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São Paulo, domingo,
13 de junho de 1999
RENATA LO PRETE
Duas crianças de semblante triste.
Mariana, 11, exibe caranguejos apanhados no manguezal em Guapimirim
(RJ). Ela e outros de sua idade vivem de vender os bichos.
O menino sem-terra (nome e idade não fornecidos) entrega ao policial
militar, membro do Batalhão de Choque enfileirado, um pacote de
macarrão. A comida fora obtida em saque do MST a três caminhões,
perto de Porto Feliz (SP).
Duas imagens de primeira página. Dois retratos brasileiros que,
com uma "mãozinha" da Folha, tiveram sua carga dramática
aumentada.
Quando dei com a menina na capa de domingo passado, pensei que precisava
de boa explicação para não concluir que se tratava de foto armada.
A lama que sujava seu rosto mais parecia pintura, tão definidos
eram os contornos. A boca e a região dos olhos estavam geometricamente
preservadas. Cabelo e pescoço, intactos. A camiseta, quase.
Entre segunda e terça-feira, seis leitores me procuraram com a mesma
desconfiança.
"Sem desconsiderar a situação das crianças que têm de trabalhar
em local insalubre, que merece a atenção de todos nós, noto que
a foto foi preparada para causar maior impacto, o que é eticamente
incorreto", escreveu um deles.
"A Folha não precisa exagerar a realidade", disse outro.
"Sabemos como ela é cruel."
A imagem do menino, publicada em 29 de maio, igualmente no alto
da capa, havia despertado reação similar em dois leitores.
Um deles desafiou o jornal a mostrar outras fotos da mesma sequência,
para "provar que a devolução de alimentos aos policiais realmente
foi feita da forma piegas que quiseram nos fazer acreditar".
A Redação sustenta que as cenas não foram montadas.
É investigação que costuma terminar em beco sem saída. Fica a palavra
do autor contra o ceticismo de quem olha a imagem e não se convence
de sua espontaneidade.
Ainda que se tome o esclarecimento como verdadeiro, a Folha
não escapa da acusação de ter manipulado, com ou sem intenção, a
informação contida nas fotos.
Se não o fez de maneira explícita, orientando a caracterização da
menina ou o gesto do menino, chegou a resultado semelhante contando
apenas parte das histórias.
Nos dois casos, o jornal reconhece ter omitido elementos importantes
para a compreensão do contexto em que foram feitas as imagens.
Em resposta às suspeitas de leitores e da ombudsman, a fotógrafa
Patricia Santos conta que, quando chegou ao manguezal, encontrou
Mariana com o rosto pintado.
A máscara de lama, segundo Santos, havia sido feita pela menina
para se proteger dos mosquitos. A explicação saiu terça-feira no
"Painel do Leitor", junto a um protesto.
Por que não constava do texto que acompanhou a foto de domingo?
O dado não foi transmitido à Redação porque, de início, a fotógrafa
não o considerou relevante. Ela reconhece que estava errada.
A única chance de essa foto ser levada a sério reside no esclarecimento
de que "maquiagem" houve; apenas o jornal afirma que não foi feita
por ele, sendo prática das crianças que trabalham ali.
Na sexta-feira, um leitor me procurou para dizer que não ficou satisfeito
com a nota na página 3. Para ele, a história permanece mal contada.
Embora menos flagrante, o problema com a foto do menino sem-terra
é mais grave. Nesse caso, o que deixou de ser contado muda radicalmente
o significado da imagem.
Não partiu do garoto a iniciativa de se aproximar da "muralha" do
Batalhão de Choque. Antes dele, outras tantas crianças já haviam
depositado alimentos junto aos soldados, orientadas pelos adultos
do MST. Foi essa a estratégia escolhida, pela coordenação do movimento,
para obedecer ao mandado judicial que determinou a apreensão do
produto do saque.
O episódio é mais sério também porque, dessa vez, a Redação tinha
conhecimento da informação que acabou ausente tanto da capa quanto
da reportagem interna.
Por que algo dessa relevância foi omitido? Falha de edição, de acordo
com o relatório que me foi encaminhado.
Na quarta-feira, a Folha trouxe carta do comandante do Policiamento
de Choque. Ele convidava o jornal a mostrar o momento anterior da
cena, em que uma mulher segura o menino pelo braço e o força a levar
o pacote ao PM.
A edição não recebeu essa imagem, mas ela chegou a ser feita. O
fotógrafo Frâncio Hollanda afirma que optou por enviar a que mostrava
apenas a criança e o soldado, "por ser a de melhor qualidade técnica
e plasticidade".
Esqueceu de dizer que é também a mais favorável ao MST.
As imagens da menina no manguezal e do menino no assentamento tratam
de feridas sociais verdadeiras, que, como diz o leitor, merecem
toda a atenção.
O que está em discussão é o compromisso de reunir as informações
necessárias para contar a história por inteiro, ainda que o resultado
seja menos emocionante.
Não por acaso, as imagens em questão são de crianças. Do fotógrafo
ao editor, os envolvidos no trabalho jornalístico sabem que o recurso
faz sucesso. É o que um colega chamou, em discussão recente comigo,
de efeito "A Vida É Bela".
O problema é que, usado na base do piloto automático, ele faz com
que o jornal seja menos rigoroso do que deveria na hora de fazer
perguntas sobre as fotos que pretende publicar.
A esse respeito, um leitor indagou se "ninguém, em todos os estágios
que uma notícia enfrenta até chegar ao papel, percebeu" que havia
algo estranho com a foto da catadora de caranguejos.
A questão remete a outro problema: o desleixo histórico com que
são feitas as legendas na Folha.
O "Manual da Redação" diz que elas merecem "tanto cuidado quanto
os títulos". Devem "salientar todo aspecto relevante e dar informação
adicional sobre o contexto em que a foto foi tirada".
Foi o que o jornal ficou devendo nas duas fotos analisadas.
Como regra, as legendas da Folha obedecem ao princípio que
o "Manual" condena: "simplesmente descrever aquilo que qualquer
leitor pode ver por si só". O presidente cumprimenta, o fiscal depõe,
o jogador chuta e a modelo desfila. Não adianta esperar mais do
que isso.
*
No domingo passado, Mundo publicou artigo do jornalista e escritor
Renato Pompeu intitulado "Guerra acaba exatamente onde começou".
Em contraste com boa parte das análises sobre o fim dos ataques
da Otan à Iugoslávia, ele defendia a idéia de que não houve propriamente
capitulação de Slobodan Milosevic, pois "os bombardeios conseguiram
'arrancar' da Sérvia o que ela havia proposto" nas negociações que
precederam a ofensiva militar.
A edição colocou sobre o texto a rubrica "Visão pró-sérvia", o que
deixou Pompeu enfurecido.
"Não sou pró-sérvio e acho que a questão tem de ser resolvida no
âmbito da ONU", escreveu ele em carta que o jornal registrou na
terça-feira.
Um leitor concordou com o protesto: "Acabei de concluir que a cobertura
da Folha sobre a guerra por Kosovo apresenta visão pró-Otan".
"Cheguei a essa conclusão depois de ler e reler o referido artigo
sem entender por que o mesmo foi considerado 'visão pró-Sérvia'."
"Gostaria de ver a Folha, nesse e em outros assuntos, com
uma visão mais, digamos, pró-leitor."
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Não foi bem como a Folha
mostrou
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