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São
Paulo, domingo, 30 de maio de 1999
RENATA LO PRETE
Desde o caso das pesquisas eleitorais do ano passado a ombudsman não
recebia tantas manifestações a respeito de um único assunto.
Até a noite de sexta-feira, 51 leitores me procuraram para falar sobre
a reportagem que revelou o mais completo bastidor da privatização
do sistema Telebrás.
Por diferença de 43 a 8, a maioria condenou a Folha pela divulgação,
na terça-feira, das conversas captadas por grampo telefônico no BNDES.
Recorre à ombudsman, normalmente, quem discorda do jornal (ao "Painel
do Leitor" chegaram mais mensagens de apoio do que reclamações). Ainda
assim, o placar é bastante expressivo.
Às pessoas que pediram minha posição, tenho a dizer que considero
a reportagem correta e importante. A Folha fez o que devia
ao publicá-la.
"Infantil", "maldosa", "leviana", "nojenta" e "retrógrada" foram alguns
dos termos empregados por leitores. Com mais frequência apareceu "sensacionalista",
palavra que vem sendo esvaziada de sentido pelo uso indiscriminado.
Adjetivos à parte, três acusações lideraram os protestos.
1. "Nada de novo foi trazido à tona pela Folha." É a
teoria do "café requentado". Acontece que há novidade.
O material apurado pelos jornalistas Fernando Rodrigues e Elvira Lobato
mostra, pela primeira vez, que o presidente da República não apenas
sabia da ação de subordinados para favorecer um dos consórcios no
leilão, como autorizou que seu nome fosse usado para esse fim.
Além disso, as 46 fitas obtidas pela Folha deixam claro que
o "café" anteriormente servido _a parcela dos diálogos vazada em novembro
passado_ foi preparado de maneira a livrar Fernando Henrique Cardoso
de embaraços.
O que um leitor chamou de "apenas algumas conversas do presidente"
faz toda a diferença.
Tanto o governo sabe disso que tratou de promover a mais coordenada
e instantânea "operação abafa" de seus quatro anos e meio de vida.
Poucas vezes informação dessa envergadura minguou tão rapidamente
no noticiário.
2. "Podemos comparar a Folha a um receptor de mercadoria
roubada, por ter publicado transcrições de escutas ilegais." Grampo
é crime. Como tal, tem de ser apurado e punido.
Isso não exclui o fato de que o jornal, uma vez ciente do conteúdo
das gravações e de sua autenticidade, tem o dever de revelar a porção
que não diz respeito à vida pessoal dos grampeados, mas sim ao trato
da coisa pública.
Como subproduto da crítica à divulgação das fitas, leitores perguntaram
"a quem interessa" seu vazamento. Embora não determine se a notícia
deve ou não ser publicada, a questão é legítima e, a meu ver, ainda
não foi devidamente respondida pela Folha.
Concentrado no teor dos diálogos, o jornal até agora pouco fez para
interpretar as disputas que estão por trás do calendário dos vazamentos
para a imprensa.
Da mesma forma, não tem dado a atenção devida ao desenrolar das investigações
sobre a autoria da escuta. Nesse aspecto, o avanço mais significativo
dos últimos dias partiu do "Correio Braziliense", que revelou a existência
de um outro grampo, este autorizado pela Justiça, feito pela Polícia
Federal para chegar ao responsável pelas gravações no BNDES.
Ao longo da semana, cresceram os sinais de que o grampo nasceu dentro
do governo.
As deficiências têm de ser sanadas, sob pena de a Folha deixar
a impressão de que faz vista grossa à ilegalidade e ao jogo de interesses
que lhe garantiram o furo.
3. "É princípio básico da imparcialidade ouvir os dois lados."
Leitores condenaram o jornal por não ter trazido, na própria terça-feira,
a posição do Palácio do Planalto sobre a conversa em que FHC libera
o então presidente do BNDES, André Lara Resende, para usar seu nome
na operação que visava fortalecer o consórcio liderado pelo banco
Opportunity na disputa pela Tele Norte Leste.
A secretária de Redação, Eleonora de Lucena, responde com três argumentos:
a) devido à importância do material, a Folha buscou preservar
sua exclusividade;
b) a versão do governo sobre a venda da estatal, que já era conhecida,
foi registrada no sobretítulo e nas primeiras linhas do texto da manchete;
c) nas edições subsequentes, o jornal deu amplo espaço (duas manchetes
incluídas) às manifestações oficiais.
O primeiro item é ponderável. Os dois últimos, verdadeiros. Mas, no
que se refere ao princípio, os leitores têm um ponto.
E, dada a extensividade das transcrições, é pouco provável que um
telefonema para a assessoria do presidente, na noite de segunda-feira,
tivesse resultado em clones da reportagem no dia seguinte.
Enquanto as mensagens que resumi acima questionavam procedimentos
jornalísticos, outras poderiam ser condensadas em três palavras: "não
quero saber", seja porque "a Bolsa vai cair", seja porque "não aguento
mais notícia ruim".
Entre os leitores que elogiaram a reportagem, um pediu que o jornal
não silencie diante da reação do governo: "Espero que as tentativas
de desqualificar o serviço prestado pela Folha não fiquem sem
resposta."
Outro criticou a repercussão do caso em outros veículos: "A maioria
fez assessoria de imprensa".
No "Globo" de quinta-feira, FHC se mostrava preocupado com o "tipo
de jornalismo" que resultou na reportagem sobre seu envolvimento no
leilão das teles.
Segundo o jornal, o presidente disse que o modelo serve apenas à "competitividade
da notícia", e ameaça "arrastar as instituições a uma vulnerabilidade
perigosa".
A Folha merece crítica da ombudsman por muita coisa, mas não
está errado o tipo de jornalismo que foi praticado nesse episódio.
Como disse FHC para André Lara Resende, "não tenha dúvida": esse pseudodebate
é alimentado na tentativa de encobrir a verdadeira discussão que teria
de ser feita.
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