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São
Paulo, domingo, 26 de setembro de 1999
RENATA LO PRETE
Decorridas duas semanas desde a publicação do "Ranking da Ciência",
há 50 nomes injustamente omitidos da lista dos pesquisadores brasileiros
com maior influência mundial nas áreas de física, matemática, química
e bioquímica.
Na página 1-12 da edição de hoje, uma reportagem traz as retificações
e tenta explicar por que a iniciativa da Folha resultou em
tantos erros.
Nada garante que essa correção seja a última. O jornal constatou tal
número porque foi procurado por atingidos.
Como está, a conta já impressiona (50 ausências em uma relação de
494 cientistas). Mas pode crescer. Basta que outros pesquisadores
não mencionados se apresentem e demonstrem preencher os requisitos
para figurar na lista.
Para estabelecer a relevância de uma pesquisa, o levantamento utilizou
como critério o número de citações feitas a ela em outros estudos,
divulgados em publicações científicas consideradas de alto nível.
Em resumo, foram "eleitos" os pesquisadores cujos trabalhos conquistaram
acima de certo número de citações.
O levantamento foi realizado por uma equipe de especialistas em avaliação
científica. A Folha decidiu manter seus nomes em sigilo, sob
o argumento de que se buscou evitar interferências. O jornal lembrou
que o procedimento é semelhante ao adotado pelas revistas internacionais
mais conceituadas.
Não obstante os cuidados e mais de um ano consumido no projeto, os
problemas detectados após a publicação foram muitos e graves. Os principais:
a) omissão de nomes plenamente qualificados para constar da lista;
b) distorções nos rankings de instituições com mais pesquisadores
"eleitos";
c) erro no número de citações atribuídas a cientistas. Além dessas
três categorias gerais, várias pessoas me procuraram para apontar
conflito específico em bioquímica.
Consideram que, sob esse chapéu, foram abrigados pesquisadores de
áreas muito distintas, e que não ficou claro por que determinados
nomes foram aceitos ali e outros não.
Exemplo. Nessa área, o líder do ranking é um farmacologista. Mas,
a um outro que apresentou à ombudsman as credenciais necessárias para
aparecer na lista, a Redação respondeu que o nome dele seria apreciado
em um futuro levantamento, abrangendo a área de ciências biomédicas.
Ao mesmo tempo, o ranking traz, entre outros "E.T.s", um parasitologista
(algo bem diverso da bioquímica). Da reportagem-erramos publicada
hoje pode-se dizer uma coisa boa e outra ruim.
A boa é que o jornal agiu com transparência. Não procurou esconder
os erros nem subestimar seu alcance. Levou o caso à Primeira Página,
onde havia anunciado o ranking.
A ruim é que persiste a fragilidade da classificação estabelecida
pela Folha, seja porque podem existir mais omissões, seja porque
é impreciso comparar as citações dos cientistas listados há 15 dias
com as dos que foram resgatados hoje (os números correspondem a períodos
diferentes).
Para sanar o problema, só fazendo tudo de novo, aperfeiçoando os mecanismos
de captação e checagem das informações. A discussão pode parecer distante
para muitos leitores. É bom pensar, no entanto, no que ela pode representar
para os envolvidos.
Para ficar em um único exemplo, o físico Mario Baibich, da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, ficou fora do ranking apesar de reunir
mais do que dez vezes o número exigido de citações.
Refeitas as contas, descobriu-se que é dele nada menos do que o quarto
lugar entre os pesquisadores da área. Detalhe: Baibich já havia sido
esquecido na edição anterior, em 1995. Segundo me relatou, na ocasião
o jornal lhe garantiu que isso não voltaria a ocorrer.
Ao apresentar o atual "Ranking da Ciência", a Folha disse que
pretendia "fornecer subsídios para análises e estudos sobre o desempenho
e a produtividade de pesquisadores e instituições". Por mais elogiável
que tenha sido a iniciativa, o saldo de erros é grande demais para
quem pretende ser árbitro da excelência.
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