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São Paulo, domingo,
20 de junho de 1999
RENATA LO PRETE
Números errados saem todo dia no jornal. Embora grosseiro, o disparate
em questão ilustra a coluna de hoje não por ter ocorrido, mas pelo
tratamento que lhe foi dispensado pela Redação.
No sábado, dia 12, a Folha noticiou a suspeita de que um
edital da prefeitura paulistana foi dirigido para favorecer determinada
empresa em licitação do programa Leve-Leite, uma das atrações da
campanha em que Paulo Maluf elegeu Celso Pitta.
De acordo com a reportagem, o negócio, no valor de R$ 127 milhões,
"prevê o fornecimento de 1,6 milhão de toneladas de leite em pó
para o município durante um ano".
Na manhã de segunda-feira, encontrei o alerta de um leitor: "É leite
demais".
Ele fez uma conta simples, baseada em tamanho da população, quantidade
necessária de gramas para produzir um litro de leite e período coberto
pela licitação.
Sua conclusão, registrada por mim na crítica interna do mesmo dia:
pelo número da Folha, chega-se a algo como 2,7 litros de
leite por dia para cada habitante.
Apesar do absurdo da cifra, nada de retificação na terça-feira.
Nem na quarta. Perguntei à Secretaria de Redação o que havia. O
"erramos" saiu no dia seguinte. Muito mal escrito, nem sequer esclarecia
em que cidade ocorrera a licitação. Mas lá estavam as toneladas
certas: 16 mil.
O editor de Cotidiano/São Paulo, Vaguinaldo Marinheiro, nega
que a intervenção da ombudsman tenha motivado o reconhecimento do
erro. Demorou, segundo ele, porque o dado estava sendo checado.
Não faço a menor questão de ser madrinha das correções que saem
na página 3. É até melhor que a providência parta do jornal.
Mas sinceramente não entendo como uma bobagem tão flagrante precisa
de 48 horas para ser constatada, ou que tanta dificuldade existe
em levantar o número correto.
Meu ceticismo cresce porque o episódio não é isolado. Com frequência,
suspeitas de erros anotadas na crítica interna são deixadas sem
resposta até que uma segunda ou terceira cobrança surta algum efeito.
É compreensível que a Redação desconsidere, desse documento diário,
opiniões da ombudsman com as quais não concorda. Mas impressiona
que não se sinta obrigada a prestar conta de seus erros.
A indiferença é ainda maior nos casos que não ganham publicidade
na crítica interna. Aí, a espera do leitor pode durar bem mais do
que dias.
Recentemente promovi, com a ajuda da direção do jornal, uma campanha
para liquidar processos abandonados nas gavetas da Redação.
Quem visse a idade de alguns deles poderia imaginar que demandavam
longa investigação da parte dos jornalistas. Que nada. Confira alguns
dos "erramos" arrancados a fórceps:
- Brasil reconheceu, depois de três meses, que havia grafado
incorretamente o nome da barragem que cobria Canudos (é Cocorobó,
e não Cororobó).
- Mundo concedeu, igualmente depois de três meses, que a
cidade francesa de Chamonix fica próxima à fronteira com a Itália,
e não com a Alemanha.
- Turismo levou cinco meses para voltar atrás da informação
de que a distância entre a Terra e o Sol interferiria na temperatura
do planeta. A mesma editoria precisou também de cinco meses para
aceitar que foi São Vicente, e não Porto Seguro, a primeira cidade
fundada no Brasil.
Ou seja, bobagens que poderiam ter sido resolvidas de um dia para
outro, tivesse havido vontade dos envolvidos.
De novo, são erros pontuais. Importam muito menos do que o tempo
que o leitor teve de esperar até receber uma satisfação da Folha.
Tanto faz se a demora resulta de puro descaso ou da expectativa
infantil de que a cobrança caia no esquecimento.
Nenhuma das hipóteses é boa para o jornal. Se o leitor não o vê
tratar com seriedade as questões pequenas, não tem por que acreditar
que a atitude será diferente com as grandes.
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