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São
Paulo, domingo, 04 de julho de 1999
RENATA LO PRETE
"Silenciosa e quase improvável." Assim foi descrita, na manchete
da "Gazeta Mercantil" de sexta-feira, a fusão de Brahma e Antarctica.
Os adjetivos refletem a completa surpresa da imprensa diante do
anúncio, extensiva ao diário especializado em economia e negócios.
Pelas cifras e símbolos envolvidos, a história tem dimensão inédita
no Brasil. Os jornalistas estavam tão no escuro quanto os leitores,
que esperam dos primeiros não apenas informação como instrumentos
para avaliá-la.
Diante do inesperado, a Folha não se saiu muito bem.
Sua edição de sexta-feira tinha aparência _amplo destaque na capa
e três páginas internas dedicadas ao assunto.
Olhada de perto, no entanto, ela carecia de elementos relevantes.
Alguns exemplos que anotei na crítica interna:
- apesar da profusão de bilhões (de reais e de litros de bebida)
em textos e quadros, o jornal não dimensionava adequadamente a associação.
Se concretizada, esclarecia a "Gazeta", ela dará origem à maior
empresa privada de capital nacional do Brasil.
- não havia na cobertura uma linha que fosse sobre demissões. Anúncios
desse tipo jamais abordam o tema, mas é obrigação do jornal colocá-lo
em pauta. Ao "Globo", o presidente da Brahma disse o seguinte: "Vamos
aproveitar o pessoal na medida do possível, mas vamos fechar fábricas
que estão na mesma região".
- além dele, também os presidentes da Antarctica e do Cade, órgão
governamental que vai julgar se o negócio fere a Lei Antitruste,
foram ouvidos em outros veículos.
- jornal habitualmente rico em opiniões e análises, a Folha
se limitou ao relato, pouco discutindo os riscos de cartelização
ou o marketing da "primeira multinacional verde-e-amarela". Apenas
a coluna de Eliane Cantanhêde notou o detalhe insólito de o acordo
ter sido anunciado no Palácio da Alvorada, com FHC no papel de garoto-propaganda
da transação que seu governo terá de averiguar.
Parte dessas deficiências foi sanada na edição de ontem, mas o cochilo
inicial indica que faltou agilidade diante de algo grande e não
programado, ou seja, da pura notícia.
A Folha costuma se mover melhor no noticiário de política
e macroeconomia do que no de negócios (exemplo recente foi a fraca
reportagem sobre o arrendamento de lojas da rede de supermercados
Paes Mendonça pelo grupo Pão de Açúcar).
Essa fragilidade merece reflexão por parte do jornal. Tudo indica
que a importância do assunto só tende a crescer.
*
Diante dos jornais do início da semana passada, pensei que não havia
retornado de Portugal, onde estive até segunda-feira para participar
de um encontro sobre liberdade de informação.
Era "cimeira" para todos os lados. Já tinha conhecimento, antes
de viajar, de que seria esse o nome oficial da reunião, no Rio,
de chefes de Estado e de governo da América Latina, Caribe e União
Européia.
Ainda assim, fiquei surpresa com a rápida adesão dos jornais à palavra,
em detrimento da boa e velha "cúpula". Nada contra a diversificação
do vocabulário, mas o fenômeno não deixa de ser engraçado.
Em quadro publicado ao longo do evento, a Folha explicava
que o termo designa reuniões de cúpula em "todos os outros" países
de língua portuguesa. Em uma ocasião, informou que a escolha havia
resultado do uso de um tradutor português em reunião preparatória
da "cimeira".
O esclarecimento não satisfez este leitor:
"A acreditar na explicação da Folha, acreditarei em contos
da carochinha. Se a tradução de 'summit' foi a de cimeira, isso
não ocorreu porque em São Tomé e Príncipe ou em Macau se fala assim,
mas porque os tradutores são de fala lusitana, e não instruídos
no português do Brasil."
"Esse é um caso claríssimo em que língua é poder. Portugal, país
pequeno e de pouca importância no mundo, é mais ouvido na União
Européia do que o Brasil, com suas dimensões e economia. Pode assim
impor sua versão do mundo, a cimeira, em vez da nossa, a cúpula."
"Independentemente de a escolha ter sido ou não proposital, o episódio
é significativo de nossa inferioridade em face da UE."
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