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São Paulo, domingo,
16 de maio de 1999
RENATA LO PRETE
Leitor e jornalista têm percepções diferentes a respeito de erros,
distorções e sensacionalismo no noticiário, além de desconfiarem
um do outro.
Esse desencontro ocupou boa parte das discussões na conferência
anual da ONO (Organization of News Ombudsmen).
Reunidos de domingo a quarta-feira em Chicago, 48 ouvidores de veículos
de comunicação analisaram os resultados de um levantamento conduzido
pela ASNE (American Society of Newspaper Editors).
Em dezembro passado, registrei aqui a primeira leva de conclusões
desse estudo, que tem por objetivo aferir a credibilidade da imprensa
e estimular experiências que visem incrementá-la.
Em resumo, o público disse que está sobrando opinião e faltando
informação de qualidade nos jornais.
Acusou-os ainda de promover ou derrubar histórias de acordo com
interesses de pessoas e grupos influentes, e de escolher os assuntos
menos pela importância do que pelo potencial de espetáculo.
Foram realizadas 3.000 entrevistas. Em seguida, uma pesquisa qualitativa
com 16 grupos ajudou a interpretar os dados obtidos.
A novidade é que 1.714 jornalistas de diários norte-americanos foram
submetidos a um elenco semelhante de perguntas.
Em pouco mais de cem páginas, o documento debatido na reunião da
ONO coteja números e depoimentos dos dois grupos.
Ao lado, apresento um extrato desse material. O quadro compara as
reações de leitores e jornalistas diante de determinadas afirmações
a respeito do trabalho da imprensa.
Há zonas de entendimento.
Em percentuais quase idênticos, as duas partes consideram fácil
perceber quando a isenção de uma reportagem é comprometida pelos
preconceitos de quem escreve.
Somados os percentuais dos que "concordam" e dos que "concordam
inteiramente", também existe coincidência na avaliação de que o
serviço é melhor nas praças não dominadas por um único jornal. Mas
há muitos degraus de separação.
Uma fatia expressivamente maior de leitores acha que informações
são publicadas sem a devida segurança, de olho na concorrência.
Eles são mais categóricos ao afirmar que a mídia é manipulada com
facilidade, e que histórias são exploradas além da conta apenas
para aumentar as vendas.
Os jornalistas endossam com mais entusiasmo a idéia de que sabem
ser cautelosos quando há risco para pessoas involuntariamente envolvidas
em uma reportagem.
Os leitores não estão tão convencidos disso.
Curiosidade: os jornalistas se consideram mais cínicos do que outros
profissionais, e o percentual dos que pensam assim é maior entre
a própria categoria do que entre o público em geral.
Além dos números, o relatório traz comentários de entrevistados
dos dois grupos.
Em alguns casos, os jornalistas se mostram mais rigorosos do que
os leitores na identificação dos problemas.
Em outros, devolvem as críticas.
Abaixo, algumas frases, colhidas de depoimentos variados. Sobre
erros gramaticais:
Leitor: "Antes havia revisão. Não sei como eles fazem agora".
Jornalista: "Cometemos falhas bobas por excesso de trabalho".
Leitor: "Parece que eles acabaram de sair do jardim da infância".
Jornalista: "Repórteres e editores tendem a acreditar que estão
certos. Por isso, não consultam manuais ou dicionários".
Sobre erros de informação:
Leitor: "Jornalista é jornalista. Não é geólogo, não é médico. Você
não pode confiar totalmente no que ele diz".
Jornalista: "Nos oitos anos em que trabalho aqui, só uma vez fui
questionado sobre informações de uma reportagem minha que não batiam
com as do concorrente".
Sobre fontes anônimas:
Leitor: "O jornal deve explicitar sua política sobre fontes anônimas.
Se não há certeza, a suspeita não pode ser vendida como fato".
Jornalista: "Fontes anônimas são um grande problema na apuração
jornalística. Por que devo confiar no discernimento de um repórter
que mal conheço?"
Sobre jornalistas:
Leitor: "Eles gostam quando coisas ruins acontecem na vida das pessoas".
Jornalista: "Ainda queremos acreditar que sabemos o que é melhor
para o público".
Leitor: "Assim que alguém vira herói, eles acham que têm a obrigação
de encontrar alguma coisa ruim".
Jornalista: "O leitor quer apenas ver suas idéias confirmadas e
se aborrece quando lhe contamos os fatos".
Leitor: "Se o jornal arruína a vida de alguém, como essa pessoa
será compensada?"
Jornalista: "Gastamos tempo demais pensando em credibilidade".
A amostra dá uma idéia do descompasso detectado pela pesquisa.
Não chega a surpreender que ele exista. É compreensível que a imprensa
faça uma avaliação de seu trabalho mais positiva do que a oferecida
pelo público.
Levantamento sobre outras profissões possivelmente chegaria a conclusão
semelhante.
Nem mesmo os idealizadores do estudo, claramente preocupados com
o declínio na leitura de jornais dos EUA, imaginam que a solução
para o problema da credibilidade esteja em simplesmente fazer o
que o leitor quer _e jamais fazer o que ele não quer.
As entrevistas revelam que parte da desconfiança poderia ser superada
caso a imprensa se empenhasse em mostrar ao público como e por que
determinadas decisões editoriais são tomadas.
"Certamente estaríamos dando um passo importante no sentido de construir
uma relação de confiança", diz a editora-executiva de um dos jornais
que está servindo de laboratório para projetos concebidos a partir
dos resultados da pesquisa.
"Merecemos crítica pelos erros que cometemos. O problema é que,
mesmo quando estamos certos, não nos preocupamos em explicar nossa
lógica ao leitor."
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