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São
Paulo, domingo, 02 de maio de 1999
RENATA LO PRETE
Com o que resta
de atenção não canalizada para os escândalos federais e paulistanos,
é possível perceber o acirramento, nas últimas semanas, dos episódios
de violência em grandes centros urbanos.
Até ontem, eram oito os estudantes mortos, desde março, dentro ou
na vizinhança de escolas estaduais e municipais de São Paulo.
No mais recente desses casos, registrado na noite de quinta-feira
em Guarulhos, um rapaz de 18 anos recebeu 13 tiros de um colega durante
aula de português da primeira série do segundo grau, supostamente
em razão de pendência de jogo de cartas.
No capítulo dos assaltos, a série de histórias foi acrescida, na noite
de quarta-feira, do assassinato da professora de geografia que voltava
para casa, no bairro de classe média do Jaguaré, depois de dar carona
a uma amiga.
A polícia trabalha com a hipótese de que ela tenha sido abordada por
assaltantes. Isso sem falar nas chacinas.
Seja pela regularidade com que ocorrem, seja porque eliminam exclusivamente
pessoas pobres, hoje elas só ganham destaque no noticiário a partir
de um determinado número de vítimas.
Se inferior a cinco, uma nota curta relata de forma lacônica o ocorrido
e computa o saldo de mortos no ano. Como se diz no balcão, o próximo,
por favor.
Entre as autoridades e a imprensa, há o entendimento não assumido
de que as chacinas são tão inevitáveis quanto fenômenos da natureza.
Como os demais veículos, a Folha tem noticiado os casos de
maior repercussão.
No domingo passado, trouxe a opinião de especialistas sobre o problema
da violência entre jovens, em especial nas escolas.
Chama a atenção o fato de que o governo estadual, maior responsável
pela questão da segurança, vem sendo bastante poupado nessa cobertura.
Passando em revista as reportagens anteriores ao homicídio em Guarulhos,
o mais destacado funcionário que encontrei se manifestando sobre o
assunto foi o secretário-adjunto da Segurança.
Não que o jornal estivesse lhe cobrando alguma coisa. Ele apenas apresentava
a avaliação de que é muito fácil comprar armas no Brasil, sendo necessário
reforçar e aperfeiçoar o policiamento.
Depois de Guarulhos foi registrada a posição da secretária da Educação,
mas nada de seu colega da Segurança.
Do governador ou do vice, nem sinal.
Na quarta-feira, o texto que relatava a morte de uma menina de 14
anos durante briga em escola de Mogi das Cruzes se contentava com
o parecer da chefe do Comando de Policiamento Feminino, que atua nos
estabelecimentos de ensino.
Segundo ela, há um surto de violência nas escolas. Ponto final.
Essa benevolência jornalística não é exclusividade da Folha.
É coisa antiga, certamente reforçada pelo câncer de que Mário Covas
se recupera.
Mas o respeito à pessoa do governador não pode ser confundido com
omissão do jornal no tratamento de um dos problemas que mais afligem
a população.
O leitor espera da Folha uma cobertura que vá além da sucessão
de histórias trágicas, estabelecendo suas conexões e cobrando providências
das esferas que têm a obrigação de tomá-las.
*
Chá e simpatia. É nome de filme, mas poderia ser dado também ao "Roda
Viva" da segunda-feira passada, não fosse o fato de que ali, pelo
que se viu na TV Cultura, os participantes tomaram água.
Difícil encontrar, no período recente, um dia de noticiário mais explosivo.
Enquanto Fernando Henrique Cardoso era entrevistado por representantes
de seis veículos de comunicação, entre eles a Folha, um ex-presidente
do Banco Central estava preso por determinação da CPI que investiga
o sistema financeiro.
No entanto, o bate-papo camarada pouco refletiu a temperatura dos
acontecimentos.
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