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São
Paulo, domingo, 11 de julho de
1999
RENATA LO PRETE
Por ter
viajado no período em que se deu o episódio, achei que havia perdido
a oportunidade de comentar a polêmica em torno da referência feita,
na capa da Folha, ao novo diretor-geral da Polícia Federal.
No entanto, três leitores me procuraram, na semana passada, para
pedir uma posição sobre o assunto. Percebi que devia a eles uma
satisfação.
Para quem não se lembra, ou nem chegou a reparar, em 22 de junho
o jornal noticiou em manchete a indicação de Agílio Monteiro Filho
para o cargo. Na segunda frase do texto, logo depois do nome do
delegado e de uma vírgula, vinha a explicação: "que é negro".
Afinal, é ou não racista a observação? É. Não que tenha sido esse
o propósito da Folha, mas a ausência de intenção não elimina
a discriminação.
Diante dos protestos, o jornal argumentou que o fato era relevante,
porque inédito.
No primeiro momento, cheguei a considerar a reação exagerada. Mas
um pouco de reflexão me fez concluir que não havia justificativa
plausível para a oração explicativa.
O alegado ineditismo só veio a ser estabelecido no dia seguinte.
Mesmo antes de certificar-se dele, portanto, o jornal insistiu no
comentário (de resto inútil, já que a cor da pele do personagem
da notícia podia ser constatada na foto).
Mais importante, cabe perguntar o que há de excepcional no fato
de a PF estar sob o comando de um negro. A menção é compreensível
quando se trata de cargos de peso institucional: o primeiro presidente,
prefeito, general. Há, nessas situações, o caráter de registro histórico.
Não é o caso da PF, um entre tantos órgãos do governo federal.
Baixada a poeira, a direção do jornal reconheceu que o texto, tal
como publicado, foi infeliz. Mas, à diferença da ombudsman, acredita
que, tivesse o ineditismo sido confirmado naquele dia, ele deveria
ter constado da manchete.
O "que é negro'' passou relativamente despercebido pelos leitores.
Duas cartas de protesto saíram na página 3.
O quase silêncio mostra o quanto a sociedade brasileira é condescendente
com manifestações de preconceito racial.
É comum, entre jornalistas, zombar dos exageros do politicamente
correto. O exemplo em questão mostra que não há motivo para tanta
piada.
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