 de março de 1999
RENATA LO PRETE
Ao mesmo tempo em que ocupa espaço crescente nas páginas da Folha,
o noticiário das denúncias de corrupção na administração paulistana
corre o risco de patinar em uma infinidade de relatos sobre o dinheiro
cobrado pelo fiscal X para acobertar a irregularidade Y.
Não que esses depoimentos careçam de valor noticioso. Mas, caso
se contente com eles, ou mesmo com suas conexões na Câmara Municipal,
o jornal terá perdido de vista que a vocação dessa história é chegar
acima disso.
A máfia, que nas primeiras reportagens era "dos fiscais", é na verdade
da prefeitura.
A Folha já não ignora o assunto, como fazia até semanas atrás.
Não haveria como. Mas falta ao jornal um foco mais preciso do que
está em jogo na investigação.
A edição de terça-feira era o retrato perfeito dessa pulverização:
três páginas de cardápio variado, 11 textos e nenhuma articulação
entre eles.
Cansei de perguntar, na crítica interna que diariamente envio à
Redação, por que não vem sendo usado o recurso de "amarrar" o noticiário
do dia em um texto de abertura que ordene os desdobramentos relevantes
e forneça a memória necessária para acompanhar o caso.
Em vão. Concluí que talvez não se trate apenas de desinteresse pelo
leitor, mas de dificuldade para identificar o que é importante.
É sinal também de pouco entusiasmo. Outros veículos, de olho no
mal-estar da população com esse estado de coisas, já partiram para
a campanha, não raro personalizada.
Não deve ser esse o caminho da Folha. Mas vale lembrar a
advertência de seu projeto editorial: "o tratamento distanciado
(...) não pode servir de álibi para uma neutralidade acomodada".
Se o jornal está convencido _e deveria estar_ de que a máfia da
propina pode representar, para a cobertura jornalística da administração
municipal, algo semelhante ao que foi o Collorgate no plano federal,
então a edição tem de deixar isso claro para o leitor.
Atirando a esmo, a Folha chegou com um dia de atraso à informação
mais relevante da semana que passou: o reconhecimento à polícia,
feito por Roberto Rocha, de que sua empresa, a Enterpa, pagava propina
à Regional da Penha.
Na mesma quarta-feira em que levou o "furo" do concorrente local,
a Folha deu uma contribuição sua ao noticiário: a revelação
de que o filho de Vicente Viscome, até aqui o vereador mais implicado
nas denúncias, era funcionário "fantasma" da Companhia de Engenharia
de Tráfego.
A diferença entre as duas notícias é reveladora do tipo de problema
que a Folha vem enfrentando para avançar nessa investigação.
Não chega a ser irrelevante acrescentar um filho "fantasma" à lista
já extensa de irregularidades pregada nas costas do vereador. Mas
também não altera o rumo das coisas.
O depoimento do dono da empresa de coleta de lixo _explícito como
nada visto nas apurações do esquema PC_ colocou a história toda
em um novo patamar, mais próximo do Executivo municipal.
Na quinta-feira começaram os trabalhos da CPI. E a Folha,
que gosta de repetir que a comissão é um show, aparentemente teve
sua visão ofuscada pelo espetáculo.
No dia seguinte, trouxe uma edição repleta de frases coloridas da
depoente Tânia de Paula, algo como os "melhores momentos" _e alguns
de fato eram muito bons_ da namorada e parceira de Viscome.
O jornal desceu ao detalhe de registrar, em uma nota, que as respostas
dela "continham erros gramaticais: pra mim fazer, pra mim pegar".
Enquanto isso, passou por entre as pernas da Folha _mas não
pelas do "Jornal do Brasil" e do "Estado"_ a informação de que a
assessora mencionou, em seu depoimento, duas pessoas que, de acordo
com ela, estariam um degrau acima na rede de corrupção da Regional
da Penha: Silvio Rocha, que foi ligado a Paulo Maluf e ensaiou romper
com ele no ano passado, e o coronel da reserva Ivan Márcio Gitahy,
também apresentado como homem do ex-prefeito.
Como se vê, é tolice perder tempo com os deslizes gramaticais de
Tânia de Paula, seja porque a Folha comete os seus, seja
porque há coisas importantes à espera de atenção da reportagem.
Por mais folclórica que seja a dupla Viscome-Tânia, por mais estupefação
que causem envelopes de dinheiro entregues a este ou aquele vereador,
não é aí que termina a história.
Nenhum problema em que a cobertura seja extensa, desde que o jornal
saiba diferenciar _para si e para o leitor_ o essencial do acessório,
e não fique sentado à espera do que lhe é servido pela tríade CPI-polícia-Ministério
Público.
Faz parte do jogo, em um trabalho investigativo com tantas ramificações,
avançar, recuar e, eventualmente, apostar em coisas que não vingam.
Só não vale ficar escorregando em casca de banana.
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