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São
Paulo, domingo, 04 de abril de 1999
RENATA LO PRETE
A Folha
está devendo na cobertura do conflito na Iugoslávia, tanto ao leitor
que costuma acompanhar o assunto quanto àquele que teve seu interesse
despertado pelo ataque da Otan ao país.
Para o primeiro, o material que vem sendo publicado decepciona pela
escassez de análises mais aprofundadas e de visões alternativas
ao discurso oficial dos EUA sobre a operação militar e os motivos
que supostamente a justificam.
Em sintonia com o Departamento de Estado americano, as agências
internacionais de notícias dividem os movimentos separatistas em
dois grupos: "do bem" (caso da população de origem albanesa em Kosovo)
e "do mal" (os curdos na Turquia, por exemplo).
Não é preciso ter simpatia por Slobodan Milosevic ou ignorar a sistemática
violação de direitos humanos na Província iugoslava para perceber
que a fórmula não dá conta de explicar os séculos de ódio entre
os povos dos Bálcãs.
A guerra de propaganda que acompanha os bombardeios e o acesso restrito
de jornalistas estrangeiros a Kosovo completam um quadro em que
informação independente é quase uma abstração.
Não há mágica para escapar ao cerco. Jornais precisam da vasta rede
de correspondentes oferecida pelas agências.
O caminho é tratar as informações com ceticismo, confrontá-las permanentemente
com fontes do "outro lado" (por mais oficialistas que sejam) e estimular
o pluralismo nas interpretações.
"No tempo da Guerra Fria era mais fácil 'tirar a média' das versões",
avalia Jaime Spitzcovsky, editor de Mundo da Folha.
"Um mundo unipolar na geopolítica tende a ser unipolar também no
fluxo de informações."
Essa realidade, diz Spitzcovsky, impõe um desafio maior a quem seleciona
o que será publicado e de que forma. "Conflitos étnicos e religiosos
são terreno fértil para processos de demonização das partes envolvidas."
Dos que acham que os separatistas kosovares deveriam ser deixados
por conta própria aos que advogam a intensificação dos ataques da
Otan e o imediato envio de tropas à Iugoslávia, a imprensa está
repleta de vozes dissonantes, o que pode ser constatado em poucas
horas de Internet.
Embora venham melhorando nos últimos dias, as edições da Folha
ainda refletem pouco esses questionamentos.
Um fator joga contra o jornal: o cardápio de publicações estrangeiras
que ele pode reproduzir é inferior, em qualidade, ao do concorrente
local.
A Folha detém os direitos de alguns diários europeus de prestígio,
mas eles não são suficientes para contrabalançar o peso dos jornais
norte-americanos de primeiro time cujos textos o "Estado de S. Paulo"
traduz.
É uma desvantagem que cedo ou tarde a Folha terá de encontrar
meios para superar.
A maior gafe do jornal até agora foi o perfil de Milosevic reproduzido
do "USA Today" em 26 de março. Entupido de adjetivos e juízos de
valor, o texto advertia que "o presidente iugoslavo usa o nacionalismo
sérvio como justificativa para sua brutalidade. Escolheu a guerra
como uma maneira de manter seu poder à custa de seu povo".
Em seguida, registrava a opinião do ex-senador norte-americano Robert
Dole sobre Milosevic: "É um ditador arrogante, egoísta, com fome
de poder".
Se a Redação acha que o vexame passou despercebido porque não estava
no alto da página, deveria ouvir o que tem a dizer este leitor:
"É inadmissível que um jornal que tem entre suas premissas a imparcialidade
traga reportagens como essa. Milosevic é apresentado como um maluco
nacionalista que, isolado em um palácio, fica armando massacres
de povos a sangue frio para sua satisfação pessoal.
Essa abordagem descreve um combate do bem contra o mal, em detrimento
de apresentar em profundidade os conflitos balcânicos e as discussões
que existem no mundo _e não apenas em Kosovo_ a respeito do direito
de um povo a uma nação".
Que um garoto de 18 anos tenha percebido algo que aparentemente
escapou aos jornalistas deveria ser motivo de vergonha para a Redação.
A dívida da Folha é maior para com o leitor normalmente distante
dos temas de política internacional.
Atraído pela temperatura do noticiário, ele espera ampliar seu conhecimento
com explicações menos superficiais do que as da TV.
Esse leitor foi tratado a pão e água, especialmente nos primeiros
dias de bombardeio. Na edição que relatava o início do ataque, Mundo
não trazia um único texto que esclarecesse a origem e o histórico
do conflito em Kosovo.
A missão foi dada por cumprida com dois itens de um quadro do tipo
"perguntas e respostas". Eles diziam que a população da Província,
majoritariamente albanesa, sente-se oprimida pelos sérvios, etnia
dominante na Iugoslávia, e deseja independência. Assunto encerrado.
Um dia depois, mais migalhas informativas. Novo quadro relatava
que os sérvios "consideram Kosovo o berço de sua história e cultura",
e que ali foram derrotados pelo Império Otomano em 1389.
E depois? Como aquele caldeirão de etnias virou a Iugoslávia? Por
que o caldo entornou agora em Kosovo? Ficou para o capítulo seguinte.
O ataque (mais do que anunciado por sucessivas ameaças da Otan)
começou na quarta-feira, 24 de março. Só no sábado, 27, o jornal
publicou, em forma de cronologia, um resumo da história da região
(de tão esquemático, nem sequer citava Josip Broz Tito, o dirigente
comunista que unificou o país ao final da Segunda Guerra e o governou
até morrer, em 1980).
Abro parênteses para notar que existe, na Folha, a tendência
de resolver toda e qualquer intervenção didática em suas páginas
por meio de quadros, gráficos e tabelas.
O leitor conhece os títulos: "Aprenda" isso, "Entenda" aquilo, "Saiba
tudo" (este o mais enganoso dos enunciados; alguém acredita que
um jornal possa ensinar "tudo" sobre alguma coisa?).
Nada tenho contra
a infografia. Ela pode fazer muito pelo leitor, desde que não seja
usada na base do piloto automático, só para apaziguar a consciência
dos jornalistas.
Às vezes, o bom e velho "texto corrido" funciona melhor.
Na terça-feira passada, o "Estado" reproduziu um do "New York Times"
que, em termos simples e pouco espaço, ia além de qualquer quadro-resumo
na tentativa de mostrar por que a hipótese de abrir mão de Kosovo
é inconcebível para os sérvios.
O mesmo vale para o artigo de Nelson Ascher que a Folha publicou
quinta-feira na seção "Tendências/Debates".
De volta à dívida do jornal, foi preciso esperar até domingo passado
(quatro dias de bombas) até que surgisse alguma informação de apoio
sobre o país atacado pela Otan. Sua população, situação econômica,
enfim, dados básicos para que a cobertura não fique restrita ao
videogame.
O principal ponto marcado pela Folha foi ter sido o primeiro
jornal brasileiro _e, até ontem, o único_ a colocar enviado especial
em Belgrado, a capital iugoslava.
É uma providência importante, que demonstra investimento no assunto
e permite oferecer ao leitor um relato diferenciado do clima local.
Mas não resolve todos os problemas. É preciso mais do que isso para
atingir o aprofundamento interpretativo que o jornal apregoa em
seu projeto editorial.
Se houver empenho, não faltará oportunidade. De um jeito ou de outro,
os sinais são de que o assunto não vai morrer tão cedo.
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