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São
Paulo, domingo, 25 de julho de 1999
RENATA LO PRETE
Há pouco tempo, um leitor inconformado com certo disparate que viu
publicado fez referência à "novilíngua" de "1984". Dizia ele que o
jornal, como no idioma descrito por George Orwell no livro, havia
invertido significados para adaptá-los à sua conveniência.
A comparação me voltou à lembrança diante de um episódio em que a
Folha, flagrada em erro, não apenas usou de eufemismos na hora
de reconhecê-lo como fez acrobacias na tentativa de provar que enganados
estavam os leitores que identificaram o problema.
No dia 12 passado, na capa de seu caderno semanal de investimentos,
o jornal contou a história de João Carlos de Rosis, que em 1985 colocou
Cr$ 10 mil (a moeda era o cruzeiro) em uma caderneta de poupança.
O valor seria parte do sinal de um apartamento. Não foram feitos novos
depósitos, explicava a reportagem, porque o ferramenteiro acabou optando
por um financiamento.
No alto da página, o resumo: "Em 14 anos, a poupança para comprar
um imóvel resultou em R$ 15". Era o saldo da conta em junho deste
ano.
A partir do exemplo triste, a manchete do Folhainvest advertia:
"Cuide para que sua aplicação não vire pó". O texto dizia que não
se pode esquecer do dinheiro depositado. Aconselhava a dividir as
economias entre diferentes formas de aplicação.
Destacado também na Primeira Página, o caso era do tipo que
deixa qualquer leitor pensando no que fazer para que suas economias
não tenham destino semelhante. Intrigados, vários se puseram a calcular.
O alarme começou a soar no mesmo dia. Uma mensagem após outra avisava:
havia um equívoco sério no raciocínio da Folha.
Todas apontavam mais ou menos o mesmo que esta carta, publicada três
dias depois no "Painel do Leitor":
"A importância mencionada representava 6% do salário mínimo da época,
ou US$ 3. Que isso fosse suficiente para dar como sinal na compra
de um imóvel é absurdo."
"Parece-me que o investimento não foi de todo mau. Com R$ 15, hoje,
podem-se adquirir não US$ 3, mas US$ 8."
Em um país com sucessivos planos de estabilização e moedas na história
recente, a Folha atirou os Cr$ 10 mil no ar sem esclarecer
o que a quantia significava em 1985.
Números fora de contexto aparecem todo dia no jornal. Bilhões de dólares
ou valores irrisórios de 14 anos atrás, as reportagens estão repletas
de cifras cujo significado só pode ser compreendido mediante comparação.
Muitas vezes ela não é feita.
Nos casos mais inofensivos, o número vira uma espécie de enfeite.
Não chega a atrapalhar, mas pouco acrescenta.
O exemplo em questão é de espécie mais grave. A omissão resultou na
aparência de uma perda que jamais existiu na escala sugerida, simplesmente
porque o valor esquecido no banco era por demais modesto. No jargão
dos jornalistas, isso se chama "esquentar matéria".
Do que foi construído em torno do depósito de João Carlos de Rosis,
sobrevive apenas a orientação de ficar atento ao dinheiro investido,
comparar a rentabilidade à de outras aplicações e, na medida do possível,
diversificar o portfolio.
Mas isso é mais ou menos como recomendar ao leitor que reflita antes
de tomar decisões, mantenha as crianças longe do fogão ou ande pela
sombra.
No mesmo dia em que saiu a carta, a seção "Erramos" reconhecia a omissão,
reproduzia as comparações fornecidas pelo leitor e completava: "Como
o texto informava que a intenção do investidor era poupar para dar
sinal num imóvel e não fornecia outras indicações do valor real do
investimento na época, o leitor foi induzido a acreditar numa perda
maior do que a ocorrida".
Aqui reside outro problema que, assim como o dos números jogados a
esmo, não é exclusivo dessa reportagem: o "erramos" maquiado.
Vira e mexe surgem, no pé da página 3, notas escritas de modo a cumprir
a formalidade de corrigir o erro e, ao mesmo tempo, esconder sua verdadeira
dimensão.
Há dois eufemismos na retratação publicada:
a) não faltaram "outras indicações" do valor real; faltou qualquer
indicação.
b) a perda não foi menor do que se deu a entender; ela não existiu.
A nota não permitia entender que a reportagem como um todo estava
comprometida. No final, um aviso: "O Folhainvest voltará ao
assunto em sua próxima edição".
Foi aí que a coisa adquiriu contornos orwellianos. Os supostos esclarecimentos,
capa da edição de segunda-feira passada, nem sequer mencionavam que
o jornal tinha falhado.
Na contramão do "erramos", que havia registrado a conversão dos Cr$
10 mil para dólar e salário mínimo na época, a nova reportagem anunciava:
"Esqueça o dólar e o salário mínimo; só o índice de correção mostra
seu ganho no longo prazo".
O jornal afirmou que, devido às constantes mudanças econômicas, o
único parâmetro correto para atualizar o valor é o índice de inflação
da moeda em que a aplicação foi feita. Acrescentou que, dentre os
índices disponíveis, o IGP-DI, calculado pela Fundação Getúlio Vargas,
seria o mais indicado.
No meio do caminho, revelou que a aplicação de Rosis era, na verdade,
a primeira de dez parcelas do sinal de um imóvel popular.
Comparou-a a quatro lanches do Mc Donald's, na época. "Hoje, com US$
3 o brasileiro só consegue comprar 1,5 lanche."
Por fim, o texto estimava que, com "disciplina espartana" e "a maior
parte de suas economias nas melhores aplicações", o ferramenteiro
poderia ter acumulado até R$ 2.373 no período.
Como não podia mais falar em perda, o jornal mudou de assunto e passou
a especular sobre quanto Rosis teria deixado de ganhar.
Diversionismo é tática perigosa. As reações que recebi na semana passada
foram mais inflamadas do que as anteriores. "A Folha não teve
humildade para reconhecer que errou", escreveu um leitor.
A editora do Folhainvest, Mara Luquet, dá razão parcial aos
protestos. "A reportagem não contextualizou com o devido destaque
o valor aplicado", diz.
Mas não vê erro na tese. "Como demonstramos na última edição, o relevante
é a relação entre o valor do dinheiro e o que ele comprava na época.
Cr$ 10 mil equivaliam a uma parcela do sinal de um imóvel popular.
Os R$ 15, hoje, não podem ser equiparados a isso."
A pedido da ombudsman, o professor de matemática financeira José Dutra
Vieira Sobrinho analisou todo o material.
"A conclusão da primeira reportagem era enganosa", afirma, "pois levava
a crer na deterioração de uma poupança relevante para compra de imóvel".
Ele concorda com a análise de que o dólar não é o parâmetro mais apropriado
para efetuar a atualização. Pelo IGP-DI, os Cr$ 10 mil seriam hoje
R$ 11.
Seja qual for o critério, o professor é taxativo: "Não houve perda
real". O aplicador poderia ter se dado melhor em outras modalidades?
Sem dúvida, mas não foi essa a informação questionada pelos leitores.
Dutra considera "absurda" a projeção de que os Cr$ 10 mil poderiam
ter se transformado em R$ 2.373.
"O artigo tentava provar que o dólar não é uma boa referência", escreveu
um outro leitor. "A Folha explicou, explicou, explicou, mas
não explicou por que não usou NENHUMA referência que julgasse adequada
para que o leitor entendesse quanto valiam os Cr$ 10 mil."
Xeque-mate.
Muito mais do que um caso de mau uso de números, este diz respeito
à atitude do jornal diante do erro. Foi a reportagem, e não a poupança
do ferramenteiro, que virou pó. Mas a Folha preferiu decretar
que errados estavam os outros. Até a arrogância do silêncio teria
sido menos constrangedora.
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