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São
Paulo, domingo, 01 de agosto de
1999
RENATA LO PRETE
A Folha está certa quando nota que o governo subestimou o
alcance da paralisação dos caminhoneiros e demorou para tomar providências
a respeito. O problema é que o mesmo pode ser dito do jornal. Na
segunda-feira passada, quando teve início o protesto, a edição não
trazia uma linha que fosse sobre o assunto.
Pode-se creditar o cochilo ao esquema de fechamentos antecipados
do fim-de-semana, ou alegar que não havia como prever as dimensões
que o movimento assumiria. De todo modo, foi o primeiro sinal de
falta de sintonia com a notícia.
No dia seguinte, com estradas já bloqueadas, a chamada da Primeira
Página remetia o leitor para um único texto, sem mapa ou outro
recurso que permitisse identificar as regiões mais afetadas e os
pontos críticos das estradas.
O pior aconteceu na edição de quarta-feira. A ameaça de desabastecimento
de combustíveis e alimentos levou a greve à manchete, mas o material
interno revelava miopia e improviso. Era preciso percorrer mais
da metade da reportagem principal até encontrar, ainda assim de
forma bastante esquemática, as reivindicações dos grevistas.
Pouca informação havia sobre Nélio Botelho, autoproclamado porta-voz
dos manifestantes, e nenhuma sobre paralisações da categoria registradas
anteriormente no país. Com pelo menos oito Estados atingidos por
transtornos, uma única foto ilustrava o noticiário. De novo, nada
de mapa.
Como a coisa cresceu tanto e de maneira tão rápida? O jornal não
tinha interpretação para oferecer ao leitor. Seja porque as evidências
de gravidade da situação se acumulavam, seja por autocrítica da
Redação, a cobertura melhorou nas edições de quinta (governo acenando
com uso do Exército) e sexta (anúncio do acordo que pôs fim à greve).
Mas não o bastante para reverter a avaliação do leitor que me procurou
na tarde de sexta. A Folha "demorou a acordar", disse.
Ele gostaria que os preços dos pedágios, ponto importante da pauta
dos grevistas, tivessem sido comparados aos que eram praticados
antes da concessão das estradas à iniciativa privada, e também aos
de outros países. Sentiu falta de exemplos do total gasto em pedágios
por um caminhão nos principais percursos da malha rodoviária.
Uma leitora assinalou no jornal a observação de que o governo havia
recebido, ainda em 98, alerta sobre a insatisfação explosiva dos
caminhoneiros, mas não lhe deu atenção. "Nem a imprensa", escreveu
à ombudsman.
Ela percebeu que a greve não foi o único evento da semana passada
em que a Folha mostrou lentidão nos reflexos. Antes houve
a rebelião na Febem.
Iniciada na noite de sábado, demorou até terça-feira para que chegasse
à Primeira Página. Nesse dia, apesar de transcorridas mais
de 50 horas de destruição e fuga em massa de menores no complexo
do Tatuapé, o assunto não estava na capa do caderno São Paulo.
"O tratamento foi desleixado", reclamou a leitora. "Faltou empenho
para mostrar as raízes daquele inferno." Assim como ocorreu com
a greve, a cobertura melhorou com o passar dos dias. Mas, neste
caso, os sinais de recuperação só apareceram "a frio", ou seja,
com histórias publicadas depois de encerrada a rebelião. "Não é
só o governo que peca por letargia", concluiu a leitora.
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