|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Na
fila do banco |
 |
São
Paulo, domingo, 25 de abril de 1999
RENATA LO PRETE
Foi reprisado, há uma semana, um filme que havia sido exibido na época
da revelação do grampo no BNDES.
Resumo do enredo: as revistas deram as cartas na cobertura do caso
Marka. Salvo por uma ou outra novidade periférica (como a reportagem
de "O Globo" mostrando que o banqueiro Salvatore Cacciola passou uma
casa para o nome da ex-mulher pouco antes de ter os bens bloqueados),
os jornais se limitaram, no domingo e na segunda-feira, a repercutir
informações levantadas por "Veja", "Época" e "Isto É".
Do bilhete de Cacciola para Francisco Lopes à introdução no noticiário
dos irmãos Sérgio e Luiz Bragança, amigos do ex-presidente do Banco
Central, o que havia para ser lido estava nas revistas.
Na verdade, o processo teve início com a edição anterior de "Veja",
que havia ditado a reação do governo e dos demais veículos de comunicação
ao relatar conversas em que Cacciola teria dito que recebia informações
privilegiadas do BC. Pouco se avançou depois dessa fornada de revelações.
Dos itens colhidos no circuito CPI-Ministério Público-Polícia Federal,
o que mais barulho causou foi a suspeita de que Francisco Lopes tenha
cerca de US$ 1,6 milhão depositado no exterior.
Na terça-feira, a "Gazeta Mercantil" dizia que, ao operar nos bastidores
para adiar o depoimento de Lopes aos senadores, o governo pretendia
"aguardar a publicação das revistas" neste fim-de-semana.
A idéia seria "dar tempo à imprensa para que ela torne pública toda
a munição que for capaz de reunir contra o BC". Se o governo decidiu
se pautar pelo conteúdo das revistas, problema dele.
A questão é saber se os jornais também não resolveram sentar e esperar
pelo que elas têm a dizer.
O leitor conhece o fenômeno: quanto mais ruidoso o escândalo, maior
a ansiedade dos veículos para carimbar "exclusivo" em seus achados.
É um recurso para tentar convencer o público de que o produto é superior
ao dos concorrentes e, se possível, impulsionar vendas. Serve também
para alimentar a vaidade dos jornalistas.
Deveria ser usado com critério, para destacar descobertas relevantes
e de fato indisponíveis em outros lugares. Na prática, o que se vê
é a multiplicação de citações autopromocionais, motivadas por informações
menores e não raro compartilhadas com outros jornais ou revistas.
A Folha anda louca para anunciar furos na cobertura da CPI
dos Bancos. A preocupação faz sentido, porque o jornal não vem bem
no caso. Até agora, suas contribuições foram poucas, nenhuma determinante.
Mas apelar não resolve o problema. No domingo passado, o texto da
manchete alardeava o fato de a Folha ter "revelado", no dia
anterior, a "existência" do bilhete de Cacciola para Francisco Lopes.
Naquele mesmo sábado, a "Isto É" não apenas revelava a existência
do papel, como também o reproduzia. Um mínimo de bom senso teria evitado
o constrangimento.
Embora mereça registro, a dificuldade do jornal para se mover nos
subterrâneos das investigações sobre o sistema financeiro chega a
ser compreensível. Não são histórias de fácil apuração.
O que não dá para entender é a ausência de itens básicos no material
que a Folha publica.
Exemplo: no final de semana passado, "O Globo", "Estado" e "Isto É"
trouxeram entrevistas com Luiz Antônio Gonçalves, presidente do FonteCindam,
o banco que o governo socorreu, junto com o Marka, dos efeitos da
desvalorização do real. Até ontem, esse personagem havia se manifestado
na Folha apenas em uma ou outra declaração perdida no meio
de textos. Não é possível que o jornal só tenha acesso a representantes
do mercado financeiro na hora de recomendar ao leitor que invista
em seus fundos.
Outro exemplo: na terça-feira, "O Globo" dedicou uma página às discussões
que vêm sendo travadas, especialmente depois da apreensão de documentos
na casa de Francisco Lopes, a respeito das atribuições do Ministério
Público. Na quarta e na quinta, o jornal do Rio procurou mostrar o
que diz a legislação, no Brasil e em outros países, sobre o uso de
informações privilegiadas por agentes do mercado.
As duas são típicas providências que a Folha costumava tomar,
e antes dos concorrentes.
Não é que a máfia da propina tenha desaparecido das páginas do jornal.
O assunto continua a ganhar a maioria das capas do terceiro caderno
e chamadas quase que diárias na Primeira Página.
A Folha segue tomando furos e dando outros, como a revelação,
na quarta-feira, de que entre as contratações inexplicáveis do Anhembi
estão três "fantasmas" ligados ao empresário Jorge Yunes, que emprestou
R$ 600 mil ao prefeito Celso Pitta. Mas é inegável que o caso perdeu
fôlego nos últimos dias, eclipsado pela CPI dos Bancos.
A Folha deve desafiar a noção de que um escândalo enterra o
outro, seja porque ela contraria a expectativa do leitor, seja porque
o jornal demorou muito até encontrar um caminho na investigação da
prefeitura. Seria uma pena abandoná-lo.
Leia mais
Lero-lero
na privatização
Colunas anteriores
18/04/1999 - Histórias
mal contadas
11/04/1999 - Diário da máfia
04/04/1999 - Jogos de guerra
28/03/1999 - Teoria da conspiração
21/03/1999 - Casca de banana
subir

|
|
|