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São Paulo, domingo,
18 de abril de 1999
RENATA LO PRETE
A semana que passou não foi fácil para a Folha.
Primeiro, "Veja" fez barulho relatando a suspeita de que Salvatore
Cacciola, ex-dono do Banco Marka, teria um informante no Banco Central.
A despeito das limitações técnicas da reportagem, apoiada em supostos
relatos do banqueiro a interlocutores que só vieram a ser identificados
na edição que está hoje nas bancas, a revista pautou a reação do
governo e o rumo do noticiário.
Depois, "O Globo" mostrou que, enquanto o BC socorria o Marka da
desvalorização do real, Cacciola despachava R$ 17 milhões para um
paraíso fiscal.
A tudo isso a Folha assistiu com visível dificuldade para
reagir e mesmo para fornecer a seu leitor as mais básicas informações
de apoio (para citar apenas um exemplo, até ontem o jornal não havia
publicado um perfil decente sobre a trajetória de Cacciola no mercado
financeiro).
A Folha só começou a tirar o pé da lama na sexta-feira, quando
revelou que:
a) foi de R$ 1,5 bilhão o prejuízo do BC com a ajuda ao Marka e
ao FonteCindam, o outro banco beneficiado;
b) foram duas, e não uma, como havia sido divulgado, as operações
oficiais no Marka. Infelizmente, no dia em que a reportagem ofereceu
uma das suas contribuições mais relevantes, até agora, à elucidação
do caso, a edição não lhe fez justiça.
A manchete do jornal destacava o depoimento do presidente do BC,
Armínio Fraga, à CPI dos Bancos. Não houve título na Primeira
Página para as revelações, apenas registradas no meio do texto
principal.
A comparação com outros veículos nem sempre é o melhor parâmetro
para avaliar a cobertura. Muitas vezes, o exercício mais entretém
o jornalista do que atende as necessidades do leitor.
Mas a escassez de furos da Folha indica dificuldade para
avançar quando as informações não caem do céu e tampouco podem ser
repassadas ao público de bate-pronto, sob pena de o jornal servir
a interesses que não os do leitor.
Em outras palavras, quando é preciso investir tempo e mão-de-obra
qualificada na apuração dos bastidores da notícia.
Se seguir o roteiro que convém ao governo, o jornal restringirá
ao Marka uma investigação que deveria ter escopo mais amplo, para
esclarecer suspeitas de que bancos teriam lucrado com informações
antecipadas sobre a desvalorização e discutir o sistema que permite
ao BC agir como agiu.
Se não for assim, o Marka será para a atual CPI o bode expiatório
que o Banco Vetor foi para a dos Precatórios. Tudo seguirá do mesmo
jeito até o próximo socorro incompreensível.
O caso Marka é a mais recente de muitas histórias mal contadas que
circulam no noticiário: a do blecaute nas regiões Sul e Sudeste,
a do grampo no BNDES, a do incêndio que sucedeu a revelação de desvio
de dinheiro em Goiás. Basta puxar pela memória que outras virão.
É comum o leitor procurar a ombudsman para falar dessas histórias.
Os detalhes mudam de uma conversa para outra, mas a reivindicação
é sempre a mesma: empenho do jornal para desvendar "o que de fato
aconteceu".
Recebi uma dessas cartas na quinta-feira. Ela tratava de um outro
episódio nebuloso, o do calouro da medicina da USP encontrado morto
na piscina da faculdade, no dia seguinte ao do trote que marcou
o início das aulas.
O leitor acusava a Folha de ter abandonado o caso logo depois
de noticiá-lo, junto com toda a imprensa, no final de fevereiro.
Foi isso mesmo o que ocorreu. Na ocasião, informou-se que os alunos
haviam firmado um "pacto de silêncio".
Com a explicação, o jornal parece ter se desobrigado de dar continuidade
ao assunto, como se reconhecesse que trabalha apenas com histórias
que lhe chegam prontas.
Se no caso do Banco Marka existe dificuldade de avançar, aqui parece
que houve também falta de interesse.
Na terça-feira, a Folha confinou em um pé de página a divulgação
do laudo do Instituto Médico Legal. Ainda que as declarações das
partes envolvidas, a favor ou contra a tese de morte violenta, devam
ser tomadas com toda a cautela, nada justifica a omissão.
"Parece que não há tempo nem equipe para aprofundar uma reportagem,
mesmo dessa gravidade", escreveu o leitor.
"A Folha publicou uma matéria sem vida, que não explorava
contradições, apenas porque não poderia deixar de publicar."
A coisa melhorou depois de terça-feira, talvez porque o próprio
jornal tenha sentido que passou do limite em seu descaso.
Muito diferentes no conteúdo, os episódios do Banco Marka e da morte
na USP têm em comum a expectativa que despertam no leitor.
Ele deposita no jornal, e muitas vezes só nele, a esperança de que
as histórias não morram sem solução.
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